DIZ QUE É UMA ESPÉCIE DE RECENSÃO

Boca do Inferno, de Ricardo Araújo Pereira, Tinta da China, 289 páginas.
Ricardo Araújo Pereira, RAP para os amigos, não é só o melhor humorista português da actualidade. É também o mais completo. Se outros nomes podem rivalizar com ele no domínio das técnicas da stand up comedy ou nas ideias para sketches televisivos, ninguém lhe chega aos calcanhares em termos de escrita. Aliás, no humor português pode haver muita gente com graça mas a verdade é que não abundam os escritores. E RAP é, antes de tudo, um escritor. Escritor a sério, de fina estirpe, elegante, com uma prosa de recorte clássico e um raro domínio das potencialidades expressivas da língua portuguesa.
Se dúvidas restassem quanto à sua qualidade muito acima da média, bastaria apresentar este volume de 123 crónicas publicadas na revista Visão e dizer, como os advogados triunfantes nos filmes de tribunal norte-americanos, I rest my case.
Das lusas idiossincrasias às crises mundiais, do estranho prestígio dos autarcas corruptos ao Portugal-Inglaterra em que se transformou o caso do desaparecimento de Madeleine McCann, passando pelos dilemas da paternidade, pela transformação de Salazar em “papa-concursos”, pela necessidade de implodir o país todo, pelo futebol (que se confunde com o Benfica) e pela exegese das letras do Avô Cantigas, há de tudo para todos os gostos. Sempre segundo uma regra de ouro: olhar para a realidade à procura do seu ângulo morto, que é aquele por onde a ironia melhor ataca. O resto é técnica, agilidade e riqueza vocabular. Além de doses generosas de coragem para provocar as ‘vacas sagradas’ da opinião cá do burgo, de Vasco Pulido Valente a José Pacheco Pereira.
Conclusão: pretensos herdeiros do melhor Miguel Esteves Cardoso (o dos anos 80) não faltam, mas só Ricardo Araújo Pereira revela estofo para lá chegar no curto prazo.
[Publicado na edição desta semana da Time Out]