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CHÁVEZ VS JUAN CARLOS

Muito se tem dito e escrito sobre o happening da cimeira ibero-americana, quando o Rei Juan Carlos, depois de Zapatero ter defendido o seu antecessor (Aznar) da acusação de "fascista" lançada gratuitamente por Hugo Chávez, mandou calar o presidente da Venezuela. A direita portuguesa em geral, e a blogosférica em particular, rejubilou com a coragem e rispidez do monarca espanhol, que teria posto finalmente em sentido o perigoso demagogo com a mania que é Simon Bolívar. Rui Tavares já explicou como a vitimização do ex-colonizado, alvo directo da arrogância de um herdeiro longínquo dos antigos colonizadores, pode ser perigosa (na medida em que oferece de mão-beijada uma arma retórica que Chávez há-de explorar até ao limite). Eu não me limitaria a opor o sentido de Estado de Zapatero, que manteve a serenidade e ficou na sala até ao fim, ao ataque intempestivo de Juan Carlos, que tratou o presidente eleito de uma nação independente como se fosse um lacaio desbocado. Por muito que Chávez seja um político populista e provocador, sem tento na língua, mal educado e prepotente, o rei de Espanha perdeu a razão ao formular a pergunta daquela maneira. E era tão simples. Em vez do autoritário "Porque não te calas?", o que se impunha era o desarmante "Porque dizes isso?" Se Chávez insistisse em chamar fascista a Aznar, o rei encolheria os ombros como quem diz "assim não consigo dialogar" e sairia à mesma da sala, só que com uma superioridade moral que aquele "Porque não te calas?" lhe retirou.

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O problema, José Mário, é que Chávez falou para interromper uma intervenção de Zapatero, ou seja, falou fora do tempo que tinha para intervir. Neste sentido, a pergunta do rei pode ser vista também como uma defesa do actual primeiro-ministro espanhol, como um gesto que este não deveria executar, precisamente porque era ele o interrompido, mas que outrem (Juan Carlos, no caso) poderia chamar a si. Não vale a pena insistir-se no facto de que Chávez foi eleito; Zapatero também, e estava a ser impedido anti-democraticamente de prosseguir o seu discurso.

Percebo o que queres dizer, João Paulo Sousa, mas não me parece que Zapatero precisasse de ser defendido. Foi interrompido e podia interromper quem o interrompeu. A atitude do Rei parecia a de um "pai" que faz o que o filho não consegue fazer e não me parece que a democracia, seja a espanhola ou outra, precise de qualquer tipo de paizinho.

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