DIZ QUE É UMA ESPÉCIE DE ENTREVISTA (AO RICARDO ARAÚJO PEREIRA)

(fotografia: Augusto Brázio)
Com um novo DVD dos Gato Fedorento à venda e a colectânea de crónicas da Visão a chegar às livrarias, Ricardo Araújo Pereira abriu o jogo e falou de tudo: do êxito, da escrita, do futuro, da sombra de MEC e do poder do humor
Comecemos pela questão da fama. Após quatro anos de exposição mediática, já aprendeste a lidar com a celebridade?
Aprendi. E sabes uma coisa? Não é assim tão difícil. Há vantagens e há inconvenientes. Os inconvenientes são chatos, admito, mas depois chegas a um restaurante a abarrotar, não reservaste mesa e o empregado pisca-te o olho e diz: “Venha cá que a gente arranja.”
Preservas muito a intimidade, a vida familiar. Mas depois há uma página na Wikipédia sobre ti que até explica quais são os nomes das tuas cadelas.
É verdade. Existe. Não sei como é que aquilo foi ali parar ou como é que estas coisas acontecem.
Já alguém tentou editar essa tua página da Wikipédia, como fizeram ao primeiro-ministro José Sócrates?
Não, nunca fiz isso, mas apetecia-me. Sinceramente. Nem que fosse só para tirar de lá essa estupidez.
Consegues fazer compras no hipermercado sem que te abordem a cada dois minutos?
Consigo. Não há propriamente magotes de adolescentes histéricas a atirarem-se para os meus pés, o que até seria engraçado. É mais a curiosidade, do tipo “olha aquele gajo, vê lá o que é que ele leva no carrinho”.
E há muita gente a dizer-te piadas, na esperança de que as utilizes?
Sim, sim, a dar sugestões e tal. Algumas delas até bem boas, tenho de confessar.
És sempre cordial nesses contactos directos com os fãs? Nunca te enervas, nunca respondes torto?
Nunca. Aprendi isso com o Herman.
Trata-se de respeitar quem te garante o ganha-pão?
Sim. E aquela pessoa não tem culpa nenhuma de não me apetecer falar, porque estamos num centro comercial e já houve outras 16 com a mesma ideia. Não tenho direito de ser desagradável com ninguém.
Por outro lado, apesar do teu aspecto de gajo porreiro, nas polémicas consegues ser agressivo, violento, às vezes até cruel.
Desagradavelzinho, não é?
Eu diria antes devastador. Já levaste ao KO adversários de peso e não me admirava nada que alguns deles tivessem recorrido ao psicanalista. O que é que te move nesses combates? É o puro prazer da disputa intelectual?
Eu acho uma certa graça a essa espécie de jogo. Porque há distanciamento. Uma coisa é estar a escrever, outra coisa é dizer na cara. As afirmações que se fazem, mesmo quando são muito violentas, ficam mais suaves se forem escritas.
Pois. Mas ainda assim magoam. Deve haver muita gente que não te pode nem ver.
Sim, há. Claro que há. Mas não tenho especial orgulho em aborrecer as pessoas. Quando o Pinto da Costa nos processa, não é uma medalha. O nosso objectivo principal é fazer rir as pessoas e encaramos isso como uma missão com alguma nobreza.
Neste momento, vês-te mais como um humorista televisivo que escreve umas crónicas ou como um escritor, um cronista, que também faz uns sketches com piada na TV?
Nem uma coisa nem outra. Eu penso sempre em mim como um gajo cuja profissão é escrever. Posso ir na rua, assistir a uma cena e pensar “vou aproveitar isto para um sketch”, mas são sempre coisas que passam pela escrita.
Boca do Inferno, o volume que reúne as crónicas que foste publicando na Visão, é o equivalente literário de um disco a solo?
É curioso que uses a terminologia das bandas de rock, porque as pessoas tendem a olhar para nós como uma banda. Até nas perguntas que fazem: “Quando é que acabam? Já se zangaram?” E numa coisa que normalmente não acontece aos colectivos humorísticos, que é criticarem-nos o excesso de atenção mediática, o já não sermos tão alternativos.
Como se a partir do “segundo álbum”, para manter a analogia, se tivessem vendido ao sistema e já não prestassem.
Isso também nos acontece muito. Há alguns puristas desencantados. Mas não deviam estar. Porque o Gato Fedorento é uma coisa que fazemos porque nos dá gozo. Nós já éramos amigos antes disto tudo começar. Não somos como as boys bands, em que o produtor diz: “Olha, mandem-me um modelo, mais um gajo que trabalhava nas obras e já agora um que saiba cantar, que também dá jeito.” Isto não é um casamento de conveniência. Sempre jogámos à bola juntos. Aliás, ainda agora é a nossa actividade principal. Faz parte da nossa vida estarmos uns com os outros. Mas cada um tem as suas coisas ao lado e isso nunca interferiu com a vida do grupo.
Começaste com as crónicas em 2004.
Sim, ainda no tempo do Cáceres Monteiro. E não me esqueço da simpatia com que ele comentava os meus textos.
Sentes que tens ali um campo de experimentação humorística?
Sinto sobretudo que é um espaço onde posso fazer tudo o que me apetecer. E gosto imenso do ambiente da revista. Já estive noutras redacções e não é a mesma coisa. Há ali, como havia na redação do Jornal de Letras, algo de familiar. Embora eu suspeite sempre quando alguém me diz: “Bem-vindo, nós aqui somos uma grande família.” Fico logo de pé atrás, porque conheço demasiado bem a minha família e não quero ir para outra. Mas aquilo não é familiar nesse sentido, é uma coisa mais fraternal.
Também recebes ameaças?
Algumas. Vai havendo, só que são mais incipientes. Quando pusemos o cartaz no Marquês de Pombal, os nazis ameaçaram-me. Mas se eu escrevo uma crónica na Visão sobre eles, é mais difícil. Até porque têm de pedir a alguém que lhes leia aquilo… Agora a sério, há reacções indignadas, sim, sobretudo quando abordo temas que se relacionem com a religião.
Ao Vasco Pulido Valente, apontaste o facto de ele ter inventado “uma extraordinária técnica para escrever crónicas”, que se resume a estar sempre contra o que toda a gente pensa. Mas tu também apuraste uma técnica própria: pegas num tema ou numa figura e vais desbastando, desbastando, até encontrares, lá bem no cerne, aquilo que podes satirizar.
Pois, é isso. Eu acho que naquele tipo de crónica, que é uma crónica sobre temas da actualidade, é obrigatório que o método seja esse: olhar para as coisas de uma forma que não corresponda ao modo como a generalidade das pessoas olham. Mesmo que seja através da ironia. Ou seja, indo ao encontro daquilo que toda a gente diz, mas fingindo estar a dizer o contrário. Isso é uma estratégia humorística clássica, universal. Todas as minhas principais referências fazem isso.
E que referências são essas?
Por exemplo, o Dave Berry, o S. J. Perelman, a Dorothy Parker.
Todos anglo-saxónicos.
Sim.
E em língua portuguesa? Os brasileiros?
Sim, os brasileiros. O [Luís Fernando] Veríssimo. Ou o Nelson Rodrigues. E, em Portugal, o Miguel Esteves Cardoso. Aliás, o meu principal trabalho é obrigar-me a não imitar o MEC. É por isso que procuro temas da actualidade…
Em vez daqueles que remetem para isto de ser português.
Nem mais.
Tens a angústia de um dia ires a meio de uma crónica e perceberes: “Eh pá, isto podia ser do MEC!”
Por acaso, há duas ou três em que aconteceu.
Sentes que há textos que não ficaram tão bem acabados como gostarias?
Claro. Imensas vezes.
Reviste os textos para a edição em livro?
Revi alguma coisa. Mas não fiz disso um trabalho obsessivo por duas razões: 1) porque não queria; 2) porque se me pusesse a fazê-lo, nunca mais parava. Daí aquela inscrição em latim macarrónico que está na capa, à maneira dos romances do Lobo Antunes: “Ne varietur nisi ego reperio melior jocus”, que quer dizer “edição definitiva a menos que eu me lembre de piadas melhores.”
Por falar em romances, um dia disseste que gostavas de escrever como o Mário de Carvalho. Isso é um desígnio adiado? Ou evitas dizer que vais escrever um romance para não elevares demasiado as expectativas?
O MEC diz que quem anuncia que vai escrever um romance está a procurar um “adiantamento de prestígio.”
Fica logo num grau superior de dignidade.
É. O pior é depois. Quanto a mim, escrevi num livro da quarta classe que quando fosse grande queria ser “escritor e futebolista”, duas profissões que andam, como se sabe, muito a par. Isso bastou para que as pessoas dissessem que eu queria escrever livros. O problema é que desde cedo percebi que não tinha jeito nem para jogar à bola nem para escrever livros como um escritor escreve.
Numa das crónicas, fazes um pastiche brilhante do António Lobo Antunes e no fim queixas-te de que o subúrbio onde ele viveu a infância era melhor do que o teu, rematando ser essa a razão do abismo que vos separa: Lobo Antunes tornou-se um grande escritor e tu “só um palerma”. É a famosa estratégia da auto-depreciação.
Exacto. Resulta muito bem.
Mas não achas que a levas longe demais?
Acho, acho.
Começa a parecer um truque fácil.
De facto, é. Também sinto que este truque está a esgotar-se. Tenho de inventar outro. É sempre bom baixar as expectativas, mas não posso cansar as pessoas. Dito isto, em comparação com o Lobo Antunes, sou mesmo só um palerma. É uma coisa factual. É tão denotativo que não chega a ser uma estratégia.
[Uma pessoa aproxima-se com um telemóvel na mão, interrompe a conversa e diz que o Rui Veloso quer “dar um abraço” ao entrevistado. “Estou? É mesmo o Rui Veloso que fala?”, pergunta RAP. No fim, devolve o telemóvel e diz: “Eu agora queria falar com o Jorge Palma, se faz favor.”]
Onde é que íamos?
Já não sei. Mas podemos mudar de agulha. Achas que os Gato Fedorento têm prazo de validade?
Sim, mas nós vamos gerindo isso. O nosso plano agora é não fazer nada, ou quase nada, em 2008.
Vocês controlam tudo o que se passa no Diz que é uma Espécie de Magazine?
Controlamos. Essa é uma das dificuldades. Eu desafio qualquer um a encontrar outro programa de 40 minutos que seja escrito, interpretado, apresentado e pesquisado pelos mesmos quatro palermas, que depois ainda acompanham a montagem, a pós-produção vídeo, a pós-produção áudio, passam oito horas nas catacumbas da RTP a ver cassetes para encontrar ‘Tesourinhos Deprimentes’…
Mas porquê?
Não delegamos nada em ninguém. A culpa também é nossa.
E não deviam delegar?
Provavelmente devíamos. Mas para nós uma das coisas boas disto é controlarmos tudo.
Porque acham que a partir do momento em que houvesse alguém que vos chamasse à razão perderiam as rédeas do programa?
Isso também, claro... A questão é que nós somos verdadeiros produtores do programa. Se faltar dinheiro, sou eu que ponho. Optámos, desde o início, por não ter um produtor no sentido clássico. Aquele produtor que diz: “Precisam de quantas bailarinas? Sete? Com três, com três faz-se.” Nós preferimos fazer à nossa maneira.
Mas às vezes era bom que alguém vos dissesse que um sketch não funciona ou que está demasiado longo. Não achas?
Não, porque nós próprios fazemos isso e temos essa consciência. Muitas vezes dizemos: “Eh pá, devíamos ter cortado este meia hora antes.”
Faz sentido lançar um DVD com os melhores momentos do programa quando eles já estão todos disponíveis no YouTube?
Boa pergunta. O nosso primeiro DVD vendeu 65 mil exemplares quando o programa na SIC Radical tinha só dez mil espectadores. Na SIC disseram-nos: “Se isto vender cinco mil, abre-se uma garrafa de champanhe.” A verdade é que mesmo com a divulgação toda na internet, as pessoas não deixam de querer o DVD.
Achas que têm evoluído enquanto actores?
Nem por isso. É o único aspecto em que não investimos.
Já ponderaram utilizar verdadeiros actores em projectos futuros?
Sim. Na esmagadora maioria dos casos, qualquer actor para quem eu já escrevi faria melhor do que eu. Se não for em todos os casos.
Qual é para ti a melhor piada de sempre?
Não sei. É muito difícil escolher.
Mas gostavas de chegar à piada perfeita?
Ó pá...
Essa piada talvez não fosse a que mata, como a killing joke dos Monty Python, mas a que ressuscitasse alguém.
Exacto. É esse o objectivo. Mas eu contento-me com menos. Basta fazer rir as pessoas. Ver o efeito físico do riso. Algo que imita muito bem o estado de felicidade. E conseguir proporcionar isso a alguém é a maior ambição que um gajo pode ter. Quando o Hamlet vai ao cemitério e está a escavar a cova para a Ofélia, apanha a caveira do Yorik, que era o bobo da corte. No final da cena, diz ele para a caveira: “Vai dizer à rainha que por muita base que ponha na cara, por muita maquilhagem que coloque, é ao teu estado que ela vai chegar, fá-la rir disso.” E essa é de facto a missão do humorista. O Shakespeare poderia ter posto o Hamlet a falar com a caveira de uma ama ou de um tio. Mas não. Ele fala para o bobo, o tipo que fazia rir as pessoas. É o contraste entre o riso e a morte que fica ali em tensão. Como que a insinuar que é preciso pôr todas as pessoas a rir da morte. E no fundo é isso que nós, humoristas, vamos tentando fazer.
[Publicado na edição desta semana da Time Out]
Comments
Olha que bem que me soube o almoço enquanto li a entrevista! Marvilha.
Posted by: Rita Quintela | dezembro 5, 2007 01:32 PM