DECÁLOGO DO PREFACIADOR
Primeiro. Não tenhas medo do livro que vais prefaciar. O medo paralisa e se ficares paralisado nunca conseguirás escrever uma linha sequer, quanto mais as sete ou oito páginas inúteis que o editor te encomendou, na esperança vã de que pudesses "trazer mais luz" a uma obra que não necessita da tua luz para nada.
Segundo. Faz esboços, estrutura ideias, contextualiza, descontextualiza, corta e cola, inventa abordagens, cria bifurcações, opta mesmo quando tens dúvidas, não receies voltar à estaca zero, insiste e repete, insiste e repete, vai falhando melhor (como diria Beckett). Por cada dez linhas que conseguires, corta nove. Reescreve a que sobrar quantas vezes forem necessárias.
Terceiro. Nunca penses no leitor que te vai ler. O leitor que te vai ler é uma projecção nefasta, um fantasma, uma ameaça, é o juiz cruel que te olha de cima (jocoso), o inimigo que anseia pelos teus deslizes e te roga pragas.
Quarto. Não queiras que o teu prefácio seja um espelho (e muito menos uma miniatura). As sinopses, caso não tenhas reparado, são exercícios de síntese que não carecem de assinatura.
Quinto. Procura, através do texto, algo que se assemelhe a uma relação simbiótica com o teu objecto (já todos estamos fartos de parasitas). Se tiveres talento para tanto, dialoga com o livro, mas não o canibalizes.
Sexto. Faz citações sempre que for possível, lógico ou razoável. Se tudo o resto for um desastre, sabes que pelo menos essas palavras merecerão ser lidas.
Sétimo. Aposta no laconismo. Frases curtas, bem medidas, com efeito (algures entre o aforismo e o slogan). Se queres ver o teu nome na badana, esse panteão do elogio, não há outro caminho.
Oitavo. Lembra-te bem disto: o prefácio é algo que está entre o leitor e a obra propriamente dita. Se for muito denso, faz sombra. Se for muito opaco, eclipsa. Se for muito transparente, é como o vidro de uma montra. Em qualquer dos casos, adias o contacto, atrasas o que está para acontecer. E isso implica uma responsabilidade. Dito de outro modo: se não fores interessante, tenta pelo menos ser breve. Se não tiveres nada de fundamental para dizer, sai da frente. Não atrapalhes.
Nono. Evita criar para os outros regras que não consigas cumprir tu mesmo.
Décimo. Se te ocorrer fixar um decálogo, fica-te pelos dez mandamentos. Augusto Monterroso foi até aos 12, mas Augusto Monterroso era Augusto Monterroso e tu és tu.
[excerto do prefácio que escrevi para o livro O resto é silêncio, de Augusto Monterroso, edição Oficina do Livro]
Texto completo aqui:
PREFÁCIO
Nota prévia
Este prefácio tem consciência de que é um prefácio. Este prefácio não ignora uma das verdades mais incómodas da literatura: a de que os prefácios são por natureza feitos de ar, de ideias fugindo pela página como lebres, de reflexos de sol em janelas que outros abriram, de nuvens que se formam num ápice e num ápice desaparecem, entre outras coisas igualmente impalpáveis; ou seja, são os mais precários e descartáveis dos textos. Este prefácio sabe que os leitores comuns não lêem prefácios (na melhor das hipóteses, limitam-se a atravessá-los na diagonal) e que os outros leitores, os que lêem tudo (até a ficha técnica, o nome da gráfica onde o livro foi impresso e o ISBN), toleram estas páginas iniciais como um sacrifício que faz parte do ritual da leitura, uma espécie de via crucis antes de chegarem ao que verdadeiramente lhes interessa. Sabendo isto melhor que ninguém, este prefácio não alimenta quaisquer ilusões. No fundo, aspira à invisibilidade. Se derem por ele, óptimo. Se não derem por ele, melhor ainda. Mais do que um texto, gostava de ser uma porta que se abre. Ou o tapete junto dessa porta, o tapete com motivos geométricos onde o leitor limpa a sola dos sapatos, antes de entrar.
Decálogo do prefaciador
Primeiro. Não tenhas medo do livro que vais prefaciar. O medo paralisa e se ficares paralisado nunca conseguirás escrever uma linha sequer, quanto mais as sete ou oito páginas inúteis que o editor te encomendou, na esperança vã de que pudesses "trazer mais luz" a uma obra que não necessita da tua luz para nada.
Segundo. Faz esboços, estrutura ideias, contextualiza, descontextualiza, corta e cola, inventa abordagens, cria bifurcações, opta mesmo quando tens dúvidas, não receies voltar à estaca zero, insiste e repete, insiste e repete, vai falhando melhor (como diria Beckett). Por cada dez linhas que conseguires, corta nove. Reescreve a que sobrar quantas vezes forem necessárias.
Terceiro. Nunca penses no leitor que te vai ler. O leitor que te vai ler é uma projecção nefasta, um fantasma, uma ameaça, é o juiz cruel que te olha de cima (jocoso), o inimigo que anseia pelos teus deslizes e te roga pragas.
Quarto. Não queiras que o teu prefácio seja um espelho (e muito menos uma miniatura). As sinopses, caso não tenhas reparado, são exercícios de síntese que não carecem de assinatura.
Quinto. Procura, através do texto, algo que se assemelhe a uma relação simbiótica com o teu objecto (já todos estamos fartos de parasitas). Se tiveres talento para tanto, dialoga com o livro, mas não o canibalizes.
Sexto. Faz citações sempre que for possível, lógico ou razoável. Se tudo o resto for um desastre, sabes que pelo menos essas palavras merecerão ser lidas.
Sétimo. Aposta no laconismo. Frases curtas, bem medidas, com efeito (algures entre o aforismo e o slogan). Se queres ver o teu nome na badana, esse panteão do elogio, não há outro caminho.
Oitavo. Lembra-te bem disto: o prefácio é algo que está entre o leitor e a obra propriamente dita. Se for muito denso, faz sombra. Se for muito opaco, eclipsa. Se for muito transparente, é como o vidro de uma montra. Em qualquer dos casos, adias o contacto, atrasas o que está para acontecer. E isso implica uma responsabilidade. Dito de outro modo: se não fores interessante, tenta pelo menos ser breve. Se não tiveres nada de fundamental para dizer, sai da frente. Não atrapalhes.
Nono. Evita criar para os outros regras que não consigas cumprir tu mesmo.
Décimo. Se te ocorrer fixar um decálogo, fica-te pelos dez mandamentos. Augusto Monterroso foi até aos 12, mas Augusto Monterroso era Augusto Monterroso e tu és tu.
Sobre o autor
a) Nasceu a 21 de Dezembro de 1921, em Tegucigalpa, nas Honduras; morreu a 8 de Fevereiro de 2003, na Cidade do México (biografia elementar). b) Foi sucessivamente hondurenho, guatemalteco e mexicano (costumava dizer que tinha «múltipla nacionalidade»), mas acima de tudo centro-americano, irmão de sangue dos homens que já viviam no continente antes da chegada de Colombo. c) Autodidacta por vontade própria, largou os estudos oficiais aos 11 anos, para se dedicar à leitura. d) Aos 16, começou a trabalhar num talho, enquanto à noite estudava os clássicos espanhóis, particularmente Cervantes, que foi sempre a sua estrela polar no mundo da literatura. e) Em vários períodos da sua vida, lutou contra as ditaduras militares, muitas delas ao serviço das ingerências «imperialistas» dos norte-americanos. f) Manteve-se ortodoxamente marxista e fiel a Fidel até ao fim, apesar da queda do Muro e do seu profundo cepticismo em relação à natureza humana. g) Casou três vezes, teve duas filhas e uma vida pacata, sem grandes sobressaltos. h) Embora fosse tímido, tornou-se amigo de alguns dos mais importantes escritores latino-americanos do século XX (como Juan Rulfo, Gabriel García Márquez, Álvaro Mutis ou Juan José Arreola). i) Muitos estudiosos atribuem-lhe o papel de pioneiro na criação e difusão de um novo género literário: o microconto ou minificção, através do qual são narradas histórias tão concisas que podem caber numa só frase. j) A sua obra mais conhecida – O dinossáurio – consta de apenas sete palavras: “Quando acordou, o dinossáurio ainda estava ali.” (sete palavras sobre as quais já se escreveram muitos milhares de palavras e fizeram dezenas de tentativas de exegese). l) Além da brevidade, Monterroso cultivou sempre a lentidão: o seu primeiro livro, a que chamou Obras Completas (y outros cuentos), título radicalmente irónico, foi publicado em 1959, quando o autor contava 37 anos; o segundo, La oveja negra y demás fábulas, só saiu dez anos mais tarde, em 1969. m) Sempre gostou de incluir animais nos seus textos, da fauna clássica da selva ao mais minúsculo dos insectos; por exemplo, a abrir o livro Movimento Perpétuo (1972) colocou a frase: “Há três temas: o amor, a morte e as moscas.” n) Mais do que uma figura de estilo, encarava a elipse como um instrumento de trabalho. o) Imune aos ritos, cobardias e venenos dos meios literários, fazia questão de se pôr sempre em causa, antes de pôr em causa os outros. p) O humor, para ele, não era uma escolha mas uma evidência e poucos exploraram tão subtilmente a totalidade do seu espectro, da ironia ao sarcasmo. q) Além de Cervantes, a sua família literária mais próxima era composta por Montaigne, Jonathan Swift, Franz Kafka e Jorge Luis Borges. r) Isaac Asimov, autor de ficção científica, deixou um dia o aviso: “Os pequenos textos de Augusto Monterroso, aparentemente inofensivos, mordem se deles nos aproximarmos sem a devida cautela, deixam cicatrizes e precisamente por isso valem a pena.” s) Nas tertúlias que frequentava, tinha o hábito de criar palíndromos (o mais famoso deu título a um conto: Onís es asesino). t) Não publicou mais do que um volume das suas memórias (Los buscadores de oro, 1998), relato que termina no fim da infância, ao cumprir 15 anos, talvez devido à sua desconfiança em relação ao género autobiográfico: “O meu interesse pelas genealogias é nulo. Por linhagem inglesa directa, todos descendemos de Darwin.” u) Recebeu várias distinções literárias importantes, como o Prémio Juan Rulfo (1996) ou o Prémio Príncipe das Astúrias das Letras (2000), mas merecia mais, muito mais (no mínimo, o Cervantes; e talvez o Nobel). v) Saúl Yurkievich escreveu que Monterroso “é o café expresso da prosa literária”, um elogio certeiro se pensarmos que o próprio se sentia um Balzac (compulsivo consumidor de cafeína) sempre que terminava uma linha. x) É redundante recordá-lo, mas aqui fica: a verdade sobre Monterroso, como sobre qualquer ser humano, não cabe em 23 tópicos alinhados seguindo as letras do alfabeto português. z) Os amigos, carinhosamente, chamavam-lhe Tito.
Sobre a personagem (Eduardo Torres)
Houve quem afirmasse que Eduardo Torres, figura ambígua de escritor provinciano e centro geométrico em torno do qual se constrói o romance que o leitor se prepara para ler, é um alter ego de Augusto Monterroso. Não conheço melhor evidência de que não podemos, nem devemos, acreditar em tudo o que nos dizem.
Sobre O resto é silêncio
Lista de coisas que se podem encontrar neste romance (o único escrito por Augusto Monterroso e publicado pela primeira vez em 1978):
- uma biografia imaginária, urdida com rara inteligência e enorme sentido lúdico, estilhaçando com notório gozo as fronteiras clássicas entre géneros literários.
- uma personagem poliédrica (Eduardo Torres), cujas várias facetas vamos conhecendo através dos relatos pormenorizados de familiares (o irmão, a mulher) ou de pessoas que lhe são próximas (o secretário particular, o criado de quarto), numa acumulação de pontos de vista que faz lembrar a forma como Orson Welles retratou essa outra personagem poliédrica que era Charles Foster Kane; com a diferença de que a Eduardo Torres falta, digamos assim, um Rosebud que feche simbolicamente a sua história fragmentada.
- uma obra dentro da obra; isto é, a obra literária completa de Eduardo Torres (os seus ensaios, conferências, aforismos, apotegmas e textos dispersos), dentro da estrutura ficcional do romance de Monterroso.
- um corpo vasto de elementos paratextuais (o epitáfio logo a abrir, um depoimento gravado, ilustrações, poemas visuais, artigos de revista, um índice de nomes, listas bibliográficas e de abreviaturas) que fazem deste livro um exemplo paradigmático de literatura pós-moderna, sem dúvida, mas consciente das armadilhas e limites da pós-modernidade.
- uma homenagem complexa e subtil ao primeiro grande romance digno desse nome, escrito por Miguel de Cervantes (aliás, explicitamente convocado várias vezes). Embora a epígrafe do livro seja shakespeariana, quem quiser compreender O resto é silêncio, tem que começar por compreender Dom Quixote, sobretudo nas questões relativas à autoria.
- last but not least, encontramos nesta obra o exemplo mais perfeito da arte narrativa de um autor que fez da linguagem campo de batalha e da concisão um desígnio. Autor discretíssimo, ainda à espera, hoje, que lhe façamos justiça.
Ponto final
É um círculo de tinta, depois da última palavra, sinal gráfico “imposto por algo mais forte do que eu, algo que respeito e que odeio”, como escreveu Monterroso noutro livro. Ou então é o buraco negro para onde o texto converge, antes de desaparecer na memória cruelmente selectiva de quem lê. Eduardo Torres teve direito ao seu, um ponto final metafórico, oportunidade para ajustar contas e baralhar a percepção do que antes se narra. Ao meu, pelo contrário, literal e concreto, já o vejo aproximar-se, ali na extremidade da próxima frase. Está no fim do caminho que leva à saída do labirinto.
Comments
Muito bom! :)
Posted by: João Villalobos | novembro 13, 2007 04:21 PM
Um senhor prefácio, caro Mário, como na Magazine Artes expressei nesta edição de Novembro. E um belíssimo livro, cuja edição não parece vinda do mesmo editor de «Rio das Flores»... A gente entende; por alguma razão, a colecção em causa se chama Ovelha Negra. Abraço
Posted by: pedro teixeira neves | novembro 13, 2007 10:18 PM