A TRAGÉDIA DO RIO DAS FLORES

Rio das Flores, Miguel Sousa Tavares, Oficina do Livro, 627 páginas.
Com o seu imenso caudal de palavras a estender-se por mais de 600 páginas (literalmente um roman-fleuve, mas dos que transbordam antes da foz), Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares (MST), é um romance falhado.
Falhado porquê? Porque sendo assumidamente um romance histórico, na linha do super-bestseller Equador (300 mil exemplares vendidos só em Portugal, desde 2003), tem romance a mais e História a menos. O que MST quis fazer foi um “dois-em-um”: a saga familiar que atravessa três gerações no mesmo espaço mitificado (a Herdade de Valmonte, perto de Estremoz), com os seus rituais e segredos, provas de amor e desastres afectivos, tendo como pano de fundo a turbulência de Portugal e do mundo, num período que vai de 1915 (em plena “desordem” da I República) até 1945 (quando o Estado Novo já criou raízes que haviam de resistir durante mais três décadas). Acontece que a saga familiar ganha desde logo um excessivo ascendente e obnubila por completo o retrato maior de um tempo: essa convulsiva primeira metade do século XX, que assistiu ao nascimento (tanto na Europa como no Brasil) de regimes autoritários que viriam a precipitar o mundo na catástrofe. A questão da liberdade, perdida e procurada tanto a nível pessoal como colectivo, é um dos temas fundamentais do romance, mas à medida que se avança na narrativa cresce a sensação de que MST o desperdiça, por não resistir ao apelo da faceta mais sentimental da sua história.
O problema não está sequer na articulação entre os dois principais planos narrativos – o das personagens (família Ribera Flores) e o da História –, conseguida aqui e ali brilhantemente por MST, não só porque se mostra capaz de alternar com suavidade entre a esfera privada e a pública, passando do geral ao particular e vice-versa com uma espécie de zoom, mas também porque domina com mestria as técnicas narrativas (das longas descrições aos diálogos, passando por subtis mudanças de registo). Se há fórmulas para captar o interesse do leitor, MST conhece-as todas. E as mais das vezes aplica-as com elegância, embora também aconteça recorrer a clichés estafadíssimos do tipo “quem nunca sofreu por amor nunca aprenderá a amar”.
Em suma, o que o livro tem de melhor são as passagens que nos aproximam da atmosfera de uma época. O duelo entre os toureiros Joselito “El Gallo” e Juan Belmonte, na Real Maestranza de Sevilha. A conspiração republicana de 1927 para derrubar o recentíssimo Estado Novo. O perfil de António de Oliveira Salazar e sua entourage (António Ferro, Duarte Pacheco), enquanto montavam a teia num país condenado a “viver habitualmente”. A viagem inaugural do dirigível Hindenburg sobre o Atlântico, da Alemanha ao Rio de Janeiro. O terrível mergulho na Guerra Civil de Espanha, no meio da lama, sob uma chuva de obuses, face a face com a morte. Os detalhes da revolta do comunista Luís Carlos Prestes no Brasil governado por Getúlio Vargas. Sobre estes temas há páginas memoráveis, algumas de antologia.
O pior é o resto. Ou seja, a saga familiar propriamente dita. MST fascinou-se com o cenário rural da Herdade de Valmonte e fez dele o centro de gravidade do romance, por muito que as suas personagens deambulem por Lisboa ou mais além. Tudo parte dessa casa familiar onde coabitam Maria da Glória, a matriarca que governa a família desde a morte do marido, e os seus dois filhos: Diogo e Pedro, unidos no amor sem limites por aquela terra fértil e próspera, mas separados pelas respectivas visões do mundo. Diogo, apesar do modus vivendi burguês, sempre instalado em bons hotéis e a molhar charutos no brandy, não se conforma com a asfixia salazarista e a falta de horizontes. Pedro, mais parecido com o pai, só se interessa pelas alfaias e pela caça, agradecendo o regresso à ordem depois do caos republicano, aderindo à União Nacional e chegando ao ponto de combater em Espanha, ao lado dos franquistas.
Até aqui tudo bem. As diferenças políticas e de carácter entre os dois irmãos são um eixo narrativo interessante. Mas MST começa a patinar quando vai centrando cada vez mais a sua atenção nos dilemas amorosos de Diogo (sobretudo) mas também de Pedro, apostando em várias cenas de sexo que oscilam entre o frouxo e o ridículo, bem como num psicologismo banal, e com uma carga significativa de marialvismo bacoco, que reduz todas as figuras, mas essencialmente as femininas, a caricaturas.
Resta a questão do tamanho. As mais de seiscentas páginas são um exagero e, muitas vezes, um tormento. Mão amiga devia ter sugerido cortes nas cenas inúteis, nas repetições escusadas (por exemplo, o repisar detalhadíssimo das tarefas agrícolas) e nos derrames emocionais das personagens. É que com menos duzentas ou trezentas páginas, Rio das Flores podia ter dado um bom romance histórico sobre uma época raramente abordada pela ficção portuguesa. Assim, é apenas uma oportunidade perdida e um objecto pesadão, que faz lembrar o gigantismo do zeppelin em que Diogo viaja para o seu Brasil sonhado, mas sem a respectiva leveza de movimentos.
[Publicado, numa versão ligeiramente mais curta, na revista Time Out desta semana]
Comments
Sem ler o livro, muitos dos elementos soam imenso a "Barranco de Cegos". A herdade, a dicotomia aristocracia/povo, algumas convulsões, o nome pelo menos de um protagonista (Diogo, se bem me lembro do livro do Redol). Pelo que escreves, Zé Mário, parece que o MST quis avançar uns anos sobre o Barranco...
Posted by: João André | novembro 1, 2007 10:24 AM
É uma pena que a insistência em certas fórmulas de sucesso continuem a dominar a maioria dos livros que são publicados em Portugal. Decerto o falhanço de que acusa MST não terá sido culpa de quem o ajudou na pesquisa histórica. De qualquer modo, acredito que nesta época de aproximação do Natal vá vender como pãezinhos quentes, lado a lado com o primeiro livro sobre a Maddie.
Posted by: Vicious | novembro 1, 2007 06:04 PM
estou a ler, ainda não acabei. mas tem demasiados lugares comuns, muitos clichés, e a construção frásica é medíocre. MST não ficará para a história da literarura portuguesa. e ainda bem.
Posted by: maria manuel viana | novembro 3, 2007 06:33 PM
Embora ainda sem completar a leitura não concordo em absoluto com os "colegas" que aqui comentam o livro....
Posted by: Eduardo Almeida | novembro 4, 2007 11:07 AM
Apesar de ainda ir nas quatrocentas e cinquenta páginas das seiscentas, julgo que para grande parte das pessoas que irão ler este livro, a sua maior "benesse" que se nos oferece é, de facto, a historiografia de um tempo, por muitos desconhecida, mas que se revelará de grande interesse. Obrigado MST.
Posted by: paulo branco fresco | novembro 5, 2007 09:54 PM
E assim se podem escrever boas críticas literárias em Portugal. Aprendam senhores, aprendam.
Posted by: Rui Guerra Figueira | novembro 9, 2007 02:26 PM
Acredito que MST nfique para a história da Mas se não ficar digo: Aquilo que é efémero também tem o valor de quem o guarda na memória...e isso ninguém nos pode tirar!
Posted by: Ana Rita Santos | novembro 11, 2007 10:19 PM
O país que não lê,afinal ainda tem alguns que o fazem.Miguel Sousa Tavares faz muitos ler,sem parar,ensina História e sabe contar histórias.Quem fizer melhor,que se agarre ao cliché de atirar a primeira pedra.
Obrigada,Miguel Sousa Tavares !
Posted by: Fátima Pais | novembro 12, 2007 10:27 PM
Parabens. Considero um bom romance com bastante trabalho serio de investigação. Francamente apreciei mais o rio das flores que o equador. Salvo o devido respeito pelas criticas negativas (que poderiam ser construtivas) parecem-me terem um conteudo de inveja, o que me desgosta profundamente enquanto portuguesa. Por estas e por outras e que ficamos sempre os coitadinhos da europa...
Posted by: Isabel Miranda | novembro 28, 2007 09:35 PM
E engraçado como as coisas são neste pais...
Temos um grande escritor como o Miguel que constituiu um feito historico com a sua obra Equador, e que não desistindo se empenhou em voltar a fazer sonhar os seus leitores e fãs assiduos, e temos, ao mesmo tempo, pessoas estridentemente exigentes, que se aplicam muito mais em analisar uma obra do Miguel do que propriamente em vive-la e senti-la!
Logicamente que nunca conseguiremos juntar estes dois conceitos na mesma caixa...
Dou os meus sinceros parabéns ao Miguel e que nunca desista de fazer sonhar quem ainda o deseja!
Posted by: Diana Lopes | novembro 29, 2007 02:22 PM
boas a todos, para além de scritor, admiro bastante Miguel Sousa Tavares, porém tenhu k admitir k este seu ultimo romance me desiludiu. ind nao o acabei, penso acaba lo nos proximos dias e espe k mud a minha opiniao em relaçao ao livro dps d acaba lo.
Nota-se k est livro foi scrito a "pressa", pois para kem nao viu, logo no inicio do livro (pag. 15) ha um erro ortográfico na 14ª linha dessa mesma pagina ("...que iria à Feria de Sevilha com o Joaquim da Vila,..." pois não é Feria mas sim feira.
um abraço a todos,
TG
Posted by: TGaspar | dezembro 18, 2007 07:39 PM
Procurar os erros dos outros, criticar apenas pela negativa é façil. Estou quase no fim do livro, concordo que por vezes tanta narrativa sobre a familia Flores chega a cansar preferia que tivesse abordado mais Portugal, Espanha... o mundo desse tempo mas não deixa de ser um bom livro, eu pessoalmente estou a gostar bastante.
Posted by: Ricardo Germano | janeiro 5, 2008 01:39 AM
Depois de ler todas estas críticas, mando daqui uma mensagem ao Miguel de Sousa Tavares (pessoa com quem não me identifico, até pela sua aversão à Madeira, donde sou natural): Vive a vida e não te massacres em fazer escrita séria, porque parece que os intelectuais deste país não te querem perceber. Eles preferem o comentarista político sabichão e meio bronco dos telejornais. Gostei bastante do Rio das Flores, que me pareceu mais bem escrito do que o Equador.
Posted by: João Santos | janeiro 11, 2008 04:42 PM
Neste exato momento, acabo de terminar o livro. Sai em imediato, à busca de informações na internet e caí aqui neste blog. Sou brasileiro. Moro no Rio. Já tinha lido Equador e, de certa forma, descoberto a paixão pelo romance histórico. Comprei Rio das Flores agora em viagem à Lisboa e devorei-o em 10 dias. Concordo com a crítica de que o livro às vezes exagera na descrição das tarefas agrícolas de Valmonte - sem deixar o tema de ser interessante - e passa rápido, por exemplo, ao descrever as mesmas tarefas, e possíveis comparações, quanto à fazenda no Brasil.
POr outro lado, talvez por ser brasileiro e já acostumado a nossa maneira própria de falar o português, o livro renovou a minha paixão pela língua, tão rica e suavemente construída no texto do MST. E ainda usar esses dotes para dar elegância a comentários políticos e costumeiros sem perder a crítica ácida. Se os dois romances são best sellers em Portugal, trata-se de um bom sinal quanto ao que os prortugueses andam lendo. MST está de parabéns mais uma vez.
Posted by: Bernardo de Medeiros | janeiro 13, 2008 10:58 AM
Nunca tinha lido nenhuma obra do Miguel Sousa Tavres, mas confesso que gostei imenso do Rio das Flores. É um romance histórico, e permitam-me discordar quando dizem que é mau o autor ter-se esquecido da história e ter-se lembrado mais do romance...pois, exactamente:é um romance, primerio que tudo, que relata factos históricos e os tenta envolver nesse romance...não é um livro de história...
Achei deliciosa a personagem Diogo, embora admita que no romance existam demasiados lugares-comuns, mas a personagem mais deliciosa, a meu ver, será matriarca de Valmente, a mãe de Diogo e Pedro...Mulher fascinante...
Posted by: Clarice Ferreira | março 19, 2008 05:45 PM
Exmos sr.s e sr.as pois ouçam com atenção mesmo não sabendo em que página vão... é um romance sabido, entusiasticamente vivido... é um romance atrapalhado no final que não faz jus à personagem principal, mas ainda assim é um romace com dados históricos, actos e capítulos heróicos.
Posted by: bottinhas | março 24, 2008 04:52 PM
Acho o Rio das Flores um livro muito interessante quer do ponto de vista literário quer do ponto de vista histórico. Acho que o romance foi bem concebido, as personagens bem caracterizadas e está sempre presente alguma impresibilidade nos factos. Dará sem dúvida um bom filme ou novela.
Posted by: Ruii | maio 2, 2008 11:02 AM
Comecei a ler «Rio das Flores» e "perdi-me" logo nas primeiras páginas... a frase é enorme, os parágrafos contêm apenas um período, alongam-se, e o leitor perde o fôlego a ler, tendo que voltar atrás...
Em «Equador», a frase é mais leve, mais dúctil.
Não sei se conseguirei retomar «Rio das Flores»...
Posted by: maria José | julho 27, 2008 03:51 PM
Caro TGaspar, antes de criticar erros ortográficos, convém verificar que uma Feira em castelhano se escreve "Feria"...Santa Ignorância!
Posted by: Duarte | julho 30, 2008 03:54 PM
O tal erro ortografico tem razao de ser...
Feira em espanhol diz-se FERIA!!!
O autor apenas peca na expressao (feria de sevilha) por apenas fazer a traduçao da palavra feira.
Feria de Sevilla seria mais apropriado...
Posted by: Gonçalo Raposo de Magalhães | agosto 5, 2008 05:58 AM
Este livro é como o champô : 2 em 1
A parte "historia" gostei imenso pois acho que foi uma analise bem feita travez de 2 personagens.
Como sou velho e Alentejano tocou-me muito esta parte historica sobretudo que tinha 15 anos quand rebentou a guerra en Espanha.
Quanto ao romace acho-o muito banal, talvez optimo para fazer uma telenovela elàstica mas pouco original.
Posted by: Jose Alves | agosto 17, 2008 06:30 PM
Eu que ja li o livro todo , adorei.
Ha certas partes que cansa , fala muito na politica ... mas temos de dizer , que foi um bom livro!
Posted by: Tania | setembro 2, 2008 07:08 PM
O livro tem partes antológicas, mas tem algumas derrapadas que beiram o ridículo, como algumas cenas de sexo, a descrição exagerada de aspectos gastronômicos (orgulho português?) e a inacreditável onipresença ritual do...pequeno-almoço (o cafe-da-manhã, em brasileiro). O desfecho também me pareceu implausível, pois a escolha existencial de Diogo (novo casamento) parece estereotipada, com laivos coloniais. Mas, em suma, o livro é bom e instrutivo, e agora estou lendo (quase diria. "a ler"...)o aclamado Equador.
Posted by: ayer campos | setembro 14, 2008 12:22 PM
Vou no XI capítulo do livro, e até agora o saldo tem sido positivo, apesar de concordar com algumas críticas aqui acima escritas. Outras nem tanto.
Mas vou ter que fazer uma rectificação. Eu como apaixonado pelos charutos Cubanos, tal qual como o autor do livro, e que estimo muito e admiro, pois até já li toda a sua obra, tirando livros infantis, e um de crónicas, não posso deixar passar esta gafe.
Quando Diogo chega a Paris, a caminho do Rio, e faz uma magnífica refeição num dos melhores retaurantes da cidade, o autor descreve o personagem, no final desse sublime manjar a fumar um Cohiba, e a molhar a ponta gradualmente no cáliçe de Remy Martin.
Ora amigo MST, em 1934 a marca Cohiba ainda não existia. Esta marca foi só criada em 1966 pelo próprio Fidel, como marca de excelência.
Portanto ponha na boca do Diogo por exemplo um H.Upmann, que tembém fica bem servido.
Um forte abraço.
Posted by: pedro sousa | outubro 1, 2008 11:13 PM
estou a ler e concordo com o cansaço da frase demasiado longa, o que não me parece grave se for uma marca de estilo do pp autor...de resto, e para já, tanta tourada, tanta castanhola, tantos habanos...cheiram-me a "maionaise Hemingway", mas todos temos as nossas referências literárias. Falta-lhe "alma", aquela coisa que se descola do autor...é mais um livro do MST! Espero que ainda consiga surpreender-me!
Posted by: margaridamota | outubro 16, 2008 03:38 AM
Já o li, e gostei, para mim foi mais um apontamento histórico de quando eu ainda não era nascido. O romance à mistura com a história do mundo e em realce um periodo tão delicado para portugal, como para o mundo em geral. Muito interessante e nada cansativo.
Acho graça aos comentários que alguns compatriotas fazem, aqui comenta-se o Livro e o que ele nos ofereçe em termos de cultura geral, ou vimos para aqui comentar erros ortograficos ou marca de charutos.
A velha mania que o que os portugueses fazem, não presta os outros fazem melhor.
Devo confessar que Portugal nos últimos anos tem se evidenciado em muitos aspectos culturais, e cada vez aperecio mais a nossa música os nossos autores, etc.
Miguel, continue a escrever.
Posted by: Carlos Adriano | outubro 22, 2008 03:50 AM
alguem me pode ajudar? tenho um trabalho a realizar acerca do livro rio das flores, nomeadamente o papel da mulher, a relação entre irmaos, a politica e a força telurica. sera que alguem me pode dar umas dicas?
Posted by: vanessa | junho 6, 2009 11:54 PM
@vanessa,
Isto é o mal desta juventude, vêem para a net querer que lhes façam o trabalho por eles.
Posted by: retrato | maio 19, 2010 07:38 PM