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AY CARAY

Fala da criada dos Noailles..., de Jorge Silva Melo, Cotovia, 88 páginas.

Logo pelo título quilométrico – Fala da criada dos Noailles que no fim de contas vamos descobrir chamar-se também Séverine numa noite de Inverno de 1975 em Hyères – torna-se claro que o livrinho de Jorge Silva Melo é mesmo uma “paródia”: veloz, incisiva, cultíssima, barroca e talvez “inconsequente”, como admite o seu autor.
Simplificando, esta é a história de um jantar silencioso entre Luis Buñuel e o conde de Noailles, seu antigo mecenas, narrado por uma criada que desmente, com bazófia e graça, a versão desse repasto que aparece num livro de memórias do realizador [O Meu Último Suspiro, edição Fenda].
Truculenta, a serviçal revela-nos a decadência do patrão aristocrata, de cujo palacete já desapareceu quase tudo: os espelhos venezianos, as bandejas de ouro e até mesmo a electricidade (faltam 203 lâmpadas no lustre do salão). A ruína do conde equivale ao fim de um tempo, o das vanguardas artísticas e dos génios que os endinheirados gostavam de ostentar nas suas festas. Génios que para Séverine nem sequer têm nome: Picasso é o espanhol “pequenito e atarracado” que a leva para a cama, todo nu, com cornos de sátiro e pés de bode, só para a desenhar; e o próprio Buñuel fica reduzido ao homem que lhe levantava as saias para ver as suas botinas e exclamar “Ay caray”.
O tresloucado monólogo (“sublime” e “delicioso”, como diria a condessa) culmina num final tão pícaro quanto apoteótico, em que os grandes mecenas do passado aparecem na condição de fantasmas. No apêndice, uma cliente arrependida do pintor Hogarth resume tudo em duas frases: “A arte não serve para nada. Só para gastar dinheiro.”

[Publicado na edição desta semana da Time Out]

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