TRÊS POEMAS DE INÊS LOURENÇO
TRANSFUSÃO
Lia assim alguns
livros de versos:
os dois poemas
do início. Depois os dois
últimos, a seguir os dois do meio,
onde algum sobressalto
ainda se inesperava.
Revelada a
amostra sanguínea
contaminada ou imune
ao síndrome de gastos arroubos
divinos ou humanos
logo ali se anulava tantas
vezes aquela inútil
transfusão.
INSCRIÇÕES
Um dia para florir
a sepultura. Afluímos
às necrópoles cheias
de rituais tabuletas e ficcionais
inscrições: eterna saudade
dos filhos, noras e netos. Genes
já anunciados das futuras
ficções de eternidade. Mais
que os já invisíveis, que nomeiam,
as tabuletas, visíveis, reproduzem-se.
PORTA DE ARMAS
Os teus dentes emboscados atrás
dos lábios entreabertos no indício
do sorriso, esse pré-aviso de facas,
anunciam a tua humana condição capaz
de morder e mastigar. A explicação
do mundo recomeça aí, nessa
porta de armas.
[in A Disfunção Lírica, &etc, 2007]