THE DREAM BEFORE CHRISTMAS

É a Sony Alpha DSLR-A100. E já cá canta.
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« setembro 2007 | Main | novembro 2007 »

É a Sony Alpha DSLR-A100. E já cá canta.
Tem calma, pá. Não deixei de ser sensato. O post não quis ser mais do que uma pequena provocaçãozita ao MST. Toda a gente sabe que a primeira frase de um romance é fundamental e a abertura dos Cem Anos de Solidão costuma ser dada como exemplo. Em Rio das Flores, MST não copia García Márquez; limita-se a arrancar a narrativa com o mesmo truque (o de ficarmos em pulgas para saber que gelo era aquele, ou que tourada, capaz de marcar para a vida a memória que um filho guarda do seu pai).
Quanto ao título, quis que fosse irónico mas pelos vistos levaram-no a sério. A minha ideia era sublinhar que os dois romances ficam de facto separados à nascença. Ou seja, podem andar no mesmo comprimento de onda enquanto dura a primeira frase mas depois não há qualquer semelhança entre eles. O de Gabo é genial, o de MST é um flop. E o que num é assombro e realismo mágico, no outro é tédio e realismo trágico.

La Radiolina, de Manu Chao. Mais guitarras, menos samples, a mesma desbunda empolgante (desta vez com um rasto de melancolia).
Leiam com atenção estes poemas:
Não há como vê-lo
nesta noite sem luar –
estou deitada e desperta,
os seios ardendo em desejo
e o coração em chamas.
***
Pescador não deixa
a baía plena de algas...
Vais abandonar
este corpo flutuante
à espera das tuas mãos?
***
Triste a pecadora que
longe, na Baía Suma,
perdeu um remo do barco –
assim é este meu corpo
sem ter a quem recorrer.
***
Pensei ter colhido
a flor do esquecimento
só para mim mesma;
mas encontrei-a a crescer
também no coração dele.
Única pista: foram escritos por uma mulher. Mas em que século? Aceitam-se apostas.
A solução será revelada amanhã ao fim da tarde, nos comentários deste post.
Assemelha-se muito a uma mudança de carro. De início, acontece ter que pensar onde é que fica afinal a buzina ou como se ligam (em caso de necessidade) os quatro piscas.
Eis uma aproximação, em zoom, ao último trabalho de João Pedro Vale:



O Voyeur Project View, espaço alternativo situado na R. de Timor (Anjos), mostra exposições individuais que podem ser vistas 24 horas por dia, através de um buraco na porta de uma garagem.
A permanência de João Pedro Vale termina hoje.
«Parecer “politicamente correcto” é uma preocupação constante. Mas uma opinião “politicamente incorrecta”, por boçal ou cretina que seja, não deve satisfazer-se com a liberdade de expressão. Deve ainda ser aplaudida e classificada de corajosa. O primeiro a reclamar a bandeira do “politicamente incorrecto” ganha o direito a não ser criticado nem ter de defender o que disse. É o passaporte para o disparate com impunidade.»
Rui Tavares (texto completo aqui)
Na Avenida da Liberdade, uma sexagenária montou banca com pins, crachás e coisas do género. No meio da quinquilharia, reparo em três distintivos da PIDE/DGS. Pergunto pelo preço: 12 euros. "Eles custam 15, mas a si faço-lhe desconto." A mim faz-me desconto. Deve pensar que sou amigo do Mário Machado. E sorri muito, a sexagenária. Como se aquilo fosse normal. Três distintivos da PIDE à venda na Avenida da Liberdade. Na Avenida da Liberdade, repito.
Primeira frase do romance Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez:
«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que o seu pai o levou para conhecer o gelo.»
Primeira frase do romance Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares (Oficina do Livro, segunda-feira nas livrarias):
«Diogo Ascêncio Cortes Ribera Flores – conforme constava do seu registo de baptismo – tinha quinze anos de idade quando o pai o levou pela primeira vez a ver uma tourada.»

História do Feio, direcção de Umberto Eco, trad. António Maia da Rocha, Difel, 454 páginas.
O que é a beleza? E o feio, como defini-lo sem ser por oposição? A resposta a estas perguntas pode parecer simples, quase óbvia, mas não é. Aliás, nunca foi. Se ninguém hesita em colocar a Vénus de Botticelli claramente de um lado e os concorrentes dos reality shows da TVI do outro, há casos em que se torna mais difícil traçar uma linha de demarcação. Com o tempo – séculos, décadas, às vezes nem isso – os gostos oscilam. O que era deslumbrante pode tornar-se horrível e vice-versa. Ou como exclamam as bruxas de Macbeth: “O belo é feio e o feio é belo…”
Umberto Eco, insigne professor de Semiótica, além de ensaísta consagrado e romancista bestseller, quis investigar esta dialéctica que atravessa todas as formas de expressão artística, da antiguidade clássica até ao século XXI. Depois de ter organizado, em 2003, um volume sobre a História da Beleza, com vendas superiores a meio milhão de exemplares em 27 países, dirigiu uma igualmente bem ilustrada História do Feio, que a Difel acaba de enviar para as livrarias (apenas duas semanas após o lançamento da versão original pela editora Bompiani).
Os leitores que se fascinaram com o fôlego erudito e a leveza lúdica do primeiro volume devem, contudo, moderar as expectativas quanto ao segundo. É que estamos a falar de realidades com escalas muito diferentes: se se podem encher bibliotecas inteiras só com os trabalhos sobre a beleza escritos ao longo dos séculos, já a Estética do Feio, assinada pelo alemão Karl Rosenkrantz, primeiro texto que confere à fealdade uma “autonomia” teórica e um tratamento fenomenológico, surgiu apenas em 1853.
Esta rarefacção implica uma abordagem muito menos variada do que em História da Beleza, livro que acompanhava a evolução dos critérios estéticos com uma série de envios para outras disciplinas – da Matemática à Arquitectura, passando pela Filosofia (Kant, Hegel) –, além de se desdobrar em caminhos paralelos, que iam da representação da nudez ao engenho das máquinas renascentistas ou à harmonia dos jardins ingleses. Aqui, pelo contrário, o foco é mais apertado, essencialmente porque até ao século XVIII a fealdade foi vista apenas como um modo de negação, o fundo negro que permite realçar a luz, um “inferno do belo” que reflectia sempre uma qualquer degenerescência moral, mesmo quando se tratava da representação artística do feio formal e não do feio em si mesmo, para usar as duas categorias de que Eco parte.
Numa abordagem cronológica com alguns saltos mal explicados, passamos dos horrores da mitologia greco-romana (harpias, górgonas e deuses que devoram os filhos) para a figuração extrema do sofrimento de Cristo (configurando nalguns casos uma “erótica da dor” que se prolonga, por exemplo, nos retratos de São Sebastião) e para uma extensa galeria de mártires, monstros, terrores medievais, apocalipses, infernos, demónios e aberrações anatómicas. A partir do século XVIII, assistimos ao “resgate” do conceito de feio por parte do romantismo (enquanto forma de aproximação ao Sublime), bem como ao uso que dele se fez para perturbar as ordens estabelecidas, fosse através da atracção pelo abismo da poesia decadentista, fosse pela vontade de romper com os cânones estéticos burgueses manifestada pelas vanguardas do século XX (modernismo, Dadá, surrealismo). Há ainda espaço para uma abordagem ao camp, ao kitsch e ao actual relativismo estético.
Acontece que História do Feio, embora se apresente como uma obra exaustiva e abrangente, acaba por ser bastante superficial e previsível, além de se cingir inexplicavelmente à cultura ocidental, esquecendo (como História da Beleza esquecia) os tesouros artísticos do Oriente e do mundo islâmico. As ilustrações são fabulosas, bem escolhidas e bem impressas, mas falta uma articulação com o texto principal que as contextualize. Quanto ao estilo, parece o de um livro escolar banal e só a espaços temos raros vislumbres da erudição sofisticada que esperaríamos de Eco (talvez porque il professore, dando o nome e a bênção ao projecto, deixou o essencial da escrita para terceiros).
Nota final para a má tradução de António Maia da Rocha, que nem a pressa justifica ou minimiza. Do princípio ao fim, o texto está cravejado de erros, lapsos e gralhas indesculpáveis, mais ainda num livro supostamente de referência e em edição de luxo (com preço a condizer).
[Texto publicado na edição desta semana da revista Time Out Lisboa]

Amanhã, pelas 19h00, no British Council de Lisboa (R. de São Marçal, perto da antiga Escola Politécnica), apresentarei o escritor galês Rhys Hughes e o seu último volume de ficção, A Sereira de Curitiba, editado exclusivamente em português (sim, sim, leram bem: exclusivamente em português), pela Livros de Areia. O teor da apresentação está, como se costuma dizer, no segredo dos deuses. E como eles pelos vistos têm os telemóveis desligados (ainda por cima sem voicemail) nada posso adiantar por enquanto. Mas é mais do que certo que os exercícios borgesianos de Rhys, recolhidos em Uma Nova História Universal da Infâmia, também virão à baila.
Considerem-se convidados.
Almada, El Prat de Llobregat (Catalunha), Queijas, Winston Salem (Carolina do Norte, EUA), Montijo, Xangai (China), Queluz.
Não falta latitude aos leitores d' A Invenção de Morel.
A voz de Georges Perec (não fazia ideia de que era assim). A forma serena como explica a génese do romance Les Choses.
O Pedro Mexia e o Pedro Lomba congeminam um novo blogue político e eu só dou pela coisa uma semana depois. Vergonha. Nos tempos áureos de 2003 não era assim. Não era não.
«[Vasco Pulido Valente] só conhece dois países no mundo: Oxford e o Gambrinus.»
Miguel Sousa Tavares em entrevista à revista Única, do semanário Expresso, edição de hoje
Dezenas de filmes (como é que se diz?) imperdíveis. Se pudesse, montava a tenda à porta e fazia campismo até dia 28.
Muitos anos mais tarde, explicou aos pais que as birras que fazia em pequenina afinal não eram birras, mas performances (arrojadas, abstractas, pós-modernas; e por isso tão incompreendidas).
Como se não fosse nada, o arrumador aponta para um lugar com parquímetro, descaradamente à espera da moedinha.
A verdadeira arte abre sempre fendas.
Foi mesmo ao Gonçalo M. Tavares que eles deram o cheque de cem mil reais, pelo "livro negro" Jerusalém, editado no Brasil em 2006 (Companhia das Letras).
Toda a gente a pensar nos favoritos Ian McEwan e Lloyd Jones (cujos romances já estão traduzidos em Portugal) e eles vão dar o prémio à irlandesa Anne Enright, em quem ninguém apostava e que ainda não pode ser lida em português.
I've just been kidnapped by myself. If you don't give me 10.000 dollars, you'll never see me again.
Muito engraçada, a t-shirt. O rapaz que a vestia desceu as escadas da estação de metro de Arroios, a correr. E de facto nunca mais o vi.
Chabal, há uns meses, conseguindo aquilo que esteve a uma unha negra de fazer sábado à noite: um ensaio de raiva (e ainda por cima vitorioso) contra a Inglaterra, a poucos minutos do fim. Desta vez, os defesas de branco foram mais fortes e o inacreditável Wilkinson fez o resto. Dommage, tant pis. Daqui a quatro anos há mais.
Jornalista, 35 anos, vasta experiência em edição. Disponível para trabalhos free lance (reportagens, entrevistas, recensões, rubricas fixas). Também traduz e revê textos literários. Disponível para viajar, dá prioridade a convites irrecusáveis. Recebe propostas em cartasmorel@gmail.com.

Benjem V, colagem sobre cartolina (2007)
Das duas, uma: ou as leis do râguebi são alteradas, ou alguém tem que declarar inconstitucionais os pés de Johnny Wilkinson.
Apareceram brilhando (uns mais do que outros, está bom de ver) 13 textos de 13 bloggers sobre Fátima, mais um epílogo do homem que teve a ideia peregrina (não me ocorre adjectivo mais certeiro) e até fez uma espécie de flyer à maneira para promover a coisa.
Eis o flyer, versão internética:

E eis o meu contributo para o projecto-instalação-happening-ou-o-que-lhe-queiram-chamar:
COVA DA IRIA (E EU FUI)
Sim, sei do que falo, não é por ouvir dizer. Eu estive lá, em Fátima, no Santuário, num 13 de Maio, com os peregrinos todos à volta e as velinhas acesas como um mar de chamas a fazer lembrar, perdoai-me ó crentes, mais um reflexo do inferno do que a via para a salvação das almas (seja isso o que for). Eu estive lá e vi isso a que muitos chamam as “manifestações da fé”. Joelhos rasgados, lágrimas, mulheres de negro a arrastarem-se pelo chão em nome de uma promessa. E vi camponeses com terra por baixo das unhas, pasmados com a grandeza do Santuário. Velhos a aliviarem as dores dos pés cheios de bolhas, mergulhando-os em alguidares de plástico com um palmo de água. Ouvi rezas murmuradas pela multidão, cantilenas esganiçadíssimas (“Avé, Avé, Avé Mariiiiiiiiiiiiiiiia”), a voz pastosa dos bispos, um holocausto de cera a derreter junto à capela onde Nossa Senhora espera em forma de estatueta pela lentidão ritual das procissões. Estive no meio daquilo tudo, como quem olha de fora para uma coisa que não compreende, à espera de compreender. No meio daquelas pessoas que fizeram centenas de quilómetros a pé só para estar diante do “altar do mundo”, pedindo à Virgem milagres cuja mera formulação desrespeita quem na verdade os tornou possíveis (os médicos, por exemplo; mas tantas vezes o acaso), no meio daquelas pessoas tentei descer da minha condição de ateu assumido, laico até à medula e com acessos frequentes de anti-clericalismo, para me aproximar de linguagens que me são estranhas. Juro que tentei. Mas não consegui. Porquê? Nem vale a pena explicar. Vocês sabem. Fátima é um embuste, uma alucinação de miúdos impressionáveis que a Igreja aproveitou para circunscrever, à distância, o perigo vermelho que começava a emanar da velha Rússia. Tudo o resto é esperteza saloia (os três segredos), crendice de raízes pagãs e retórica reaccionária urdida pelo lado mais obscuro da hierarquia católica. Terceiro-mundista, anacrónica, parola, com as suas lojas de pechisbeque e néon, atafulhadas de Cristos em holograma e Nossas Senhoras que mudam de cor com a humidade, Fátima continua a atrair magotes de gente? É verdade. Como há magotes de gente a estupidificar-se ao domingo nos centros comerciais e a dar maiorias absolutas a Alberto João Jardim. Eu estive em Fátima, num 13 de Maio, por entre as velas. E onde tantos encontram serenidade e conforto, só descobri, em todo o seu esplendor (isto é, em toda a sua miséria), o Portugal que me desilude e agride a cada passo. Para muitos, Fátima é a luz. Para mim, continua a ser um calafrio.

O fim de um ciclo é só o início do seguinte.
Hoje, para os livreiros, Lessing is more.
Doris Lessing sai do táxi, um repórter diz-lhe que ganhou o Nobel, exclama "Oooh, Christ!" e pousa o saco das compras. Uma delícia.
[Gosto particularmente da curva descendente daquele "Oooh, Christ!"]
Acontece isto.
E a resposta à pergunta repetida no post anterior é:

Doris Lessing, "that epicist of the female experience, who with scepticism, fire and visionary power has subjected a divided civilisation to scrutiny".
Quem será? Quem será? Quem será? Mas quem diabo será (depois destes todos)?
Elegante, útil e funcional, eis o site da magnífica editora Tinta da China.
A claque do Livorno, que costuma ocupar a curva norte do estádio, canta em uníssono Bella Ciao, para os tiffosi neo-fascistas da Lázio não se esquecerem de que a extrema-esquerda também gosta de futebol.
Durante cinco dias, o epicentro dos futuros terramotos editoriais fica aqui.
«A vida e o mundo, como visão de um homem qualquer: vivemos sobre pedras e barro, entre madeiras com folhas verdes, devorando fragmentos do universo que nos inclui, entre fogueiras, entre fluidos, combinando ressonâncias, protegendo o passado e o porvir, dolorosos, térmicos, rituais, sonhando que sonhamos, irritados, cheirando, tacteando, entre pessoas, num insaciável jardim que a nossa queda abolirá.
Visão da física: uma opaca, uma interminável extensão de protões e de electrões, irradiando no vazio; ou, talvez (fantasma de universo), o conjunto de irradiações de uma matéria que não existe.
Como numa criptografia, nas diferenças dos movimentos atómicos, o homem interpreta: ali o sabor de uma gota de água do mar, ali o vento nas escuras casuarinas, ali uma aspereza no metal polido, ali a fragrância do trevo na hecatombe do Verão, aqui o teu rosto. Se houvesse uma mudança nos movimentos dos átomos, aquele lírio seria, talvez, o golpe de água que derruba a represa, ou uma manada de girafas, ou a glória do entardecer. Uma mudança no ajuste dos meus sentidos faria, talvez, das quatro paredes desta cela a sombra da macieira do primeiro pomar.»
[in Plano de Evasão, de Adolfo Bioy Casares, trad. de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu, Cavalo de Ferro, 2007]
ANTES:

Le Pont d'Argenteuil, de Claude Monet (1874)
DEPOIS:

O mesmo quadro com um rasgão de dez centímetros, junto a um dos pilares da ponte (assinalado por uma elipse vermelha)
A história do acto de vandalismo, aqui.
Recursos Desumanos
Querem um exemplo de vergonhosa gestão do nosso património artístico? Então olhem para o que se passa com o Salão Nobre do Conservatório Nacional (ali ao Bairro Alto). Quando me deu para estudar canto durante um ano naquele vetusto edifício, no começo da década de 90, já a bela sala com tectos pintados pelo Malhoa estava em condições deploráveis. De então para cá, foi sempre a piorar. As cadeiras transformaram-se em armadilhas de madeira quebradiça e pó. Um dos balcões laterais teve que ser escorado com uns horríveis varões de ferro. Surgiram buracos no tecto. Enfim, a decadência triste das coisas abandonadas instalou-se ali, sob a ameaça de ruína iminente. Como se tudo isto não bastasse, as obras de urgência adjudicadas num concurso público em 2005 (com registo no Diário da República) foram canceladas sem explicações.
É um retrato do nosso país? É. Mas enquanto a bela sala não desaparece numa nuvem de estuque e negligência, vale a pena assinar esta petição, a ver se alguém acaba por ter um pouco que seja de vergonha na cara.
Desculpem o entusiasmo, mas não resisti. Hoje a forma deste blogue só podia ser oval.
Vejam só o que disse, desconsolado, Anton Oliver, um dos dois actuais all blacks sobreviventes da anterior débâcle com os franceses (meias-finais, 1999):
«The feeling in the sheds was like no man's land. Sort of desolate, decayed, the smell of – I don't want to dramatise it – but death, you know. But that is what it feels like, no man's land, and it is not a nice place to be.»
Os All Blacks jogarem de cinzento é um bocado como o Benfica cor-de-rosa: uma coisa murcha, deslavada, sem alma. Em ambos os casos, os resultados estão à vista.
Foi em Cardiff (apesar deste campeonato do mundo ser organizado pela França). Foi against all odds (a Nova Zelândia era para lá de favorita, depois de passar como um rolo compressor, na primeria fase, sobre a Escócia, Itália e Portugal). Foi enervante (uma primeira parte dos bleus para esquecer, só bolas perdidas, tiros aos postes falhados e os neo-zelandeses a honrarem a bravura do jogo à mão). Foi galvanizante (os dois ensaios arrancados a ferros pelos franceses: de raiva o primeiro, belíssimo o segundo). Foi angustiante (dez minutos finais de tortura física e mental, com a defesa azul a resistir a vagas de ataques devastadores, umas atrás das outras). E foi uma alegria desmedida (o resultado final, 20-18, a mostrar que os all blacks são humanos e falíveis, quando do outro lado uma equipa se transcende).
Agora venha a Inglaterra, ao bom velho estilo do Torneio das Cinco (agora Seis) Nações.
Daqui a nada, a França enfrenta os all blacks nos quartos-de-final do Campeonato do Mundo de râguebi, em Cardiff. E o meu desejo é ver uma obra-prima (ou várias) como esta de há 13 anos, exemplo perfeito do chamado french flair.
Dito de outra maneira, allez les bleus! Até à final no Stade de France.
RUA DIÁRIO DE NOTÍCIAS
Mal se consegue passar
com tanta música.
Estamos aqui, portanto,
com um fim preciso.
Parecemos generais
em cima de cavalos.
Eis o campo de batalha
onde a derrota nos espera:
esquinas de perder
até ao último bocejo
e pessoas a ouvir
a sua própria história
nas canções.
A música, não o tempo,
cicatriza certas feridas.
[in Bagagem de Mão, & Etc, 2007]
O escritor uruguaio Mario Benedetti, 87 anos, está farto das homenagens que lhe fazem. Para cansaço, bastou-lhe o ter de apresentar a última obra (Vivir adrede) na Feira do Livro de Montevideu.

Vik Muniz, Medusa Marinara (1997)
Quando se desce a Conde de Redondo, há do lado direito um cabeleireiro que se chama (não me perguntem porquê) Swedenborg.
Foram anunciados hoje os prémios literários P.E.N. Clube 2007, referentes às obras editadas em 2006:
Poesia
Gastão Cruz, por A Moeda do Tempo (Assírio & Alvim)
Júri: Maria João Reynaud, Fernando J. B. Martinho e Manuel Simões
Ensaio
José Pedro Serra, por Pensar o Trágico (Fundação Calouste Gulbenkian)
Júri: Teresa Salema, Almeida Faria e Francisco Belard
Ficção
Mário Cláudio, por Camilo Broca (Dom Quixote)
Júri: Annabela Rita, Liberto Cruz e Vergílio Alberto Vieira
Primeira Obra
Catarina Nunes de Almeida, por Prefloração (Quasi)
Júri: A Direcção do P.E.N..
Tradução (prémio atribuído pelo P.E.N. e pela APT-Associação Portuguesa de Tradutores)
Aires A. Nascimento, por Utopia, de Thomas Morus (Fundação Calouste Gulbenkian)
Júri: Albano Martins, Annabela Rita e Casimiro de Brito
Um microfilme de Leonor Areal, apanhado aqui.
Gostava muito de ter ouvido, nas Ruínas do Convento do Carmo, este discurso do João Pacheco, um jornalista que ganhou o Prémio Gazeta Revelação 2006 mas não se limitou a receber o cheque, antes lembrando à audiência VIP que o escutava uma realidade oculta: a dos milhares de pessoas que vivem na incerteza dos recibos verdes e respectiva precariedade laboral (eu conheço o João: nunca duvidei da sua coragem, do seu desassombro). Gostava sobretudo de ter visto a expressão, se é que os seus músculos faciais se moveram, do agora Presidente da República Cavaco Silva, grande responsável enquanto primeiro-ministro por esta assustadora corda bamba em que demasiados profissionais vão tentando, a custo, manter o equilíbrio.
Toda a gente sabe que os jornais e revistas necessitam da publicidade como de pão para a boca. Com as receitas a fugirem para outros suportes (ou para os gratuitos) até as publicações de referência perdem o pudor e autorizam o impensável: anúncios por cima do cabeçalho, falsas primeiras páginas, inserts nos sítios mais abstrusos e toda a sorte de cedências ao "poder do dinheiro", que vergam o equilíbrio gráfico e obrigam a verdadeiros actos de contorcionismo editorial.
Mesmo tendo visto de tudo ao longo dos anos, nunca me deparei com nada tão deselegante e descabido (os americanos diriam inappropriate) como a capa do último número da Visão.
Ora apreciem lá:

A publicidade a um automóvel que alguém se lembrou de colar no espaço supostamente mais intocável de uma revista não se limita a pôr uma espécie de mordaça no escritor António Lobo Antunes e a destruir o retrato do fotógrafo José Carlos Carvalho. Isso já seria suficientemente mau. Mas há pior. O que aparece escrito naquele teaser manhoso é a frase «Tudo começou em Abril». Ora, a páginas 110, a jornalista Sara Belo Luís explica-nos que Lobo Antunes ficou a saber há sete meses que tem um cancro, o tema central da entrevista. Ou seja, para usar a formulação da Toyota, tudo começou em Março. E foi por um triz que não se deu uma coincidência de muitíssimo mau gosto.
Diz-se que Diógenes andava pelas ruas de Atenas com uma lamparina acesa, mesmo durante o dia, à procura de "um verdadeiro homem". Hoje somos ainda mais cínicos do que o cínico grego, que vivia na miséria, dentro de um barril, comendo cebolas e imitando os cães. Hoje sabemos bem demais que a própria ideia de "verdadeiro homem" é uma aberração, um oxímoro, mas mantemos as candeias acesas como se não soubéssemos.

Pdf aqui.