E AGORA ASSUNTOS LOCAIS
«(...) Havia crianças pequenas deitadas na relva molhada pela chuva. A tempestade aumentava sobre as nossas cabeças. Os polícias batia e disparavam sobre eles de forma horrível. Estive lá até à uma da manhã e depois fugi. O meu coração batia. Saltei por uma janela do primeiro andar de um pequeno edifício, e nada me aconteceu. Só os meus lábios estavam tão mordidos que até sangravam. (...) Oh, esqueci-me da coisa mais importante. Vi como um soldado arrancou um bebé, que tinha somente uns meses de idade, dos braços da mãe, antes de esmagar a sua cabeça contra um poste eléctrico. O cérebro do bebé explodiu contra a madeira. A mãe ficou louca. Escrevo isto como se não fosse nada, como se estivesse habituada aos horrores da guerra, e ainda sou jovem, tenho catorze anos e ainda vi pouco nesta vida e já sou tão indiferente. Estou a experimentar um medo horrível quando vejo um uniforme, fico triste devido às massas que esperam pela morte. Ah, é possível enlouquecer se nos recordarmos de tudo isto. E agora assuntos locais: hoje à tarde esteve cá o Janek. Tive de o receber na cozinha. Comecei por irritá-lo, dizendo-lhe que tinha dado todas as minhas fotografias. Ficou muito zangado. Estivemos a brincar, conversámos sobre "a Nica e a malta". Palavra puxa palavra e descobri que ele ficaria muito feliz se me beijasse. Disse-lhe «é possível» e continuei a falar. Ficou um bocadinho em baixo, pensava que eu era como a Tusia ou a Hala Zelinger. Só me deixaria beijar por um rapaz que amasse e o Janek é-me completamente indiferente.»
[in O diário de Rutka, de Rutka Laskier, trad. Maria Milewska Rodrigues, Sextante, 2007]