QUATRO POEMAS DE GUILLAUME APOLLINAIRE
ANNIE
Na costa do Texas
Há entre Mobile e Galveston
Um imenso jardim cheio de rosas
E no interior desse jardim uma villa
Que é uma grande rosa
Uma mulher passeia-se amiúde
Sozinha no jardim
E quando eu passo em frente na estrada bordada de tílias
Olhamo-nos longamente
Como esta mulher é menonita
As suas roseiras e os seus vestidos não têm um só botão
Faltam dois no meu casaco
É como se essa mulher e eu seguíssemos a
mesma religião
INSCRIÇÃO PARA A SEPULTURA DO PINTOR HENRI ROUSSEAU ADUANEIRO
Gentil Rousseau que nos escutas
Nós te saudamos
Delaunay a sua mulher o senhor Queval e eu
Deixa passar sem pagar direitos as nossas bagagens pelas portas do céu
Levar-te-emos pincéis tintas e telas
Para que os teus ócios sagrados ali na luz real
Os possas consagrar a pintar como quando fizeste o meu retrato
O rosto das estrelas
O VIGIA MELANCÓLICO
E tu meu coração porque bates tão forte
Como um vigia melancólico
Perscruto a noite e a morte
TIVE A CORAGEM DE OLHAR
Tive a coragem de olhar para trás
Os cadáveres dos meus dias
Assinalam o meu caminho e eu choro-os
Uns apodrecendo nas igrejas italianas
Ou entre os limoeiros
Que dão ao mesmo tempo e em qualquer estação
A flor e o fruto
Outros dias choraram antes de morrerem nas tabernas
Fustigados por ardentes ramos
Sob o olhar duma mulata que inventava a poesia
E as rosas da electricidade abrem-se ainda
Nos jardins da minha memória.
[in O Século das Nuvens, trad. Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, 2007]