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A DREAM OF DARK AND TROUBLING THINGS

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Eraserhead (1977), de David Lynch, foi ontem reposto nos cinemas nacionais. Lembro-me de o ver quando esteve em exibição, nos cinemas King, durante os anos 90. Na altura não era pai, mas a angústia da paternidade que atravessa todo o filme provocou-me uma reacção visceral. Aquele bebé mutante (espécie de criatura do Alien em versão metafísica), a banda sonora claustrofóbica, o preto-e-branco agreste e a narrativa esquizofrénica deixaram-me num estado de absoluta prostração, um mal-estar que requereu uma meia-hora sentado no passeio da Avenida de Roma, a ordenar as ideias, como quem regressa à Terra depois de uma semana em órbita ou sobe das profundezas do oceano depressa demais, saltando as etapas da descompressão. Nunca, como diante de Eraserhead, senti o efeito perturbador do cinema (para usar um adjectivo do slogan promocional). E não fui o único. Enquanto passava no ecrã o genérico final, um espectador levantou-se, lívido, e começou a pontapear o banco em que estivera sentado, enquanto gritava "Mas o que é isto? Mas o que é isto? Mas o que é isto?". Nunca assisti a uma cena semelhante em toda a minha vida de cinéfilo, nem sequer quando uma plateia enojada começou a sair a meio de uma projecção de Saló ou os 120 dias de Sodoma, do Pasolini.

Comments

Um dos poucos filmes de Lynch q nao vi...infelizmente.

Com Uma História Simples um dos filmes fundamentais para perceber toda a obra de David Lynch. Também o vi no King pela mesma altura em que o fez.

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