DOIS ROLLS-ROYCE PARADOS NO ROSSIO
Foi sexta-feira à noite. Os dois automóveis de luxo estavam encostados ao passeio, em frente do McDonald's. Pus-me a imaginar histórias. Um casal multimilionário que já nem o automóvel partilharia, quanto mais o quarto. Ela a beber um cházinho na Suíça e ele disfarçado, com boina e óculos escuros, a satisfazer o guilty pleasure de comer hambúrgueres no meio do povo pelintra.
Como ia atravessar a praça, aproximei-me. O Rolls de trás tinha vidros fumados e apenas consegui distinguir o vulto aprumado do motorista, muito ao estilo Ambrósio dos bombons Ferrero Rocher. O da frente tinha as janelas abertas. O chauffeur era jovem, bem parecido e vestia uma farda impecável que talvez a mãe lhe tenha passado a ferro, de madrugada, mesmo antes de sair, para não ganhar um vinco sequer. Apesar de visivelmente enfadado, escondia o tédio com elegância.
Então, no exacto momento em que o homenzinho verde do semáforo se acendeu, no preciso instante em que pus o pé na passadeira, a minha visão periférica identificou um telemóvel nas suas mãos e os gestos de quem escreve uma SMS. Já não olhei para trás (a minha curiosidade tem limites) mas quando pedi uma bica no Café Gelo, que voltou a chamar-se Café Gelo embora nada guarde do tempo longínquo das tertúlias literárias, dei comigo a pensar na mensagem que o motorista de um Rolls-Royce parado no Rossio poderia escrever para tornar mais curta a espera. Seria «Mamã, já não janto. Guarda-me a sopa e os pastéis de bacalhau no frigorífico» ou «Querida, só vou estar despachado às onze, mas ainda podíamos ir à sessão da meia-noite»?
Comments
:) estaria a encomendar os bombons?
Posted by: anaeugenio | novembro 20, 2007 12:41 PM