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DOIS OBJECTOS POÉTICOS (OBJECTOS EM SENTIDO LITERAL)

BILHETE DE COMBOIO

De cartão duro, com o destino
e a hora de chegada bem vincados.
Imune aos enganos do computador,
às dedadas vigilantes do revisor,
meu destino será permanecer,
e um dia despertar, no meio de um livro.

Célere, percorremos a plataforma,
a rapidez do lince, o amor
a salvo da armadilha.

Vamos regressar aos campanários,
à eira, às descidas semanais
ao café para comprar o jornal.

Sei que nos primeiros meses
nada vai existir a não ser
o corpo dela
rodado, projectado
no écran da memória;

mas também sei que a vida
quase sempre se esconde
daqueles que a amam
com talento dissipador.


MOLA DE ROUPA

Conservei-me afastada do estendal
durante algum tempo.
Sofro de vertigens, por isso
intimidava-me olhar para baixo,
o pátio vazio, restos de flores secas.
Um prédio com dez andares
e ele tinha logo que viver no último,
tendo como horizonte o mar
de terraços e antenas parabólicas.

Quando, chegado com a roupa
da máquina de lavar,
pega em mim,
de suas mãos eu deslizo para o chão.
Apressado, em vez de me apanhar
imediatamente, escolhe outra;
no final, atira-me para o cesto
de verga.

Não é que seja particularmente ardilosa,
mas verdade seja dita, preferia ser
mola do rés-do-chão,
dessas que faça sol ou chuva
sempre prendem a roupa numa corda
estendida no pátio.

O destino quis-me feita de plástico,
com um coração inclinado à melancolia.
Tenho, no entanto, como divisa
antes quebrar que torcer.

Sonho com o dia em que nas mãos da criança
serei um comboio.

[in O Acidente, de Jorge Gomes Miranda, Assírio & Alvim, 2007]

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