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COISAS QUE SÃO TUDO MENOS BONITAS

História do Feio, direcção de Umberto Eco, trad. António Maia da Rocha, Difel, 454 páginas.

O que é a beleza? E o feio, como defini-lo sem ser por oposição? A resposta a estas perguntas pode parecer simples, quase óbvia, mas não é. Aliás, nunca foi. Se ninguém hesita em colocar a Vénus de Botticelli claramente de um lado e os concorrentes dos reality shows da TVI do outro, há casos em que se torna mais difícil traçar uma linha de demarcação. Com o tempo – séculos, décadas, às vezes nem isso – os gostos oscilam. O que era deslumbrante pode tornar-se horrível e vice-versa. Ou como exclamam as bruxas de Macbeth: “O belo é feio e o feio é belo…”
Umberto Eco, insigne professor de Semiótica, além de ensaísta consagrado e romancista bestseller, quis investigar esta dialéctica que atravessa todas as formas de expressão artística, da antiguidade clássica até ao século XXI. Depois de ter organizado, em 2003, um volume sobre a História da Beleza, com vendas superiores a meio milhão de exemplares em 27 países, dirigiu uma igualmente bem ilustrada História do Feio, que a Difel acaba de enviar para as livrarias (apenas duas semanas após o lançamento da versão original pela editora Bompiani).
Os leitores que se fascinaram com o fôlego erudito e a leveza lúdica do primeiro volume devem, contudo, moderar as expectativas quanto ao segundo. É que estamos a falar de realidades com escalas muito diferentes: se se podem encher bibliotecas inteiras só com os trabalhos sobre a beleza escritos ao longo dos séculos, já a Estética do Feio, assinada pelo alemão Karl Rosenkrantz, primeiro texto que confere à fealdade uma “autonomia” teórica e um tratamento fenomenológico, surgiu apenas em 1853.
Esta rarefacção implica uma abordagem muito menos variada do que em História da Beleza, livro que acompanhava a evolução dos critérios estéticos com uma série de envios para outras disciplinas – da Matemática à Arquitectura, passando pela Filosofia (Kant, Hegel) –, além de se desdobrar em caminhos paralelos, que iam da representação da nudez ao engenho das máquinas renascentistas ou à harmonia dos jardins ingleses. Aqui, pelo contrário, o foco é mais apertado, essencialmente porque até ao século XVIII a fealdade foi vista apenas como um modo de negação, o fundo negro que permite realçar a luz, um “inferno do belo” que reflectia sempre uma qualquer degenerescência moral, mesmo quando se tratava da representação artística do feio formal e não do feio em si mesmo, para usar as duas categorias de que Eco parte.
Numa abordagem cronológica com alguns saltos mal explicados, passamos dos horrores da mitologia greco-romana (harpias, górgonas e deuses que devoram os filhos) para a figuração extrema do sofrimento de Cristo (configurando nalguns casos uma “erótica da dor” que se prolonga, por exemplo, nos retratos de São Sebastião) e para uma extensa galeria de mártires, monstros, terrores medievais, apocalipses, infernos, demónios e aberrações anatómicas. A partir do século XVIII, assistimos ao “resgate” do conceito de feio por parte do romantismo (enquanto forma de aproximação ao Sublime), bem como ao uso que dele se fez para perturbar as ordens estabelecidas, fosse através da atracção pelo abismo da poesia decadentista, fosse pela vontade de romper com os cânones estéticos burgueses manifestada pelas vanguardas do século XX (modernismo, Dadá, surrealismo). Há ainda espaço para uma abordagem ao camp, ao kitsch e ao actual relativismo estético.
Acontece que História do Feio, embora se apresente como uma obra exaustiva e abrangente, acaba por ser bastante superficial e previsível, além de se cingir inexplicavelmente à cultura ocidental, esquecendo (como História da Beleza esquecia) os tesouros artísticos do Oriente e do mundo islâmico. As ilustrações são fabulosas, bem escolhidas e bem impressas, mas falta uma articulação com o texto principal que as contextualize. Quanto ao estilo, parece o de um livro escolar banal e só a espaços temos raros vislumbres da erudição sofisticada que esperaríamos de Eco (talvez porque il professore, dando o nome e a bênção ao projecto, deixou o essencial da escrita para terceiros).
Nota final para a má tradução de António Maia da Rocha, que nem a pressa justifica ou minimiza. Do princípio ao fim, o texto está cravejado de erros, lapsos e gralhas indesculpáveis, mais ainda num livro supostamente de referência e em edição de luxo (com preço a condizer).

[Texto publicado na edição desta semana da revista Time Out Lisboa]

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