" /> A Invenção de Morel: novembro 2007 Archives

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novembro 30, 2007

SINCE 1993

[clique sobre o convite para ampliar]

LOMBA DIXIT

«Portugal, um país de muitos insucessos, tem assistido a uma expansão das pessoas "de sucesso".»
Concordo. E o pior é que algumas dessas supostas pessoas "de sucesso" nunca fizeram nada que as distinguisse. Um exemplo: Tiago Monteiro, provavelmente uma jóia de moço mas medíocre piloto de Fórmula 1.

novembro 29, 2007

GINGKO

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Esta, C., fica no Jardim da Parada, em Campo de Ourique.

ANIMAIS DOMÉSTICOS

Reencontrar uma blogger como se reencontra um amigo que julgávamos perdido.

WELCOME TO LILLIPUT

Littlegalerie: grandes citações para figuras mínimas.

A ÁRVORE PRODIGIOSA

Quem sabe ver uma Gingko biloba, sabe ver tudo.

novembro 28, 2007

DANIEL MUDA DE CASA

O Arrastão agora mora aqui. Bela moradia, Daniel. Com mais acessos, mais funcionalidades, mais pontas por onde pegar. A nova fase da blogosfera nacional (agregação em plataformas) continua em marcha e felizmente nem tudo fica para o animal verde que coaxa. Também há para aí uma quimera que está a tornar-se um caso sério.

E AS GIRAFAS? COMO É QUE FAZEM AS GIRAFAS?

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"Ó pai", diz ela, "as girafas não falam, as girafas são caladas."
Em Campo de Ourique, há um graffiteiro que não tem assim tantas certezas.

TEASER MANHOSO

Tenho uma coisa para anunciar mas (ainda) não vos digo qual é.

novembro 27, 2007

DIZ QUE É UMA ESPÉCIE DE ENTREVISTA (AO RICARDO ARAÚJO PEREIRA)

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(fotografia: Augusto Brázio)

Com um novo DVD dos Gato Fedorento à venda e a colectânea de crónicas da Visão a chegar às livrarias, Ricardo Araújo Pereira abriu o jogo e falou de tudo: do êxito, da escrita, do futuro, da sombra de MEC e do poder do humor

Comecemos pela questão da fama. Após quatro anos de exposição mediática, já aprendeste a lidar com a celebridade?
Aprendi. E sabes uma coisa? Não é assim tão difícil. Há vantagens e há inconvenientes. Os inconvenientes são chatos, admito, mas depois chegas a um restaurante a abarrotar, não reservaste mesa e o empregado pisca-te o olho e diz: “Venha cá que a gente arranja.”

Preservas muito a intimidade, a vida familiar. Mas depois há uma página na Wikipédia sobre ti que até explica quais são os nomes das tuas cadelas.
É verdade. Existe. Não sei como é que aquilo foi ali parar ou como é que estas coisas acontecem.

Já alguém tentou editar essa tua página da Wikipédia, como fizeram ao primeiro-ministro José Sócrates?
Não, nunca fiz isso, mas apetecia-me. Sinceramente. Nem que fosse só para tirar de lá essa estupidez.

Consegues fazer compras no hipermercado sem que te abordem a cada dois minutos?
Consigo. Não há propriamente magotes de adolescentes histéricas a atirarem-se para os meus pés, o que até seria engraçado. É mais a curiosidade, do tipo “olha aquele gajo, vê lá o que é que ele leva no carrinho”.

E há muita gente a dizer-te piadas, na esperança de que as utilizes?
Sim, sim, a dar sugestões e tal. Algumas delas até bem boas, tenho de confessar.

És sempre cordial nesses contactos directos com os fãs? Nunca te enervas, nunca respondes torto?
Nunca. Aprendi isso com o Herman.

Trata-se de respeitar quem te garante o ganha-pão?
Sim. E aquela pessoa não tem culpa nenhuma de não me apetecer falar, porque estamos num centro comercial e já houve outras 16 com a mesma ideia. Não tenho direito de ser desagradável com ninguém.

Por outro lado, apesar do teu aspecto de gajo porreiro, nas polémicas consegues ser agressivo, violento, às vezes até cruel.
Desagradavelzinho, não é?

Eu diria antes devastador. Já levaste ao KO adversários de peso e não me admirava nada que alguns deles tivessem recorrido ao psicanalista. O que é que te move nesses combates? É o puro prazer da disputa intelectual?
Eu acho uma certa graça a essa espécie de jogo. Porque há distanciamento. Uma coisa é estar a escrever, outra coisa é dizer na cara. As afirmações que se fazem, mesmo quando são muito violentas, ficam mais suaves se forem escritas.

Pois. Mas ainda assim magoam. Deve haver muita gente que não te pode nem ver.
Sim, há. Claro que há. Mas não tenho especial orgulho em aborrecer as pessoas. Quando o Pinto da Costa nos processa, não é uma medalha. O nosso objectivo principal é fazer rir as pessoas e encaramos isso como uma missão com alguma nobreza.

Neste momento, vês-te mais como um humorista televisivo que escreve umas crónicas ou como um escritor, um cronista, que também faz uns sketches com piada na TV?
Nem uma coisa nem outra. Eu penso sempre em mim como um gajo cuja profissão é escrever. Posso ir na rua, assistir a uma cena e pensar “vou aproveitar isto para um sketch”, mas são sempre coisas que passam pela escrita.

Boca do Inferno, o volume que reúne as crónicas que foste publicando na Visão, é o equivalente literário de um disco a solo?
É curioso que uses a terminologia das bandas de rock, porque as pessoas tendem a olhar para nós como uma banda. Até nas perguntas que fazem: “Quando é que acabam? Já se zangaram?” E numa coisa que normalmente não acontece aos colectivos humorísticos, que é criticarem-nos o excesso de atenção mediática, o já não sermos tão alternativos.

Como se a partir do “segundo álbum”, para manter a analogia, se tivessem vendido ao sistema e já não prestassem.
Isso também nos acontece muito. Há alguns puristas desencantados. Mas não deviam estar. Porque o Gato Fedorento é uma coisa que fazemos porque nos dá gozo. Nós já éramos amigos antes disto tudo começar. Não somos como as boys bands, em que o produtor diz: “Olha, mandem-me um modelo, mais um gajo que trabalhava nas obras e já agora um que saiba cantar, que também dá jeito.” Isto não é um casamento de conveniência. Sempre jogámos à bola juntos. Aliás, ainda agora é a nossa actividade principal. Faz parte da nossa vida estarmos uns com os outros. Mas cada um tem as suas coisas ao lado e isso nunca interferiu com a vida do grupo.

Começaste com as crónicas em 2004.
Sim, ainda no tempo do Cáceres Monteiro. E não me esqueço da simpatia com que ele comentava os meus textos.

Sentes que tens ali um campo de experimentação humorística?
Sinto sobretudo que é um espaço onde posso fazer tudo o que me apetecer. E gosto imenso do ambiente da revista. Já estive noutras redacções e não é a mesma coisa. Há ali, como havia na redação do Jornal de Letras, algo de familiar. Embora eu suspeite sempre quando alguém me diz: “Bem-vindo, nós aqui somos uma grande família.” Fico logo de pé atrás, porque conheço demasiado bem a minha família e não quero ir para outra. Mas aquilo não é familiar nesse sentido, é uma coisa mais fraternal.

Também recebes ameaças?
Algumas. Vai havendo, só que são mais incipientes. Quando pusemos o cartaz no Marquês de Pombal, os nazis ameaçaram-me. Mas se eu escrevo uma crónica na Visão sobre eles, é mais difícil. Até porque têm de pedir a alguém que lhes leia aquilo… Agora a sério, há reacções indignadas, sim, sobretudo quando abordo temas que se relacionem com a religião.

Ao Vasco Pulido Valente, apontaste o facto de ele ter inventado “uma extraordinária técnica para escrever crónicas”, que se resume a estar sempre contra o que toda a gente pensa. Mas tu também apuraste uma técnica própria: pegas num tema ou numa figura e vais desbastando, desbastando, até encontrares, lá bem no cerne, aquilo que podes satirizar.
Pois, é isso. Eu acho que naquele tipo de crónica, que é uma crónica sobre temas da actualidade, é obrigatório que o método seja esse: olhar para as coisas de uma forma que não corresponda ao modo como a generalidade das pessoas olham. Mesmo que seja através da ironia. Ou seja, indo ao encontro daquilo que toda a gente diz, mas fingindo estar a dizer o contrário. Isso é uma estratégia humorística clássica, universal. Todas as minhas principais referências fazem isso.

E que referências são essas?
Por exemplo, o Dave Berry, o S. J. Perelman, a Dorothy Parker.

Todos anglo-saxónicos.
Sim.

E em língua portuguesa? Os brasileiros?
Sim, os brasileiros. O [Luís Fernando] Veríssimo. Ou o Nelson Rodrigues. E, em Portugal, o Miguel Esteves Cardoso. Aliás, o meu principal trabalho é obrigar-me a não imitar o MEC. É por isso que procuro temas da actualidade…

Em vez daqueles que remetem para isto de ser português.
Nem mais.

Tens a angústia de um dia ires a meio de uma crónica e perceberes: “Eh pá, isto podia ser do MEC!”
Por acaso, há duas ou três em que aconteceu.

Sentes que há textos que não ficaram tão bem acabados como gostarias?
Claro. Imensas vezes.

Reviste os textos para a edição em livro?
Revi alguma coisa. Mas não fiz disso um trabalho obsessivo por duas razões: 1) porque não queria; 2) porque se me pusesse a fazê-lo, nunca mais parava. Daí aquela inscrição em latim macarrónico que está na capa, à maneira dos romances do Lobo Antunes: “Ne varietur nisi ego reperio melior jocus”, que quer dizer “edição definitiva a menos que eu me lembre de piadas melhores.”

Por falar em romances, um dia disseste que gostavas de escrever como o Mário de Carvalho. Isso é um desígnio adiado? Ou evitas dizer que vais escrever um romance para não elevares demasiado as expectativas?
O MEC diz que quem anuncia que vai escrever um romance está a procurar um “adiantamento de prestígio.”

Fica logo num grau superior de dignidade.
É. O pior é depois. Quanto a mim, escrevi num livro da quarta classe que quando fosse grande queria ser “escritor e futebolista”, duas profissões que andam, como se sabe, muito a par. Isso bastou para que as pessoas dissessem que eu queria escrever livros. O problema é que desde cedo percebi que não tinha jeito nem para jogar à bola nem para escrever livros como um escritor escreve.

Numa das crónicas, fazes um pastiche brilhante do António Lobo Antunes e no fim queixas-te de que o subúrbio onde ele viveu a infância era melhor do que o teu, rematando ser essa a razão do abismo que vos separa: Lobo Antunes tornou-se um grande escritor e tu “só um palerma”. É a famosa estratégia da auto-depreciação.
Exacto. Resulta muito bem.

Mas não achas que a levas longe demais?
Acho, acho.

Começa a parecer um truque fácil.
De facto, é. Também sinto que este truque está a esgotar-se. Tenho de inventar outro. É sempre bom baixar as expectativas, mas não posso cansar as pessoas. Dito isto, em comparação com o Lobo Antunes, sou mesmo só um palerma. É uma coisa factual. É tão denotativo que não chega a ser uma estratégia.
[Uma pessoa aproxima-se com um telemóvel na mão, interrompe a conversa e diz que o Rui Veloso quer “dar um abraço” ao entrevistado. “Estou? É mesmo o Rui Veloso que fala?”, pergunta RAP. No fim, devolve o telemóvel e diz: “Eu agora queria falar com o Jorge Palma, se faz favor.”]
Onde é que íamos?

Já não sei. Mas podemos mudar de agulha. Achas que os Gato Fedorento têm prazo de validade?
Sim, mas nós vamos gerindo isso. O nosso plano agora é não fazer nada, ou quase nada, em 2008.

Vocês controlam tudo o que se passa no Diz que é uma Espécie de Magazine?
Controlamos. Essa é uma das dificuldades. Eu desafio qualquer um a encontrar outro programa de 40 minutos que seja escrito, interpretado, apresentado e pesquisado pelos mesmos quatro palermas, que depois ainda acompanham a montagem, a pós-produção vídeo, a pós-produção áudio, passam oito horas nas catacumbas da RTP a ver cassetes para encontrar ‘Tesourinhos Deprimentes’…

Mas porquê?
Não delegamos nada em ninguém. A culpa também é nossa.

E não deviam delegar?
Provavelmente devíamos. Mas para nós uma das coisas boas disto é controlarmos tudo.

Porque acham que a partir do momento em que houvesse alguém que vos chamasse à razão perderiam as rédeas do programa?
Isso também, claro... A questão é que nós somos verdadeiros produtores do programa. Se faltar dinheiro, sou eu que ponho. Optámos, desde o início, por não ter um produtor no sentido clássico. Aquele produtor que diz: “Precisam de quantas bailarinas? Sete? Com três, com três faz-se.” Nós preferimos fazer à nossa maneira.

Mas às vezes era bom que alguém vos dissesse que um sketch não funciona ou que está demasiado longo. Não achas?
Não, porque nós próprios fazemos isso e temos essa consciência. Muitas vezes dizemos: “Eh pá, devíamos ter cortado este meia hora antes.”

Faz sentido lançar um DVD com os melhores momentos do programa quando eles já estão todos disponíveis no YouTube?
Boa pergunta. O nosso primeiro DVD vendeu 65 mil exemplares quando o programa na SIC Radical tinha só dez mil espectadores. Na SIC disseram-nos: “Se isto vender cinco mil, abre-se uma garrafa de champanhe.” A verdade é que mesmo com a divulgação toda na internet, as pessoas não deixam de querer o DVD.

Achas que têm evoluído enquanto actores?
Nem por isso. É o único aspecto em que não investimos.

Já ponderaram utilizar verdadeiros actores em projectos futuros?
Sim. Na esmagadora maioria dos casos, qualquer actor para quem eu já escrevi faria melhor do que eu. Se não for em todos os casos.

Qual é para ti a melhor piada de sempre?
Não sei. É muito difícil escolher.

Mas gostavas de chegar à piada perfeita?
Ó pá...

Essa piada talvez não fosse a que mata, como a killing joke dos Monty Python, mas a que ressuscitasse alguém.
Exacto. É esse o objectivo. Mas eu contento-me com menos. Basta fazer rir as pessoas. Ver o efeito físico do riso. Algo que imita muito bem o estado de felicidade. E conseguir proporcionar isso a alguém é a maior ambição que um gajo pode ter. Quando o Hamlet vai ao cemitério e está a escavar a cova para a Ofélia, apanha a caveira do Yorik, que era o bobo da corte. No final da cena, diz ele para a caveira: “Vai dizer à rainha que por muita base que ponha na cara, por muita maquilhagem que coloque, é ao teu estado que ela vai chegar, fá-la rir disso.” E essa é de facto a missão do humorista. O Shakespeare poderia ter posto o Hamlet a falar com a caveira de uma ama ou de um tio. Mas não. Ele fala para o bobo, o tipo que fazia rir as pessoas. É o contraste entre o riso e a morte que fica ali em tensão. Como que a insinuar que é preciso pôr todas as pessoas a rir da morte. E no fundo é isso que nós, humoristas, vamos tentando fazer.

[Publicado na edição desta semana da Time Out]

novembro 26, 2007

LETRA DE FORMA

O melhor lugar para os textos de crítica do Augusto M. Seabra (que deixaram de ter espaço na imprensa)? A blogosfera.

DIZ QUE É UMA ESPÉCIE DE RECENSÃO

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Boca do Inferno, de Ricardo Araújo Pereira, Tinta da China, 289 páginas.

Ricardo Araújo Pereira, RAP para os amigos, não é só o melhor humorista português da actualidade. É também o mais completo. Se outros nomes podem rivalizar com ele no domínio das técnicas da stand up comedy ou nas ideias para sketches televisivos, ninguém lhe chega aos calcanhares em termos de escrita. Aliás, no humor português pode haver muita gente com graça mas a verdade é que não abundam os escritores. E RAP é, antes de tudo, um escritor. Escritor a sério, de fina estirpe, elegante, com uma prosa de recorte clássico e um raro domínio das potencialidades expressivas da língua portuguesa.
Se dúvidas restassem quanto à sua qualidade muito acima da média, bastaria apresentar este volume de 123 crónicas publicadas na revista Visão e dizer, como os advogados triunfantes nos filmes de tribunal norte-americanos, I rest my case.
Das lusas idiossincrasias às crises mundiais, do estranho prestígio dos autarcas corruptos ao Portugal-Inglaterra em que se transformou o caso do desaparecimento de Madeleine McCann, passando pelos dilemas da paternidade, pela transformação de Salazar em “papa-concursos”, pela necessidade de implodir o país todo, pelo futebol (que se confunde com o Benfica) e pela exegese das letras do Avô Cantigas, há de tudo para todos os gostos. Sempre segundo uma regra de ouro: olhar para a realidade à procura do seu ângulo morto, que é aquele por onde a ironia melhor ataca. O resto é técnica, agilidade e riqueza vocabular. Além de doses generosas de coragem para provocar as ‘vacas sagradas’ da opinião cá do burgo, de Vasco Pulido Valente a José Pacheco Pereira.
Conclusão: pretensos herdeiros do melhor Miguel Esteves Cardoso (o dos anos 80) não faltam, mas só Ricardo Araújo Pereira revela estofo para lá chegar no curto prazo.

[Publicado na edição desta semana da Time Out]

novembro 25, 2007

E AGORA ASSUNTOS LOCAIS

«(...) Havia crianças pequenas deitadas na relva molhada pela chuva. A tempestade aumentava sobre as nossas cabeças. Os polícias batia e disparavam sobre eles de forma horrível. Estive lá até à uma da manhã e depois fugi. O meu coração batia. Saltei por uma janela do primeiro andar de um pequeno edifício, e nada me aconteceu. Só os meus lábios estavam tão mordidos que até sangravam. (...) Oh, esqueci-me da coisa mais importante. Vi como um soldado arrancou um bebé, que tinha somente uns meses de idade, dos braços da mãe, antes de esmagar a sua cabeça contra um poste eléctrico. O cérebro do bebé explodiu contra a madeira. A mãe ficou louca. Escrevo isto como se não fosse nada, como se estivesse habituada aos horrores da guerra, e ainda sou jovem, tenho catorze anos e ainda vi pouco nesta vida e já sou tão indiferente. Estou a experimentar um medo horrível quando vejo um uniforme, fico triste devido às massas que esperam pela morte. Ah, é possível enlouquecer se nos recordarmos de tudo isto. E agora assuntos locais: hoje à tarde esteve cá o Janek. Tive de o receber na cozinha. Comecei por irritá-lo, dizendo-lhe que tinha dado todas as minhas fotografias. Ficou muito zangado. Estivemos a brincar, conversámos sobre "a Nica e a malta". Palavra puxa palavra e descobri que ele ficaria muito feliz se me beijasse. Disse-lhe «é possível» e continuei a falar. Ficou um bocadinho em baixo, pensava que eu era como a Tusia ou a Hala Zelinger. Só me deixaria beijar por um rapaz que amasse e o Janek é-me completamente indiferente.»

[in O diário de Rutka, de Rutka Laskier, trad. Maria Milewska Rodrigues, Sextante, 2007]

novembro 24, 2007

SERVIÇO DE DEMOLIÇÃO

VPV vs. MST: ou como quatro páginas reduzem a pó 608. Hoje, no suplemento P2, do Público.

MUDAR DE VIDA

Ou a prova de que ainda há jornais populares que não são tablóides (muito pelo contrário).

novembro 23, 2007

A DREAM OF DARK AND TROUBLING THINGS

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Eraserhead (1977), de David Lynch, foi ontem reposto nos cinemas nacionais. Lembro-me de o ver quando esteve em exibição, nos cinemas King, durante os anos 90. Na altura não era pai, mas a angústia da paternidade que atravessa todo o filme provocou-me uma reacção visceral. Aquele bebé mutante (espécie de criatura do Alien em versão metafísica), a banda sonora claustrofóbica, o preto-e-branco agreste e a narrativa esquizofrénica deixaram-me num estado de absoluta prostração, um mal-estar que requereu uma meia-hora sentado no passeio da Avenida de Roma, a ordenar as ideias, como quem regressa à Terra depois de uma semana em órbita ou sobe das profundezas do oceano depressa demais, saltando as etapas da descompressão. Nunca, como diante de Eraserhead, senti o efeito perturbador do cinema (para usar um adjectivo do slogan promocional). E não fui o único. Enquanto passava no ecrã o genérico final, um espectador levantou-se, lívido, e começou a pontapear o banco em que estivera sentado, enquanto gritava "Mas o que é isto? Mas o que é isto? Mas o que é isto?". Nunca assisti a uma cena semelhante em toda a minha vida de cinéfilo, nem sequer quando uma plateia enojada começou a sair a meio de uma projecção de Saló ou os 120 dias de Sodoma, do Pasolini.

novembro 22, 2007

SÃO PETERSBURGO

«Não admira que São Petersburgo revelasse a sua bizarria quando o mais bizarro dos russos da Rússia [Gogol] calcorreava as suas ruas. Pois São Petersburgo era isso mesmo: um reflexo num espelho embaciado, uma sinistra confusão de objectos utilizados de uma maneira imprópria, coisas que recuavam mais depressa quando mais velozmente avançavam, vagas noites cinzentas em vez das ordinárias noites negras, e dias negros – o "dia negro" dum manga-de-alpaca miserável.»

[in Nikolai Gogol, de Vladimir Nabokov, trad. Carlos Leite, Assírio & Alvim, 2007]

OUTONO (3)

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Ontem

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Hoje

novembro 21, 2007

PROGNÓSTICOS SÓ NO FIM E TAL

Amanhã, coisa rara, estreia-se nos cinemas portugueses um filme finlandês (de Aki Kaurismaki). Título: Luzes no Crepúsculo. Espero que não seja um prenúncio.

CAÇADORES DE ERROS

Talvez escaldado com os 22 erros históricos descobertos na primeira edição do romance Equador, Miguel Sousa Tavares fez questão de escrever uma nota, no final de Rio das Flores, em que esclarece:

«Este não é um livro de história mas sim um romance histórico. Nele convivem personagens reais com outros fictícios, acontecimentos reais com outros ficcionados. Todavia, o que é histórico – nomes, lugares, factos – corresponde rigorosamente ao que aconteceu e resulta da pesquisa extraída da bibliografia adiante referenciada [mais de cem livros] ou feita localmente por mim. Todas as passagens escritas entre aspas são verídicas e textuais, mas certos acontecimentos reais e de importância menor ocorreram em datas não exactamente coincidentes com as que são referidas ou implícitas no texto, de modo a fazê-los coincidir com a cronologia romanesca. Isso, porém, não implica nem com a sua veracidade, nem com o contexto em que sucederam. Aos leitores garanto a seriedade do relato histórico, aos caçadores de erros a inutilidade final do seu esforço.»

Só escreve uma nota destas quem está certo de não ter cometido qualquer deslize ou mínima imprecisão nas fastidiosas 600 páginas do seu relato. Ora acontece que mesmo numa leitura vertiginosa e a mata-cavalos como foi a minha, sem tempo para respirar (quanto mais para verificações históricas e cotejos), detectei os seguintes lapsos:

– a sugestão de que os ciganos descendem dos mouros

– a Scientific American apresentada como "revista de arquitectura"

– uma artista plástica a explicar, num jantar em casa da família do amante (homem rude e pouco instruído), que não é possível conhecer bem a pintura moderna ignorando o trabalho de um tal Jackson Pollock, «abstracto», ou de um Edward Hopper, «hiper-realista». Se a designação «hiper-realista» para designar a obra de Hopper é duvidosa mas pode ser atribuída à personagem, e não ao autor, resta um problema: a conversa de Angelina que tanto impressiona Diogo (o irmão mais velho do seu amante), acontece por volta de 1934 e Pollock só começou a tornar-se abstracto no início da década de 40. Antes disso pintava num estilo "regionalista", figurativo e inspirado pelos grandes muralistas mexicanos. Será este um dos tais acontecimentos "reais" mas de "importância menor" que permite o recurso a "datas não exactamente coincidentes"?

Outras passagens houve que não cheguei a anotar mas que me suscitaram dúvidas. Quando os verdadeiros caçadores de erros terminarem as leituras à lupa, que ainda devem estar em curso dada a extensão do livro, pergunto-me quantos pontos terá a sua errata. E, já agora, se MST manterá a orgulhosa nota final numa mais do que provável segunda edição.

novembro 20, 2007

UMA MULHER QUE É METADE PEIXE E OUTRAS FABULOSAS BIZARRIAS

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A Sereia de Curitiba, de Rhys Hughes, trad. Safaa Dib, Livros de Areia, 170 páginas.

Numa altura em que a globalização económica e cultural parece cada vez mais imparável, a tendência da maior parte dos criadores é para se expressarem em inglês, língua dominante e passaporte de acesso aos mercados com extensão planetária. Alguém lembrar-se de inverter essa tendência, ainda por cima quando o idioma de Shakespeare é a sua língua materna, pode parecer absurdo. Mas é isso que acaba de fazer Rhys Hughes, um autor galês muito ligado ao universo da literatura fantástica, que escreveu A Sereia de Curitiba, um “pequeno livro de histórias interligadas”, a pensar exclusivamente na publicação em língua portuguesa.
Resumindo: por vontade expressa de Hughes e para boa fortuna da editora Livros de Areia, estes oito contos só existem assim, traduzidos por Safaa Dib. Ou seja, enquanto “variação” de um original que “nunca será visto”. Soa borgesiano? Não é por acaso. Jorge Luis Borges, o mestre argentino dos contos eruditos e labirínticos, está no topo do panteão literário de Hughes, um pouco acima de outros experimentadores dos limites ficcionais, como Italo Calvino, Milorad Pavic ou Donald Barthelme.
E tanto assim é que a primeira obra que Hughes editou em português, já na Livros de Areia, foi Uma Nova História Universal da Infâmia (2006), magnífica homenagem que replica a estrutura de um dos mais importantes livros de Borges, sem se ficar pelo mero epigonismo, antes aplicando o seu estilo peculiar e o seu humor extravagante às formas criadas pelo autor de O Aleph.
Curiosamente, o ponto de partida deste novo livro continua ligado a Borges, ao compensar uma falha imperdoável do Livro dos Seres Imaginários, em que o escritor argentino se esqueceu de incluir (ou não quis incluir) a sereia, esse mítico ser híbrido – metade mulher, metade peixe –, que leva os homens à loucura com o seu canto.
À sereia de Hughes, encontramo-la em Curitiba, alvoroçada com a folia do Carnaval, e é mais uma musa frágil do que uma pérfida sedutora. Com os seus “cabelos ondulados”, transtorna emocionalmente um Viajante de imaginação fácil e dá o mote a uma série de aventuras maiores do que a vida, em que tudo pode acontecer, desde viagens à Lua (onde os tritões passam a vida a observar o que se passa cá em baixo, através de telescópios cujas lentes encaixam nas crateras) até fugas mar adentro em cima de uma colher com nove metros.
Há também histórias sobre piratas e sobre os boémios tristonhos de Swansea, parábolas engenhosas (Horizonte Eterno), jogos de pura deriva surrealista (Falsa Alvorada de Papagaios), deliciosas narrativas de registo nonsense (Tudo para Nada e Regresso a Zenda), além de um conto genial, Cultos da carga na Ilha do Beijo Picante, que dinamita as fronteiras narrativas e engole literalmente um leitor que simboliza todos os leitores.
Neste livro, Hughes quis ser uma espécie de oitocentista pós-moderno, um Júlio Verne que só escrevesse durante trips de LSD. O resultado é tão bizarro quanto fascinante.

[Publicado na edição de sábado do Diário de Notícias]

novembro 19, 2007

DOIS ROLLS-ROYCE PARADOS NO ROSSIO

Foi sexta-feira à noite. Os dois automóveis de luxo estavam encostados ao passeio, em frente do McDonald's. Pus-me a imaginar histórias. Um casal multimilionário que já nem o automóvel partilharia, quanto mais o quarto. Ela a beber um cházinho na Suíça e ele disfarçado, com boina e óculos escuros, a satisfazer o guilty pleasure de comer hambúrgueres no meio do povo pelintra.
Como ia atravessar a praça, aproximei-me. O Rolls de trás tinha vidros fumados e apenas consegui distinguir o vulto aprumado do motorista, muito ao estilo Ambrósio dos bombons Ferrero Rocher. O da frente tinha as janelas abertas. O chauffeur era jovem, bem parecido e vestia uma farda impecável que talvez a mãe lhe tenha passado a ferro, de madrugada, mesmo antes de sair, para não ganhar um vinco sequer. Apesar de visivelmente enfadado, escondia o tédio com elegância.
Então, no exacto momento em que o homenzinho verde do semáforo se acendeu, no preciso instante em que pus o pé na passadeira, a minha visão periférica identificou um telemóvel nas suas mãos e os gestos de quem escreve uma SMS. Já não olhei para trás (a minha curiosidade tem limites) mas quando pedi uma bica no Café Gelo, que voltou a chamar-se Café Gelo embora nada guarde do tempo longínquo das tertúlias literárias, dei comigo a pensar na mensagem que o motorista de um Rolls-Royce parado no Rossio poderia escrever para tornar mais curta a espera. Seria «Mamã, já não janto. Guarda-me a sopa e os pastéis de bacalhau no frigorífico» ou «Querida, só vou estar despachado às onze, mas ainda podíamos ir à sessão da meia-noite»?

OUTONO (2)

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Ontem

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Hoje

novembro 18, 2007

CRÓNICAS DE BIZÂNCIO

O Pedro Sena-Lino também já cá está (na blogosfera, I mean). E, parece-me, em excelente companhia.

FUTEBOL CATÓDICO

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O jogo de ontem à noite contra a Arménia foi fraquíssimo, a vitória mínima (1-0) e os adeptos só não adormeceram porque o frio de Leiria não deixou. Às vezes, o futebol catódico é, para quem se afunda no sofá, futebol catatónico. Salvou-se o golo e a agitação cromática dos pixéis.

novembro 17, 2007

SMS PARA RITA FERRO RODRIGUES

Eu sei que estas coisas não se agradecem (e menos ainda publicamente) mas de qualquer forma obrigado pela referência a este blogue na tua coluna da revista Única, na edição de hoje do Expresso.

AY CARAY

Fala da criada dos Noailles..., de Jorge Silva Melo, Cotovia, 88 páginas.

Logo pelo título quilométrico – Fala da criada dos Noailles que no fim de contas vamos descobrir chamar-se também Séverine numa noite de Inverno de 1975 em Hyères – torna-se claro que o livrinho de Jorge Silva Melo é mesmo uma “paródia”: veloz, incisiva, cultíssima, barroca e talvez “inconsequente”, como admite o seu autor.
Simplificando, esta é a história de um jantar silencioso entre Luis Buñuel e o conde de Noailles, seu antigo mecenas, narrado por uma criada que desmente, com bazófia e graça, a versão desse repasto que aparece num livro de memórias do realizador [O Meu Último Suspiro, edição Fenda].
Truculenta, a serviçal revela-nos a decadência do patrão aristocrata, de cujo palacete já desapareceu quase tudo: os espelhos venezianos, as bandejas de ouro e até mesmo a electricidade (faltam 203 lâmpadas no lustre do salão). A ruína do conde equivale ao fim de um tempo, o das vanguardas artísticas e dos génios que os endinheirados gostavam de ostentar nas suas festas. Génios que para Séverine nem sequer têm nome: Picasso é o espanhol “pequenito e atarracado” que a leva para a cama, todo nu, com cornos de sátiro e pés de bode, só para a desenhar; e o próprio Buñuel fica reduzido ao homem que lhe levantava as saias para ver as suas botinas e exclamar “Ay caray”.
O tresloucado monólogo (“sublime” e “delicioso”, como diria a condessa) culmina num final tão pícaro quanto apoteótico, em que os grandes mecenas do passado aparecem na condição de fantasmas. No apêndice, uma cliente arrependida do pintor Hogarth resume tudo em duas frases: “A arte não serve para nada. Só para gastar dinheiro.”

[Publicado na edição desta semana da Time Out]

PRÓ MANETA

Parece que Vasco Pulido Valente vai lançar um livro intitulado Ir pró maneta. Desperdício, digo eu. Um título assim não devia ser esbanjado num volume só, quando serve tão bem à sua obra completa.

novembro 16, 2007

COISAS QUE SE ENCONTRAM NO YOUTUBE

Ricardo Araújo Pereira a explicar ao Rei de Espanha como é que se cala um tiranete.

TELEGRAMA PARA PEDRO ROLO DUARTE

Eu sabia STOP Eu sabia STOP Não foi em 2003, foi em 2007 STOP Bem-vindo a este lado da barricada STOP

novembro 15, 2007

OUTRA PERGUNTA SINGELA

E a este, quem é que o manda calar?

PERGUNTA SINGELA

Porque será que para os blogues de direita um disparate dito por James Watson (a ideia de que os negros são menos inteligentes do que os brancos) é apenas "políticamente incorrecto", logo digno de ser defendido como uma bandeira da liberdade de expressão, mas um disparate dito por Hugo Chávez ("Aznar é fascista") só pode ser lido como um insulto criminoso, a exigir resposta à altura, dada de preferência por um monarca que chegou ao trono (nem de propósito) durante o consulado de um verdadeiro fascista?

CHÁVEZ VS JUAN CARLOS

Muito se tem dito e escrito sobre o happening da cimeira ibero-americana, quando o Rei Juan Carlos, depois de Zapatero ter defendido o seu antecessor (Aznar) da acusação de "fascista" lançada gratuitamente por Hugo Chávez, mandou calar o presidente da Venezuela. A direita portuguesa em geral, e a blogosférica em particular, rejubilou com a coragem e rispidez do monarca espanhol, que teria posto finalmente em sentido o perigoso demagogo com a mania que é Simon Bolívar. Rui Tavares já explicou como a vitimização do ex-colonizado, alvo directo da arrogância de um herdeiro longínquo dos antigos colonizadores, pode ser perigosa (na medida em que oferece de mão-beijada uma arma retórica que Chávez há-de explorar até ao limite). Eu não me limitaria a opor o sentido de Estado de Zapatero, que manteve a serenidade e ficou na sala até ao fim, ao ataque intempestivo de Juan Carlos, que tratou o presidente eleito de uma nação independente como se fosse um lacaio desbocado. Por muito que Chávez seja um político populista e provocador, sem tento na língua, mal educado e prepotente, o rei de Espanha perdeu a razão ao formular a pergunta daquela maneira. E era tão simples. Em vez do autoritário "Porque não te calas?", o que se impunha era o desarmante "Porque dizes isso?" Se Chávez insistisse em chamar fascista a Aznar, o rei encolheria os ombros como quem diz "assim não consigo dialogar" e sairia à mesma da sala, só que com uma superioridade moral que aquele "Porque não te calas?" lhe retirou.

PÔR-DA-TERRA

lua.jpg

Ou um deslumbramento apenas reservado aos selenitas.

[Imagem obtida aqui, via Público]

TRÊS POEMAS DE INÊS LOURENÇO

TRANSFUSÃO

Lia assim alguns
livros de versos:

os dois poemas
do início. Depois os dois
últimos, a seguir os dois do meio,
onde algum sobressalto
ainda se inesperava.

Revelada a
amostra sanguínea
contaminada ou imune
ao síndrome de gastos arroubos
divinos ou humanos

logo ali se anulava tantas
vezes aquela inútil
transfusão.


INSCRIÇÕES

Um dia para florir
a sepultura. Afluímos
às necrópoles cheias
de rituais tabuletas e ficcionais
inscrições:
eterna saudade
dos filhos, noras e netos. Genes
já anunciados das futuras
ficções de eternidade. Mais
que os já invisíveis, que nomeiam,
as tabuletas, visíveis, reproduzem-se.


PORTA DE ARMAS

Os teus dentes emboscados atrás
dos lábios entreabertos no indício
do sorriso, esse pré-aviso de facas,
anunciam a tua humana condição capaz
de morder e mastigar. A explicação
do mundo recomeça aí, nessa
porta de armas.

[in A Disfunção Lírica, &etc, 2007]

novembro 14, 2007

GMAIL

O meu correio electrónico, que já foi mais ou menos normal (apesar do spam), está agora transformado num verdadeiro albergue espanhol. Cai lá tudo e um par de botas, o que me leva a longas sessões de delete e alguns apagamentos involuntários. Só para terem uma ideia, entre as últimas vinte mensagens recebidas contava-se um convite para passar o fim-de-semana "em território de Lobos" (incluindo um passeio na montanha, com cartas militares e GPS, durante o qual receberia uma lição sobre como "identificar as constelações com a ajuda de um raio laser"), publicidade a um cartão de crédito que permite ganhar "3% de desconto em todas as compras para sempre!", apelo a uma noite de música com o DJ Falcon ("from Daft Punk"), informação sobre o colóquio internacional Baudelaire e as posteridades do moderno, informação sobre o debate "O Médio Oriente remodelado", a tal sugestão de um "curso completo de pastelaria", um esquema de marketing online da Sagres e a indispensável notícia de que os Senhores do Fraque mudaram de instalações.
Ó senhores do Google: eu agradeço muito o espaço enorme que me concedem (e sempre a crescer, sempre a crescer), mas não podiam arranjar um filtrozinho qualquer contra este bombardeamento de mails que tantas vezes escondem aquele de que estávamos realmente à espera?

novembro 13, 2007

VENHAM MAIS QUATRO

São o Tiago Ivo Cruz, a Natasha Nunes, a Mariana Mortágua e o José Reis Santos. Que é como quem diz Les Canards Libertaîres. Mais um reforço de qualidade para a fileira dos blogues de esquerda (que bem precisa de reforços).

novembro 12, 2007

EU É MAIS BOLOS

Alguém me enviou, por mail, o link para um curso completo de pastelaria. Devo interpretar isto como um gesto amigo ou um insulto?

DECÁLOGO DO PREFACIADOR

Primeiro. Não tenhas medo do livro que vais prefaciar. O medo paralisa e se ficares paralisado nunca conseguirás escrever uma linha sequer, quanto mais as sete ou oito páginas inúteis que o editor te encomendou, na esperança vã de que pudesses "trazer mais luz" a uma obra que não necessita da tua luz para nada.

Segundo. Faz esboços, estrutura ideias, contextualiza, descontextualiza, corta e cola, inventa abordagens, cria bifurcações, opta mesmo quando tens dúvidas, não receies voltar à estaca zero, insiste e repete, insiste e repete, vai falhando melhor (como diria Beckett). Por cada dez linhas que conseguires, corta nove. Reescreve a que sobrar quantas vezes forem necessárias.

Terceiro. Nunca penses no leitor que te vai ler. O leitor que te vai ler é uma projecção nefasta, um fantasma, uma ameaça, é o juiz cruel que te olha de cima (jocoso), o inimigo que anseia pelos teus deslizes e te roga pragas.

Quarto. Não queiras que o teu prefácio seja um espelho (e muito menos uma miniatura). As sinopses, caso não tenhas reparado, são exercícios de síntese que não carecem de assinatura.

Quinto. Procura, através do texto, algo que se assemelhe a uma relação simbiótica com o teu objecto (já todos estamos fartos de parasitas). Se tiveres talento para tanto, dialoga com o livro, mas não o canibalizes.

Sexto. Faz citações sempre que for possível, lógico ou razoável. Se tudo o resto for um desastre, sabes que pelo menos essas palavras merecerão ser lidas.

Sétimo. Aposta no laconismo. Frases curtas, bem medidas, com efeito (algures entre o aforismo e o slogan). Se queres ver o teu nome na badana, esse panteão do elogio, não há outro caminho.

Oitavo. Lembra-te bem disto: o prefácio é algo que está entre o leitor e a obra propriamente dita. Se for muito denso, faz sombra. Se for muito opaco, eclipsa. Se for muito transparente, é como o vidro de uma montra. Em qualquer dos casos, adias o contacto, atrasas o que está para acontecer. E isso implica uma responsabilidade. Dito de outro modo: se não fores interessante, tenta pelo menos ser breve. Se não tiveres nada de fundamental para dizer, sai da frente. Não atrapalhes.

Nono. Evita criar para os outros regras que não consigas cumprir tu mesmo.

Décimo. Se te ocorrer fixar um decálogo, fica-te pelos dez mandamentos. Augusto Monterroso foi até aos 12, mas Augusto Monterroso era Augusto Monterroso e tu és tu.

[excerto do prefácio que escrevi para o livro O resto é silêncio, de Augusto Monterroso, edição Oficina do Livro]

Texto completo aqui:

PREFÁCIO

Nota prévia

Este prefácio tem consciência de que é um prefácio. Este prefácio não ignora uma das verdades mais incómodas da literatura: a de que os prefácios são por natureza feitos de ar, de ideias fugindo pela página como lebres, de reflexos de sol em janelas que outros abriram, de nuvens que se formam num ápice e num ápice desaparecem, entre outras coisas igualmente impalpáveis; ou seja, são os mais precários e descartáveis dos textos. Este prefácio sabe que os leitores comuns não lêem prefácios (na melhor das hipóteses, limitam-se a atravessá-los na diagonal) e que os outros leitores, os que lêem tudo (até a ficha técnica, o nome da gráfica onde o livro foi impresso e o ISBN), toleram estas páginas iniciais como um sacrifício que faz parte do ritual da leitura, uma espécie de via crucis antes de chegarem ao que verdadeiramente lhes interessa. Sabendo isto melhor que ninguém, este prefácio não alimenta quaisquer ilusões. No fundo, aspira à invisibilidade. Se derem por ele, óptimo. Se não derem por ele, melhor ainda. Mais do que um texto, gostava de ser uma porta que se abre. Ou o tapete junto dessa porta, o tapete com motivos geométricos onde o leitor limpa a sola dos sapatos, antes de entrar.

Decálogo do prefaciador

Primeiro. Não tenhas medo do livro que vais prefaciar. O medo paralisa e se ficares paralisado nunca conseguirás escrever uma linha sequer, quanto mais as sete ou oito páginas inúteis que o editor te encomendou, na esperança vã de que pudesses "trazer mais luz" a uma obra que não necessita da tua luz para nada.
Segundo. Faz esboços, estrutura ideias, contextualiza, descontextualiza, corta e cola, inventa abordagens, cria bifurcações, opta mesmo quando tens dúvidas, não receies voltar à estaca zero, insiste e repete, insiste e repete, vai falhando melhor (como diria Beckett). Por cada dez linhas que conseguires, corta nove. Reescreve a que sobrar quantas vezes forem necessárias.
Terceiro. Nunca penses no leitor que te vai ler. O leitor que te vai ler é uma projecção nefasta, um fantasma, uma ameaça, é o juiz cruel que te olha de cima (jocoso), o inimigo que anseia pelos teus deslizes e te roga pragas.
Quarto. Não queiras que o teu prefácio seja um espelho (e muito menos uma miniatura). As sinopses, caso não tenhas reparado, são exercícios de síntese que não carecem de assinatura.
Quinto. Procura, através do texto, algo que se assemelhe a uma relação simbiótica com o teu objecto (já todos estamos fartos de parasitas). Se tiveres talento para tanto, dialoga com o livro, mas não o canibalizes.
Sexto. Faz citações sempre que for possível, lógico ou razoável. Se tudo o resto for um desastre, sabes que pelo menos essas palavras merecerão ser lidas.
Sétimo. Aposta no laconismo. Frases curtas, bem medidas, com efeito (algures entre o aforismo e o slogan). Se queres ver o teu nome na badana, esse panteão do elogio, não há outro caminho.
Oitavo. Lembra-te bem disto: o prefácio é algo que está entre o leitor e a obra propriamente dita. Se for muito denso, faz sombra. Se for muito opaco, eclipsa. Se for muito transparente, é como o vidro de uma montra. Em qualquer dos casos, adias o contacto, atrasas o que está para acontecer. E isso implica uma responsabilidade. Dito de outro modo: se não fores interessante, tenta pelo menos ser breve. Se não tiveres nada de fundamental para dizer, sai da frente. Não atrapalhes.
Nono. Evita criar para os outros regras que não consigas cumprir tu mesmo.
Décimo. Se te ocorrer fixar um decálogo, fica-te pelos dez mandamentos. Augusto Monterroso foi até aos 12, mas Augusto Monterroso era Augusto Monterroso e tu és tu.

Sobre o autor

a) Nasceu a 21 de Dezembro de 1921, em Tegucigalpa, nas Honduras; morreu a 8 de Fevereiro de 2003, na Cidade do México (biografia elementar). b) Foi sucessivamente hondurenho, guatemalteco e mexicano (costumava dizer que tinha «múltipla nacionalidade»), mas acima de tudo centro-americano, irmão de sangue dos homens que já viviam no continente antes da chegada de Colombo. c) Autodidacta por vontade própria, largou os estudos oficiais aos 11 anos, para se dedicar à leitura. d) Aos 16, começou a trabalhar num talho, enquanto à noite estudava os clássicos espanhóis, particularmente Cervantes, que foi sempre a sua estrela polar no mundo da literatura. e) Em vários períodos da sua vida, lutou contra as ditaduras militares, muitas delas ao serviço das ingerências «imperialistas» dos norte-americanos. f) Manteve-se ortodoxamente marxista e fiel a Fidel até ao fim, apesar da queda do Muro e do seu profundo cepticismo em relação à natureza humana. g) Casou três vezes, teve duas filhas e uma vida pacata, sem grandes sobressaltos. h) Embora fosse tímido, tornou-se amigo de alguns dos mais importantes escritores latino-americanos do século XX (como Juan Rulfo, Gabriel García Márquez, Álvaro Mutis ou Juan José Arreola). i) Muitos estudiosos atribuem-lhe o papel de pioneiro na criação e difusão de um novo género literário: o microconto ou minificção, através do qual são narradas histórias tão concisas que podem caber numa só frase. j) A sua obra mais conhecida – O dinossáurio – consta de apenas sete palavras: “Quando acordou, o dinossáurio ainda estava ali.” (sete palavras sobre as quais já se escreveram muitos milhares de palavras e fizeram dezenas de tentativas de exegese). l) Além da brevidade, Monterroso cultivou sempre a lentidão: o seu primeiro livro, a que chamou Obras Completas (y outros cuentos), título radicalmente irónico, foi publicado em 1959, quando o autor contava 37 anos; o segundo, La oveja negra y demás fábulas, só saiu dez anos mais tarde, em 1969. m) Sempre gostou de incluir animais nos seus textos, da fauna clássica da selva ao mais minúsculo dos insectos; por exemplo, a abrir o livro Movimento Perpétuo (1972) colocou a frase: “Há três temas: o amor, a morte e as moscas.” n) Mais do que uma figura de estilo, encarava a elipse como um instrumento de trabalho. o) Imune aos ritos, cobardias e venenos dos meios literários, fazia questão de se pôr sempre em causa, antes de pôr em causa os outros. p) O humor, para ele, não era uma escolha mas uma evidência e poucos exploraram tão subtilmente a totalidade do seu espectro, da ironia ao sarcasmo. q) Além de Cervantes, a sua família literária mais próxima era composta por Montaigne, Jonathan Swift, Franz Kafka e Jorge Luis Borges. r) Isaac Asimov, autor de ficção científica, deixou um dia o aviso: “Os pequenos textos de Augusto Monterroso, aparentemente inofensivos, mordem se deles nos aproximarmos sem a devida cautela, deixam cicatrizes e precisamente por isso valem a pena.” s) Nas tertúlias que frequentava, tinha o hábito de criar palíndromos (o mais famoso deu título a um conto: Onís es asesino). t) Não publicou mais do que um volume das suas memórias (Los buscadores de oro, 1998), relato que termina no fim da infância, ao cumprir 15 anos, talvez devido à sua desconfiança em relação ao género autobiográfico: “O meu interesse pelas genealogias é nulo. Por linhagem inglesa directa, todos descendemos de Darwin.” u) Recebeu várias distinções literárias importantes, como o Prémio Juan Rulfo (1996) ou o Prémio Príncipe das Astúrias das Letras (2000), mas merecia mais, muito mais (no mínimo, o Cervantes; e talvez o Nobel). v) Saúl Yurkievich escreveu que Monterroso “é o café expresso da prosa literária”, um elogio certeiro se pensarmos que o próprio se sentia um Balzac (compulsivo consumidor de cafeína) sempre que terminava uma linha. x) É redundante recordá-lo, mas aqui fica: a verdade sobre Monterroso, como sobre qualquer ser humano, não cabe em 23 tópicos alinhados seguindo as letras do alfabeto português. z) Os amigos, carinhosamente, chamavam-lhe Tito.

Sobre a personagem (Eduardo Torres)

Houve quem afirmasse que Eduardo Torres, figura ambígua de escritor provinciano e centro geométrico em torno do qual se constrói o romance que o leitor se prepara para ler, é um alter ego de Augusto Monterroso. Não conheço melhor evidência de que não podemos, nem devemos, acreditar em tudo o que nos dizem.

Sobre O resto é silêncio

Lista de coisas que se podem encontrar neste romance (o único escrito por Augusto Monterroso e publicado pela primeira vez em 1978):
- uma biografia imaginária, urdida com rara inteligência e enorme sentido lúdico, estilhaçando com notório gozo as fronteiras clássicas entre géneros literários.
- uma personagem poliédrica (Eduardo Torres), cujas várias facetas vamos conhecendo através dos relatos pormenorizados de familiares (o irmão, a mulher) ou de pessoas que lhe são próximas (o secretário particular, o criado de quarto), numa acumulação de pontos de vista que faz lembrar a forma como Orson Welles retratou essa outra personagem poliédrica que era Charles Foster Kane; com a diferença de que a Eduardo Torres falta, digamos assim, um Rosebud que feche simbolicamente a sua história fragmentada.
- uma obra dentro da obra; isto é, a obra literária completa de Eduardo Torres (os seus ensaios, conferências, aforismos, apotegmas e textos dispersos), dentro da estrutura ficcional do romance de Monterroso.
- um corpo vasto de elementos paratextuais (o epitáfio logo a abrir, um depoimento gravado, ilustrações, poemas visuais, artigos de revista, um índice de nomes, listas bibliográficas e de abreviaturas) que fazem deste livro um exemplo paradigmático de literatura pós-moderna, sem dúvida, mas consciente das armadilhas e limites da pós-modernidade.
- uma homenagem complexa e subtil ao primeiro grande romance digno desse nome, escrito por Miguel de Cervantes (aliás, explicitamente convocado várias vezes). Embora a epígrafe do livro seja shakespeariana, quem quiser compreender O resto é silêncio, tem que começar por compreender Dom Quixote, sobretudo nas questões relativas à autoria.
- last but not least, encontramos nesta obra o exemplo mais perfeito da arte narrativa de um autor que fez da linguagem campo de batalha e da concisão um desígnio. Autor discretíssimo, ainda à espera, hoje, que lhe façamos justiça.

Ponto final

É um círculo de tinta, depois da última palavra, sinal gráfico “imposto por algo mais forte do que eu, algo que respeito e que odeio”, como escreveu Monterroso noutro livro. Ou então é o buraco negro para onde o texto converge, antes de desaparecer na memória cruelmente selectiva de quem lê. Eduardo Torres teve direito ao seu, um ponto final metafórico, oportunidade para ajustar contas e baralhar a percepção do que antes se narra. Ao meu, pelo contrário, literal e concreto, já o vejo aproximar-se, ali na extremidade da próxima frase. Está no fim do caminho que leva à saída do labirinto.

novembro 11, 2007

OUTONO

outono.jpg

novembro 10, 2007

TELEFONEMA A MEIO DA TARDE

Do outro lado, dizem-me que o Armando Rafael morreu. O Armando que eu via todas as manhãs, a duas mesas de distância, no bulício da redacção. O Armando dos gestos largos, dos desabafos certeiros, da ironia sempre pronta a disparar, do "então, pá" com uma pancada nas costas. O Armando que fumava muito e que analisava os jogos do Sporting como se fossem alta ciência. O Armando com estofo de jornalista à antiga, do tempo em que a palavra camaradagem nem precisava de ser dita. O Armando que parecia imortal, como todos nós (os que ficamos).
Ao telefone, dizem-me que o Armando Rafael morreu. Coisa tão estúpida. E, como das outras vezes, nem sei o que responder.

novembro 09, 2007

LANÇAMENTO

Logo à noite (21h30), na Casa Fernando Pessoa, o João Villalobos apresenta o seu primeiro livro de poemas: As Mulheres Bonitas Não Viajam de Autocarro (edição da Arbusto). A sessão foi preparada com mil cuidados: haverá queijadas e empaduças "criadas pelos génios e gémeos Malato das Queijadas de Oeiras", vinho da Quinta do Couquinho e até um momento musical assegurado por Tiago Bettencourt, ex-vocalista dos Toranja. Só espero não ser, com a minha "apresentação curta, descontraída e sincera" (para usar os termos do caderno de encargos que o João me entregou), a nódoa que põe em causa a harmonia do melhor pano.

A DOMESTICAÇÃO DOS MEDOS

– Pai, eu gosto muito de lobos, sabes.
– A sério? Gostas mesmo?
– Gosto, pai. Muito, muito, muito. [Beija imagem de um lobo no livro infantil.]
– E para além dos lobos, de que é que gostas mais?
– Hmmmmm... de bruxas.

novembro 08, 2007

III FÓRUM FANTÁSTICO

Começa hoje (como já tinha explicado aqui).

novembro 07, 2007

90 ANOS

A Revolução subiu as escadarias certas mas no Palácio de Inverno errado.

TIME ON(LINE)

Depois de chegar às bancas, a Time Out lisboeta chega à internet.

CHAVE DE LEITURA

O poema que transcrevi no post anterior é uma excelente chave de leitura para a obra, já razoavelmente extensa, de Manuel de Freitas. Está lá quase tudo: a visão desiludida da poesia (assente numa estética da descrença e na assumida falta de aura), o niilismo melancólico (com mais resignação do que revolta), a fé na redenção pelo amor e no poder indestrutível da amizade (que nem uma errata consegue corrigir), a ironia desprendida e o gosto pelo paradoxo. Conhecendo os outros livros de MF, a ideia da taberna como "salvação" e "perdição" surge-nos como uma evidência. Falta a referência à música, aos charros e a um certo desencanto geracional, falta a nostalgia de lugares que já não são como foram, mas talvez o autor não tenha querido fazer deste poema um exercício de excessiva transparência.

OUTRO POEMA DE MANUEL DE FREITAS

ERRATA

Onde se lê Deus deve ler-se morte.
Onde se lê poesia deve ler-se nada.
Onde se lê literatura deve ler-se o quê?
Onde se lê eu deve ler-se morte.

Onde se lê amor deve ler-se Inês.
Onde se lê gato deve ler-se Barnabé.
Onde se lê amizade deve ler-se amizade.

Onde se lê taberna deve ler-se salvação.
Onde se lê taberna deve ler-se perdição.
Onde se lê mundo deve ler-se tirem-me daqui.

Onde se lê Manuel de Freitas deve ser
com certeza um sítio muito triste.

[in Terra Sem Coroa, edição Teatro de Vila Real, 2007]

NUNCA PENSEI ESCREVER ISTO

Estou a gostar muito de um romance do C. S. Lewis.

novembro 06, 2007

DA MINORIA MÍNIMA

«(...) Foi assim que me habituei à mínima minoria. Nos filmes somos quatro. Na livraria os livros estão sempre na prateleira de baixo, ou não há em stock, ou têm que mandar vir de Campo de Ourique. Nos colóquios a única desconhecida está na sala por engano e levanta-se incomodada com o barulho. Na exposição só depois da inauguração. Se nos reunimos, não temos o quórum exigido por lei. Os filmes têm sempre a estrela pálida da comiseração, quando passam na TV é a desoras . Não sou leitor fiel de nenhum jornal. Os melhores concertos têm sempre lugares vagos na plateia. Vivo em casa arrendada. O clube da minha vaga simpatia milita nos distritais. O meu telefone está sob escuta.»

Como te compreendo, Luís.

RETRATO DE CALOUSTE GULBENKIAN

retrato.jpg

Esboçado num brinquedo manhoso made in China por Alice Ferra Silva (n. 2005), grande admiradora do mecenas arménio, sobretudo por causa dos jardins da respectiva Fundação.

UM POEMA DE MANUEL DE FREITAS

BENILDE, SENTADA

Benilde, nessa tarde, tinha dores
e estava viva, se me desculparem
o truísmo. Abandonara o balcão,
por uma vez, sentando-se perto
destes versos. Eu tinha apenas febre,
um cansaço de tudo e de mim também.

Anoitece, de facto, cada vez mais cedo.
À falta de clientes, as sombras do jardim
irrompem pela taberna, contornam
devagar o oratório do
Grupo Excursionista
Os Gosmas. Pergunto-me se algum deles
estará ainda suficientemente vivo, se
o pequeno comboio os levou ou não
até ao fim da dor, agora iluminado.

Mas não me respondas, poema.
Deixa-te ficar ao lado de Benilde, sentada
e tranquila nesta tarde de Novembro.

A noite não precisa de palavras.

[in Terra Sem Coroa, edição Teatro de Vila Real, 2007]

UMA BISAVÓ MODERNA

O vício de blogar não tem idade. «Volto a repetir às idosas... Não durmam! Peguem na Internet!», diz María Amelia López, galega de 95 anos, de esquerda mas sem filiação, favorita a ganhar um prémio BOB pelo seu blogue, ditado todos os dias ao neto (porque os olhos e os dedos já não lhe permitem chegar-se ao teclado).

novembro 05, 2007

PASSAGEM DE TESTEMUNHO

kodak.jpg

A máquina digital antiga fotografada pela nova.

GONCOURT

Depois da habitual almoçarada no Drouant e da reunião à porta fechada no andar de cima do restaurante, os dez membros do júri da Académie Goncourt (de que fazem parte Michel Tournier, Jorge Semprun e Bernard Pivot) anunciaram hoje o vencedor do principal prémio literário francês: Gilles Leroy, que receberá um cheque simbólico de dez euros pelo romance Alabama Song (Mercure de France) e a certeza de vendas na ordem das várias centenas de milhares.
Os restantes finalistas eram: Olivier Adam, por A l'abri de rien (L'Olivier); Philippe Claudel, por Le rapport de Brodeck (Stock); Michèle Lesbre, por Le canapé rouge (S. Wespieser); e Clara Dupont-Monod, por La passion selon Juette (Grasset).
Nenhum destes romances está traduzido para português e desconfio que apenas o vencedor e o de Philippe Claudel (com dois livros no catálogo da Asa) acabarão editados por cá. Eis o sintoma mais claro do declínio da influência francófona em Portugal. Por contraste, lembro que metade dos seis finalistas do Booker Prize deste ano, o maior prémio para as literaturas de língua inglesa, excluindo os EUA, estavam já publicados pela Gradiva (Na Praia de Chesil, de Ian McEwan), Estampa (Mr. Pip, de Lloyd Jones) e Civilização (O Fundamentalista Relutante, de Mohsin Hamid) quando o vencedor foi anunciado, a meio do mês de Outubro.

UM TINTORETTO EM SINGEVERGA

Quem diria?

ENCHER O CORPO COM QUALQUER COISA

A última página do Jornal de Letras costuma trazer a autobiografia breve de um escritor ou artista. Três ou quatro fotos em várias idades, uma breve ficha que resume o percurso profissional e um texto escrito na primeira pessoa, muitas vezes fastidioso ou solene ou simplesmente desajeitado (com raras excepções, ninguém é o melhor biógrafo de si mesmo).
Para ser honesto, nem sempre me embrenho na densa mancha gráfica da rubrica. Mas desta vez li. Refiro-me à edição n.º 965, relativa à quinzena 26 de Setembro-9 de Outubro. O autor era João Fiadeiro, coreógrafio e fundador da companhia Re.Al. Depois de descrever com delicadeza a sua infância no exílio, do nascimento em Paris à passagem por Argel, a caminho do Brasil, de onde a mãe regressaria a Lisboa, em 1972, para ser presa e levada para Caxias, depois da narrativa de um percurso singular mas com pontos de contacto com muitos outros, Fiadeiro fecha a sua história de vida com estes dois parágrafos avassaladores:

«O "real" caiu-me em cima no dia 17 de Abril de 1975. A minha mãe deu um jantar lá em casa para uns amigos próximos. Alguns dos convidados já tinham chegado e eu e a minha irmã estávamos super ansiosos pela chegada da minha mãe [Maria Antónia Fiadeiro], que vinha do jornal O Século, onde era chefe de redacção da revista Mulher, Modas e Bordados. Pelas nove horas tocam à porta. Abrimos o trinco e vamos para o patamar que dá para o elevador. É um prédio dos anos 50, com uma protecção de grades à volta do poço do elevador que não chega ao tecto. Perfeita para nos empoleirarmos no corrimão, apoiarmo-nos na grade e olharmos lá para baixo para ver se o elevador está a chegar. Fizemos esta brincadeira muitas vezes antes deste dia. Penso que a ideia era pregar-lhe um susto à saída do elevador porque ela sempre se assustava e nós riamo-nos sempre muito com os seus sustos. E ela também. Afinal o que gostávamos era de a fazer rir. Era só.
O elevador normalmente vinha de baixo, com a minha mãe lá dentro. Mas desta vez o elevador estava no último andar e quando nos debruçámos para olhara para baixo, para ver se ainda faltava muito tempo, o elevador tinha acabado de ser chamado pela minha mãe. A partir daqui as coisas ganham uma velocidade própria e as imagens aparecem-me por flashes. Lembro-me de não saber o que fazer (nunca saberei o que fazer com esse "não saber o que fazer"). Lembro-me de ir até à sala dizer aos convidados que a minha irmã estava presa no elevador. "A minha irmã está presa no elevador", disse eu. Lembro-me de um longo silêncio seguindo de muita agitação. Lembro-me de alguém me agarrar e abraçar-me (quem seria?). Lembro-me da televisão ligada e de pensar como é que era possível a vida continuar lá fora enquanto a minha tinha parado. A minha irmã já não chegou com vida ao hospital. Eu tinha 9, quase 10 anos. Ela 8, quase 9. Depois desse dia fiquei vazio. Esvaziado. Ou desaparecia (e só não o fiz porque não sabia) ou enchia este corpo com qualquer coisa. E foi o que fiz. Enchi-o comigo mesmo.»

Li o texto há mais de um mês mas ainda sinto o nó na garganta.

PROFISSÃO SAZONAL: PENDURAR ESTRELAS

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novembro 04, 2007

UM POEMA DE JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

A REGRA DO JOGO

Adivinham-se tempos difíceis:
a obsessão apoderou-se das tribos;
uma vírgula pode ser um crime,
a ameaça esconde-se numa frase incompleta.
Os jornais encheram-se de notícias peregrinas,
os editoriais ponderam. Murmura-se
nas fileiras, a especulação prospera.
Com um salário que é como mau tecido,
depois da primeira lavagem, o funcionário público
poupa na fruta, no tabaco, no queijo. Amanhã,
de comboio, a História enfrentará o seu destino,
ou, pelo menos, uma cópia que levará tempo
(medido em lustros) a rasurar.

[in Nada tão importante, que não possa ser dito, Assírio & Alvim, 2007]

REVISTAS ONLINE

Já estão disponíveis o número 7 da Obscena e o número 8 da Minguante. Da arte em grande às prosas pequenas.

COISAS QUE NÃO SE ENCONTRAM NO YOUTUBE

A minha filha a cantar o refrão de uma das Heróicas de Fernando Lopes-Graça:

Vozes ao alto!
Vozes ao alto!
Unidos como os dedos da mão.
havemos de chegar ao fim da estrada,
ao sol desta canção.

O vídeo existe mas é uma maravilha privada, íntima, só para nós.

novembro 03, 2007

COISAS QUE SE ENCONTRAM NO YOUTUBE

O videoclip de Arnold Layne, uma canção dos Pink Floyd que está entre as minhas preferidas. A música é uma pequena maravilha, 100% psicadélica e 100% Syd Barrett. O teledisco também não lhe fica atrás. E sempre simpatizei com o tal Arnold Layne. Quem tem como "strange hobby" a nobre actividade de "collecting clouds", só pode ser boa pessoa.

OUVIDO NO METRO

«O que é isso de homens a beijarem homens e mulheres a beijarem mulheres? Se fosse para ser assim, Deus teria criado dois Adões e duas Evas. Mas não criou, pois não?»

ÂNGULO RECTO

A editora (e distribuidora) 90º já tem um site todo catita. Bravo, Valérie. Bravo, Susana.

novembro 02, 2007

COMO UMA BOLA DE BASEBOL A BEIJAR A LUVA

Há coincidências que me deixam completamente arrepiado.
Por exemplo, hoje li este conto de Bruce Holland Rogers (incluído no volume Pequenos Mistérios, editado pela Livros de Areia, com tradução de Luís Rodrigues):

A história de Avery

Continuo sem nada saber a seu respeito. Encontrava-me do outro lado da rua, junto ao cruzamento, à espera do autocarro. Ela vinha carregada com caixas embrulhadas em papel verde e enfeitadas com fitas de vermelho e prata. Mas não devo ter reparado nos embrulhos. Tenho a certeza que não. Por essa altura, não. Mal reparei nela a princípio.
A uns trinta metros do cruzamento, deu uma corrida para atravessar a estrada. O condutor deve ter tentado passar o amarelo. Devia ter sido capaz de a ver a tempo.
Percebi o que estava para acontecer antes dela. No instante em que se deu conta, vi-o nos seus olhos. De certo modo, a nossa distância desapareceu. Vi-lhe a cara com toda a clareza. Não deve ter demorado um segundo. Primeiro, reconheceu o perigo, e por instantes pensou que se afastaria com um salto, mas as pernas traíram-na e no momento que se seguiu os olhos – eram uns olhos cinzentos – no momento que se seguiu os olhos encheram-se de resignação e ela desviou o olhar um pouco para lá do carro, na minha direcção. Os pneus chiaram naquele vagaroso meio segundo, e o seu olhar alcançou-me a tempo de dizer por favor, após o que respondi sim e, pouco antes de ela passar desta solidão para outra, nenhum de nós se sentiu só.
O som – pude ouvi-lo por cima do chiar de pneus – foi inocente, como uma bola de basebol a beijar a luva. Os presentes de Natal rolaram sobre o pára-brisas.
Podia ter ido ter com o condutor enquanto este se ajoelhava a seu lado com as mãos na cabeça. Mas o pobre diabo era muito complicado. Nunca lhe poderia dar o que dei a ela.

Cinco minutos depois, deparei com esta notícia.

PRECIOSA MINIATURA

O Livro de Agustina, Agustina Bessa-Luís, Guerra & Paz, 112 páginas.

A reedição desta preciosa miniatura autobiográfica, publicada em 2002 pela editora Três Sinais e agora resgatada pela Guerra e Paz, teve como pretexto os 85 anos da autora de A Sibila, cumpridos no passado dia 15. A efeméride, porém, é justamente aquilo que devemos omitir, porque a Agustina que assina o texto está acima de quaisquer contingências cronológicas e escreve-nos de um lugar – se assim se pode dizer – sem idade. Ou em que as etapas de uma existência se cruzam e equivalem (o que no fundo vai dar ao mesmo).
Nas pouco mais de cem páginas do livrinho, amplamente ilustradas por imagens do seu álbum familiar, a escritora traça a “história que a memória abreviou”. Uma história pessoal mas narrada com pinças, cheia de elipses, digressões, saltos no tempo e recato quanto ao “íntimo das nossas vidas”, essa matéria que assusta “por passarmos todas as portas sem pensar que elas se fecham para sempre atrás de nós”.
Não estando tudo, está aqui o essencial: antepassados que parecem personagens dos seus romances; o pai viajante e viciado no jogo; a mãe entregue à “disciplina das emoções”; as professoras que a marcaram; a génese da escritora que desejou ser desde muito nova. E as paisagens. O Douro, a Póvoa, Coimbra, o mar de Esposende, o Porto a que regressa várias vezes. E as muitas casas. Os livros. O círculo de amigos (quase todos literatos).
Urdindo o labirinto de Agustina, temos depois a sua prosa aforística, maravilhosamente cinzelada, bela como nenhuma outra na literatura portuguesa contemporânea.

[Publicado na edição desta semana da revista Time Out]

CTRL Z

O que seria de nós sem o undo?

novembro 01, 2007

VARIANTE (OU MALABARISMOS SEXUAIS INDUZIDOS NUM TÍTULO)

Em Portugal, o filme Peindre ou Faire l'Amour, de Arnaud e Jean-Marie Larrieu, foi traduzido à letra: Pintar ou Fazer Amor. Mas houve alguém nos cinemas King que complicou um pouco mais a coisa, digamos assim.

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[via umblogsobrekleist]

PÁGINA 161, QUINTA FRASE

Queria agradecer publicamente ao Vasco por três coisas:

1) ter-se lembrado de mim quando chegou a hora de passar a corrente do meme da moda (quem ainda não recebeu um convite para dizer qual a quinta-frase-da-página-161-do-livro-que-tem-mais-à-mão é como se não existisse na blogosfera portuguesa)

2) aquele final de frase que é uma espécie de oxímoro onomástico: «(...) Pedro Santana Lopes e Zé Mário Silva»

3) a oportunidade de apreciar o fair play de Miguel Sousa Tavares, ao responder com duas palavras e (resignadas) reticências ao teor da minha crítica

O ponto 3) carece de explicação. Como já devem ter percebido, o livro que tinha junto a mim no momento em que li o post do Vasco era (ainda) o Rio das Flores. Procurei a quinta frase da página 161. E a quinta frase é: «– De facto...»

Passo a corrente ao Luís Januário, maradona (em casa nova), JPP (não custa tentar), Tiago Cavaco e Bruno Sena Martins, se acaso tiverem paciência.

A TRAGÉDIA DO RIO DAS FLORES

Rio das Flores, Miguel Sousa Tavares, Oficina do Livro, 627 páginas.

Com o seu imenso caudal de palavras a estender-se por mais de 600 páginas (literalmente um roman-fleuve, mas dos que transbordam antes da foz), Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares (MST), é um romance falhado.
Falhado porquê? Porque sendo assumidamente um romance histórico, na linha do super-bestseller Equador (300 mil exemplares vendidos só em Portugal, desde 2003), tem romance a mais e História a menos. O que MST quis fazer foi um “dois-em-um”: a saga familiar que atravessa três gerações no mesmo espaço mitificado (a Herdade de Valmonte, perto de Estremoz), com os seus rituais e segredos, provas de amor e desastres afectivos, tendo como pano de fundo a turbulência de Portugal e do mundo, num período que vai de 1915 (em plena “desordem” da I República) até 1945 (quando o Estado Novo já criou raízes que haviam de resistir durante mais três décadas). Acontece que a saga familiar ganha desde logo um excessivo ascendente e obnubila por completo o retrato maior de um tempo: essa convulsiva primeira metade do século XX, que assistiu ao nascimento (tanto na Europa como no Brasil) de regimes autoritários que viriam a precipitar o mundo na catástrofe. A questão da liberdade, perdida e procurada tanto a nível pessoal como colectivo, é um dos temas fundamentais do romance, mas à medida que se avança na narrativa cresce a sensação de que MST o desperdiça, por não resistir ao apelo da faceta mais sentimental da sua história.
O problema não está sequer na articulação entre os dois principais planos narrativos – o das personagens (família Ribera Flores) e o da História –, conseguida aqui e ali brilhantemente por MST, não só porque se mostra capaz de alternar com suavidade entre a esfera privada e a pública, passando do geral ao particular e vice-versa com uma espécie de zoom, mas também porque domina com mestria as técnicas narrativas (das longas descrições aos diálogos, passando por subtis mudanças de registo). Se há fórmulas para captar o interesse do leitor, MST conhece-as todas. E as mais das vezes aplica-as com elegância, embora também aconteça recorrer a clichés estafadíssimos do tipo “quem nunca sofreu por amor nunca aprenderá a amar”.
Em suma, o que o livro tem de melhor são as passagens que nos aproximam da atmosfera de uma época. O duelo entre os toureiros Joselito “El Gallo” e Juan Belmonte, na Real Maestranza de Sevilha. A conspiração republicana de 1927 para derrubar o recentíssimo Estado Novo. O perfil de António de Oliveira Salazar e sua entourage (António Ferro, Duarte Pacheco), enquanto montavam a teia num país condenado a “viver habitualmente”. A viagem inaugural do dirigível Hindenburg sobre o Atlântico, da Alemanha ao Rio de Janeiro. O terrível mergulho na Guerra Civil de Espanha, no meio da lama, sob uma chuva de obuses, face a face com a morte. Os detalhes da revolta do comunista Luís Carlos Prestes no Brasil governado por Getúlio Vargas. Sobre estes temas há páginas memoráveis, algumas de antologia.
O pior é o resto. Ou seja, a saga familiar propriamente dita. MST fascinou-se com o cenário rural da Herdade de Valmonte e fez dele o centro de gravidade do romance, por muito que as suas personagens deambulem por Lisboa ou mais além. Tudo parte dessa casa familiar onde coabitam Maria da Glória, a matriarca que governa a família desde a morte do marido, e os seus dois filhos: Diogo e Pedro, unidos no amor sem limites por aquela terra fértil e próspera, mas separados pelas respectivas visões do mundo. Diogo, apesar do modus vivendi burguês, sempre instalado em bons hotéis e a molhar charutos no brandy, não se conforma com a asfixia salazarista e a falta de horizontes. Pedro, mais parecido com o pai, só se interessa pelas alfaias e pela caça, agradecendo o regresso à ordem depois do caos republicano, aderindo à União Nacional e chegando ao ponto de combater em Espanha, ao lado dos franquistas.
Até aqui tudo bem. As diferenças políticas e de carácter entre os dois irmãos são um eixo narrativo interessante. Mas MST começa a patinar quando vai centrando cada vez mais a sua atenção nos dilemas amorosos de Diogo (sobretudo) mas também de Pedro, apostando em várias cenas de sexo que oscilam entre o frouxo e o ridículo, bem como num psicologismo banal, e com uma carga significativa de marialvismo bacoco, que reduz todas as figuras, mas essencialmente as femininas, a caricaturas.
Resta a questão do tamanho. As mais de seiscentas páginas são um exagero e, muitas vezes, um tormento. Mão amiga devia ter sugerido cortes nas cenas inúteis, nas repetições escusadas (por exemplo, o repisar detalhadíssimo das tarefas agrícolas) e nos derrames emocionais das personagens. É que com menos duzentas ou trezentas páginas, Rio das Flores podia ter dado um bom romance histórico sobre uma época raramente abordada pela ficção portuguesa. Assim, é apenas uma oportunidade perdida e um objecto pesadão, que faz lembrar o gigantismo do zeppelin em que Diogo viaja para o seu Brasil sonhado, mas sem a respectiva leveza de movimentos.

[Publicado, numa versão ligeiramente mais curta, na revista Time Out desta semana]