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POÉTICA DOS PEQUENOS OBJECTOS QUOTIDIANOS

O Acidente, de Jorge Gomes Miranda, Assírio & Alvim, 34 páginas.

A partir do seu terceiro livro (Curtas-Metragens, Relógio d’Água, 2002), o poeta Jorge Gomes Miranda, que se estreou em 1995 com O Que Nos Protege (Pedra Formosa), aumentou de forma brutal o seu ritmo de publicação. Em cinco anos, deu à estampa nove títulos, com sete chancelas diferentes. Uma urgência discursiva a que tem correspondido uma cada vez mais notória concepção do livro enquanto unidade temática, urdida através de uma estrutura sólida.
Em O Acidente, esse princípio torna-se claro ao fim de meia dúzia de páginas: cada poema do livro é atribuído a um objecto de uso comum, que se transforma em sujeito poético e observador da vida de um homem marcado pela perda recente da sua mulher (no vago “acidente” do título). Criam-se assim dois planos que equivalem a duas linhas paralelas na consciência do leitor. Por um lado, uma espécie de exercício de estilo à maneira de Francis Ponge, em que a personalização dos objectos escapa às armadilhas retóricas do sentimentalismo e da facilidade expressiva. Por outro, uma história que se vai contando, peça a peça, indício a indício, como um puzzle de que nunca conseguimos fixar a imagem final.
Essa narrativa é a crónica difusa (ou desfocada) de uma ausência. No centro há um homem que ama a vida com “talento dissipador”, perdido no desconsolo de um mundo em que reina o “engano” e a “sombra”, mas procurando erguer-se das ruínas para cuidar de uma “criança” que é ao mesmo tempo herança e luz salvadora. O homem luta contra o vazio e esse combate é testemunhado, à vez, pelas coisas que o rodeiam: uma chávena, um bilhete de comboio, uma mala de viagem, um copo ou uma mola de roupa (de plástico, mas “com um coração inclinado à melancolia”).
São os objectos, simples, banais, que registam os seus gestos e memórias. São eles que assistem, nas manhãs que lembram crepúsculos, ao esforço para encontrar uma saída para a crise (insinuada nos poemas finais) e, na escrita, mais do que um “trespasse de cinzas”.
Jorge G. Miranda, ao conseguir tornar estas vozes plausíveis – com o seu lirismo volátil –, alcançou um feito digno de admiração e aplauso.

[Publicado no Diário de Notícias]

Comments

José Mário,
é realmente um excelente livro, servido por uma excelente ideia: uma (subtil?) trama narrativa que percorre as páginas do livro, onde a ironia e a referida personificação desempenham um importante papel discursivo. Conceptualmente, é um achado que merece ser saudado, principalmente depois de constatar quão bem funcionam os poemas (cf, "Mola da roupa", por exemplo). O que mais me espanta no Jorge Gomes Miranda é a sua capacidade de renovação e reinvenção, livro após livro, com uma consciência muito clara de quais podem ser os caminhos a rasgar pela poesia contemporânea.
Um abraço, João

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