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CAÇADORES DE ERROS

Talvez escaldado com os 22 erros históricos descobertos na primeira edição do romance Equador, Miguel Sousa Tavares fez questão de escrever uma nota, no final de Rio das Flores, em que esclarece:

«Este não é um livro de história mas sim um romance histórico. Nele convivem personagens reais com outros fictícios, acontecimentos reais com outros ficcionados. Todavia, o que é histórico – nomes, lugares, factos – corresponde rigorosamente ao que aconteceu e resulta da pesquisa extraída da bibliografia adiante referenciada [mais de cem livros] ou feita localmente por mim. Todas as passagens escritas entre aspas são verídicas e textuais, mas certos acontecimentos reais e de importância menor ocorreram em datas não exactamente coincidentes com as que são referidas ou implícitas no texto, de modo a fazê-los coincidir com a cronologia romanesca. Isso, porém, não implica nem com a sua veracidade, nem com o contexto em que sucederam. Aos leitores garanto a seriedade do relato histórico, aos caçadores de erros a inutilidade final do seu esforço.»

Só escreve uma nota destas quem está certo de não ter cometido qualquer deslize ou mínima imprecisão nas fastidiosas 600 páginas do seu relato. Ora acontece que mesmo numa leitura vertiginosa e a mata-cavalos como foi a minha, sem tempo para respirar (quanto mais para verificações históricas e cotejos), detectei os seguintes lapsos:

– a sugestão de que os ciganos descendem dos mouros

– a Scientific American apresentada como "revista de arquitectura"

– uma artista plástica a explicar, num jantar em casa da família do amante (homem rude e pouco instruído), que não é possível conhecer bem a pintura moderna ignorando o trabalho de um tal Jackson Pollock, «abstracto», ou de um Edward Hopper, «hiper-realista». Se a designação «hiper-realista» para designar a obra de Hopper é duvidosa mas pode ser atribuída à personagem, e não ao autor, resta um problema: a conversa de Angelina que tanto impressiona Diogo (o irmão mais velho do seu amante), acontece por volta de 1934 e Pollock só começou a tornar-se abstracto no início da década de 40. Antes disso pintava num estilo "regionalista", figurativo e inspirado pelos grandes muralistas mexicanos. Será este um dos tais acontecimentos "reais" mas de "importância menor" que permite o recurso a "datas não exactamente coincidentes"?

Outras passagens houve que não cheguei a anotar mas que me suscitaram dúvidas. Quando os verdadeiros caçadores de erros terminarem as leituras à lupa, que ainda devem estar em curso dada a extensão do livro, pergunto-me quantos pontos terá a sua errata. E, já agora, se MST manterá a orgulhosa nota final numa mais do que provável segunda edição.

Comments

Interpretei a nota mais como uma afirmação de MST de que - mesmo na eventualidade da identificação de erros pelos tais "caçadores" - não "valorizaria" esse apontar de erros como uma crítica válida à sua obra... que, explicitamente, caracteriza não como um "livro de história" mas sim um romance histórico.

Inútil o esforço. O que interessa é que, no contexto do romance, se utilize a ideia de Pollock ser abstracto para contextualizar o tempo em que essa cena particular ocorre. Se é em 34 ou 40 é perfeitamente irrelevante. A sua crítica tem tanto valor como eu dizer-lhe, já agora, que Pollock nunca foi um pintor abstracto: foi um Expressionista que por acaso usou a abstração.

Esta teoria do "que por acaso" é do melhor. Claro que Pollock foi um pintor abstracto; e não por acidente.
Se calhar, uma zebra também é um herbívoro que por acaso é mamífero. Ou vice versa. Que quererá tal dizer? Nada.

Bem por acaso não é a mesma coisa, mas agora também não vou entrar nisso, LR. Mas o que você aponta era onde eu queria chegar. Imagine que o Miguel, no meio de um romance, por motivos estéticos, escrevia: "A revolta começou à meia-noite", e saltava logo um crítico: "não, não, há registo de que foi às 6 da manhã!!" Que poderá tal importar? Nada.

Por acaso você irritou-me ó LR, e até lhe vou explicar a diferença entre ser um pintor Expressionista-Abstracto ou um pintor Abstracto. Mas primeiro vou passear o meu cão. Se estivesse por perto, convidava-o a vir comigo e você poderia observar se ele mija de forma espontânea e animal ou está a explorar os limites técnicos do próprio acto de atirar a mija contra um poste.

Prontos, então é assim e é memo à séria (passo o extenso cabeleileirismo). Como você, ó LR, decerto saberá, quando falamos de Pintura ou qualquer outra actividade como a escrita ou a música, podemos admitir que existe um plano Estético (onde se inscreve a parte conceptual do objecto artístico; i.e., as ideias sobre ele) e também um plano Estilístico (onde se incluem os conceitos mais operativos e as técnicas que se referem à produção do objecto artístico em si). Ora pois bem. Por esta razão quando se fala de Pollock ou do Expressionismo-Abstracto (o original americano "Abstract-Expressionism" inverte esta relação) estamos a falar daqueles tipos que quiseram exprimir o fundamento irracional, primitivo, automático e subconsciente da criação artística (ou da vida: os americanos pretendem que a arte se confunda com a vida, coisa que os Europeus não conseguem fazer) através de técnicas estilísticas ABSTRACTAS. Abstracto quer dizer simplesmente que não existe figuração, que não há representação directa da realidade. É claro que Pollock foi um abstraccionista, mas o seu objectivo (e é aqui que você parece não perceber certas minúcias do universo, ó LR, e dispara a falar sobre biologia e teorias "do melhor") não era ser Abstracto. Rothko, ou os construtivistas russos, quiseram ser puramente ABSTRACTOS (reflectir apenas sobre a forma e os limites do espaço pictórico), mas não era o de Pollock. Espero ter sido claro. E chato.

Cumprimentos.

Passar em segundos de observações críticas sobre o romance de MST para um aceso debate sobre Pollock...A blogosfera é uma coisa maravilhosa! ;)

Que acervo de baboseiras sem nexo. Levar a séro+io "Reader's Digest" dá nisto.
Que Pollock fosse descendente do André Masson ou que Rothko quisesse "reflectir apenas sobre a forma e os limites do espaço pictórico" (disparate tremendo), nada interessa para o caso.
O bom do Jackson, fosse para exprimir as suas cólicas existenciais ou apenas por vontade de praticar ginástica sobre a tela, foi um pintor abstracto. E isso nada tem a ver com programas do pintor; apenas com a presença ou a dispensa de formas figurativas.
Invente as taxinomias que quiser; receio é que elas só sejam relevantes para si (e talvez para o seu cão).

E quem é que terá escrito sobre o que Pollock queria ou não ser? O que tem isso a ver com o evidente erro factual do MST?
Mas valeu: até descobri que "a parte conceptual do objecto artístico" são umas tais "ideias sobre ele" e que a isto se pode chamar "Estética". A pomposidade, quando se alia à ignorância, dá cenas bem ridículas.

Lamento que não consiga pensar pela sua própria cabeça, LR; temos o país cheio de malta assim, que não arrisca nada. Felizmente, não nos tornaremos a oncontrar. Cumprimentos.

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