FIM DE ANO
Antes fosse só 2007 a acabar.
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Antes fosse só 2007 a acabar.
Palavras devoradas pela chuva (o ruído da água a abater-se sobre telhados de zinco) e outras intempéries. Palavras escritas na parede há muitos anos (os ricos que paguem...) e mutiladas por cartazes publicitários. Palavras ditas na rua, voláteis, levantando a cabeça no meio de conversas alheias, desfazendo-se no ar como fumo. É delas que espero o que as outras nunca me dão.

Alice em rodopio.
Este ano, foram processados precisamente 918 milhões de SMS nas redes dos três operadores entre os dias 21 e 25 de Dezembro, ou seja, mais do dobro das mensagens enviadas e recebidas no período natalício de 2006, que totalizaram 459 milhões. Imaginando que cada português tem um telemóvel (incluindo bebés recém-nascidos e velhotes analfabetos), estes números sugerem que cada cidadão enviou em média 100 mensagens em cinco dias, ou 20 mensagens por dia. Sou só eu a ficar perplexo?
Então cá vai o top-10 dos meus blogues preferidos durante o ano de 2007:
1. Animais Domésticos
2. Pastoral Portuguesa
3. umblogsobrekleist
4. A Memória Inventada
5. A Terceira Noite
6. Estado Civil
7. Arrastão
8. A Causa foi Modificada
9. Vida Breve
10. BlogTailors
Os números vão de 1 a 10 porque é assim que se costumam fazer as listas (e porque os ex aequo não dão jeito nenhum). Só isso. À excepção dos três primeiros blogues, a restante ordem é pouco menos do que aleatória.
Analisar as embalagens natalícias que transbordam dos ecopontos.
Poesia magnética home made. Palavras portuguesas com íman, coladas ao branco do frigorífico.
Noite silenciosa. Ou nem por isso. Pela cidade, através de todas as janelas iluminadas, o mesmo som: papel rasgado, papel rasgado, papel rasgado.
De tão luminoso o céu parecia-me
o inferno
[in Pêndulo, de Paulo Tavares, Quasi, 2007]
Consumidores de todo o mundo, abstenham-se.
Só hoje li isto. E agora impunha-se encontrar aquele emoticon que cora.
O Funcionamento de certas coisas voltou a funcionar.
Acabou o Posto de Escuta (um blogue que mudou, sem o saber, a minha vida).
Dez anos e 134 milhões de euros depois do previsto, a extensão da linha azul até Santa Apolónia é hoje inaugurada. Para celebrar o facto, o Metropolitano de Lisboa abriu todas as cancelas da sua rede e deixa os passageiros circularem gratuitamente (como no dia da assinatura do Tratado de Lisboa).
A meu ver, mais valia assumir que a generosidade não celebra nada que mereça ser celebrado. Quando muito, serve como tardio pedido de desculpas.
O mais velho tem ciúmes do mais novo.
O NÚMERO DOS VERSOS
É muito igual a literatura, o que fica guardado nos livros.
Com o tempo mudou o verso, a curva, o arco,
o declive, o mal-estar, a maneira de enumerar as paisagens,
as coisas desconformes. Imagina tu as palavras que se repetem
à saída dos cinemas de província, atravessando o nevoeiro
das noites de Inverno; imagina tu estas ruas que ficam desertas
com o crepúsculo, os campos de batalha, os recados e bilhetes
de amor que nunca foram entregues, os caminhos
que levam da madrugada até ao coração da morte.
Poesia fácil, prosa quase; a música vem da sua melancolia
e não da aritmética sentimental, daquelas palavras
(sangue, grito, coração, litoral). Mais de um halo,
do sopro dos pinhais, dos destroços de um amor de toda a vida.
Desengana-te acerca da poesia, da elevação,
da circunstância, fala apenas - como os antigos - da aventura
de um solitário entre ruínas, levantando as pedras,
reerguendo muros, contando o número de vítimas.
Depois deste haverá outro terramoto, recordarás o vento
nas eiras, o musgo entre os carvalhos, o rio dobrando-se
numa curva onde há mais choupos, esse areal, essa ventania.
[in Se me Comovesse o Amor, Quasi, 2007]

Dos poetas anglo-saxónicos ao ogre do Eliseu, é sempre a descer. E agora, Carla? Também vais fazer uma canção sobre a doçura do nome Nicolas?
Tenho que confessar uma coisa: distraído como ando, não sabia sequer da existência do concurso Melhor Blogue Português 2007. Pior: não fazia ideia que o Invenção de Morel estava nomeado para a categoria Artes e Cultura. O oitavo lugar que este blogue acabou por obter é, também por isso, um bocadinho lisonjeiro.

A legenda são três versos, 17 sílabas no total.
Sandro está exausto porque começou hoje a trabalhar na Byblos, Carina diz que bibelôs também tem muitos lá em casa e nunca ficou cansada por lhes tirar o pó.
Uma delícia, as La Traviata Photo Sessions.
Asas fantásticas
temos dois pares
e cabelos espectaculares!
Pronta para salvar o mundo?
Não te esqueças da tua mala!
[Letra do jingle de um anúncio às bonecas Winx, repetido várias vezes por hora no Canal Panda]
Era esta a coisa que eu tinha para anunciar. A partir de agora, além das minhas divagações na ilha do inventor Morel, serei também Bibliotecário de Babel, naquela infinita rede de galerias hexagonais em que o universo se confunde com o que está nos livros.
É a conjura argentina. De um lado, Bioy Casares. Do outro, Borges. Acho que faz sentido.
O som dos passos cada vez mais velozes do Pedro, de uma ponta à outra do corredor.
Thank you very much, mr. Alexander Fleming.
O blogue continua offline por motivos clínicos. Está out, no choco, entre antibióticos, anti-inflamatórios e a recuperação de sonos em atraso.
«Olhe, eu queria 15 sonhos», disse o cliente. «Isso é daquele lado», respondeu a empregada de balcão. E, malgré Freud, não apontou para o Inconsciente.
Hoje este blogger está de baixa.
Subiu para uma cadeira e exclamou: "Eu sou mais alta do que o mundo!"
O guia de Campo de Ourique já não existe só em papel.
Espectros à cata de espectros.
Para o Pedro Mexia, com a derrota de Hugo Chávez (esse inesperado volte-face eleitoral que deixou o Público em maus lençóis), «a democracia mostrou que é o único regime que permite dizer pacificamente "por que no te callas"».
Eu só não concordo com o advérbio. Em vez de pacificamente, teria escrito legitimamente.

Marcelo Tas, um brasileiro hiperactivo com milhentas actividades (na televisão, na rádio, na imprensa, na Internet e nas mais variadas actividades multimedia), tem um blogue que ganhou, a 15 de Novembro, o título de "melhor weblogue de língua portuguesa" nos conceituados prémios BOB (Best of the Blogs), atribuídos pela Deutsche Welle. Para um artigo publicado no DN (suplemento DNGente), anteontem, o Marcelo dispôs-se a responder a algumas perguntas que lhe enviei por e-mail. Aqui fica a versão integral dessa mini-entrevista:
Que importância tem este prémio para si e para a notoriedade do seu blogue?
A importância é do tamanho da Internet: imensa. Desta vez, o Blog do Tas foi indicado em três categorias no The Bobs e foi premiado em duas [além do prémio para melhor blogger lusófono, venceu a votação do público internauta para melhor blogue absoluto]! Receber uma honraria dessas, é uma dupla recompensa: confirma-se alguma qualidade no trabalho; e amplia-se o contato com o público. Nunca imaginei, por exemplo, que estaria aqui agora a conceder uma entrevista a um jornal português.
Já estava à espera ou foi uma surpresa total (vá lá, seja sincero)?
Vou ser super sincero: esperava alguma coisa na categoria Videoweblog, justamente aquela em que não fui premiado. Venho da TV e estou há dois anos produzindo videos exclusivos para a internet. Da categoria em que tinha mais expectativa, não veio prémio algum. Portanto, foi uma surpresa imensa, acredite.
Como é que nasceu o seu interesse pela blogosfera?
Desde 2000, quando era apresentador do Vitrine, programa da TV Cultura, a rede pública de televisão com sede em São Paulo. Tive a idéia de criar um blogue do programa para estimular o contato com os telespectadores. A resposta foi explosiva e muito criativa. Em 2003, quando o UOL me convidou para hospedar o meu site pessoal por lá, decidi iniciar um pequeno weblog pessoal. O bichinho cresceu, virou um monstro, me devorou e hoje é o meu trabalho principal.
Que lugar é que o blogue ocupa nas suas muitas actividades?
O blogue é uma fricção instantânea de corações e mentes. Para mim, serve como um laboratório de experiências profissionais e até mesmo pessoais. É como uma panela vazia onde você coloca ingredientes e experimenta, com a participação de pessoas estranhas ao seu convívio, um novo tipo de culinária.
Costuma ler blogues portugueses? Destaca algum?
Sempre tive muito interesse pela produção contemporânea dos cronistas portugueses. Antes mesmo de existirem os blogues, eu já lia com atenção a produção de autores como Miguel Esteves Cardoso, para mim um autêntico blogueiro, no sentido da observação aguda e crítica da vida diária. Depois comecei a acompanhar a blogosfera lusa com muito apetite. Mas infelizmente até hoje troquei poucas informações com os blogueiros d'além mar.
Ficou com pena de não ter ganho o prémio de melhor blogue do mundo? Acha que a fotojornalista bielorrussa mereceu a distinção?
Sinceramente, não me julgo merecedor nem do prêmio que ganhei, melhor blogue em língua portuguesa. Peço perdão aos mestres blogueiros portugueses por esse deslize dos alemães da Deutche Welle.
Qual foi para si o melhor post que alguma vez escreveu (ou o que lhe deu mais gozo)?
Um desta semana, quando flagrei um carro da Prefeitura de São Paulo, administração conhecida por ser ultra-rigorosa com as leis do trânsito, em plena algazarra na rua. O post deu um tremendo barulho, recebi até uma resposta oficial do próprio Prefeito e centenas de comentários de internautas que enviaram exemplos de outros desmandos no trânsito pelo território nacional. A depender do uso, o blogue pode ser uma ferramenta muito poderosa e divertida.
Um penalty desperdiçado, um golo sofrido de forma infantil, um empate tão estúpido que até mete raiva, 12 pontos de distância para o campeão anunciado. Os adeptos do Sporting não vão ao estádio para ver futebol, mas para assistir a tragédias gregas em que o pathos é substituído por uma patética tremideira.
É quando a eclosão se aproxima que começamos a ter pena do ovo.

Bem-vindos, de novo, ao mais hipócrita dos meses.
Ficou imóvel, a olhar as nuvens. Eram como ele: passavam, rápidas, sem saber para onde.