LUIZ PACHECO (1925-2008)
«e, de repente, apetece morrer. Apetece o grande sossego, imóbil e definitivo. Realmente dormir acabado. O silêncio. A solidão sem sobressaltos paisagens caras novas. A paz connosco. E sem espelho. Não ver ninguém, já mais ninguém. Esta esperança mais que certa seja acompanhada de cantos e alegria. Sem olhar para trás, para quem fica andando, inda ache graça. Os imprevisíveis lamentáveis acidentes da nossa viagem, mesmo os veniais, aqueles de que nos não demos conta na altura mas ficaram vibrando ocultos em nós como alarmes parasitas, clandestinos mas insistentes, uma térmita na aparência insignificante inofensiva embora voraz e teimosa, continuaram ressoando corroendo desfazendo lentamente uma qualquer fibra que nunca saberemos onde estava e era importante. Não se previa já? ou seria então o alvo determinado, a rota desde sempre planeada que muito nos espanta permanecesse assim mascarada doutros caminhos possíveis. A sabermos tudo antes, que chateza, que falta de iniciativa! morte prematura. Insisto, jogando no António Maria Lisboa: apetece descansar e deixar os outros descansar e descansados.»
[in Textos de Guerrilha 2, Ler Editora, 1981]
Comments
Precisamente. Acabo de comprar a 1 Euro cada os dois volumes na livraria Ler de Campo de Ourique. Bela prosa.
Posted by: Pedro Marques | janeiro 25, 2008 01:29 AM
É um dos melhores textos do Luiz Pacheco.
Posted by: AQF | janeiro 29, 2008 05:31 PM
de repente encontro este fragmento e fico completamente desarmado, ferido e pensativo...
Posted by: Luís Galego | abril 23, 2008 11:18 AM
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Posted by: sex.boomsa.ru | julho 25, 2008 01:23 AM
iconoclasta que tanto deu a este país e que tão pouco
o que já é costume.
um rio a correr sempre ao contrário.
_______________abraço.
Posted by: piano | janeiro 23, 2009 06:36 PM
Infelizmente só conheci a escrita de Luiz Pacheco tarde no tempo, mas depressa me rendi à sua clareza e frontalidade de escrita. Um grande homem do mundo literário, lembro-me sempre dos seus diários e das suas entrevistas.
Posted by: Teresa Coutinho | fevereiro 3, 2009 04:56 PM
"apetece descansar e deixar os outros descansar e descansados"
A morte é desesperadora. A morte é o fim das leituras, o fim das viagens, o fim do amor, o fim do sexo, o fim da música, o fim de tudo. Todavia, é ótimo que haja morte. Nós temos de assumir nossa mortalidade. Quanto mais assumirmos isso, mais poderemos degustar a vida.
Se houvesse vida após a morte, eu seria condenado à eternidade? Ao que parece sim, embora isso não seja necessário. Mas se fosse eterno, isto é, se minha vida pós-morte implicasse uma duração infinita no tempo, eu mais perderia do que ganharia. Se fosse eterno não teria essa liberdade."
Posted by: Luana | março 10, 2009 06:27 PM
a querer ver versão vídeo/filme/curta/trailer para 2010
Posted by: BiblioFilmes Festival | maio 1, 2009 11:29 PM