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ANDAR PERDIDO

No princípio de Julho, o Joaquim Manuel Magalhães publicou, no suplemento Actual do Expresso, um daqueles seus ensaios que funcionam como contraponto (e acto de resistência) à lógica dominante na imprensa dos nossos dias, segundo a qual não há espaço para grandes manchas de texto ou exercícios teóricos "exigentes" para o leitor (essa flor de estufa que não "entra" em prosas que se dêem ao luxo de recorrer a uma linguagem "complexa"; isto é, uma linguagem que voe nem que seja dois palmos acima da banalidade, erigida cada vez mais em mínimo denominador comum do discurso mediático). Nesse sábado, JMM reflectia em tom irónico sobre a famosa expressão "regresso ao real", que o tem perseguido como um fantasma e alimentado toda a sorte de polémicas no diminuto universo da poesia contemporânea portuguesa. Mas não foi pela explicação sobre o que aquele "real" verdadeiramente significava que eu guardei as efémeras páginas, dobradas em quatro, dentro de um bolso qualquer. Foi por causa de uma frase. Esta:

«Por mim, se ando à procura de me cortar palavras, isso é apenas sinal de que não gosto do que publiquei e de que vejo a poesia como um modo de andar perdido» [sublinhado meu]

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