" /> A Invenção de Morel: setembro 2007 Archives

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setembro 30, 2007

FRACTAL COMO O DESTINO

É impressionante como na vida certas coisas se repetem, talvez noutra escala mas com os mesmos padrões e simetrias. Voltar à estaca zero, por exemplo.

setembro 29, 2007

PROVAR NUVENS

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Dupla página de Eu nunca na vida comerei tomate, colecção Charlie e Lola, texto e ilustrações de Lauren Childs, um dos livros preferidos da minha filha.

ETÉREOS PARÊNTESIS

Na "apresentação" das suas versões dos poemas de Apollinaire, Jorge Sousa Braga conclui desta forma: «Para o leitor penetrar nestes poemas, talvez a melhor maneira seja a de se misturar com os anjos (e contrabandistas) que continuam a desembarcar em Marselha, todas as manhãs.»
Eu até concordo com a frase, que por associação de ideias me leva ao rosto de Rimbaud a morrer numa cama de hospital. Mas, ao contrário do Jorge, para mim os contrabandistas viriam sempre à frente e era aos anjos que reservaria aqueles etéreos parêntesis.

setembro 28, 2007

COISAS QUE SE ENCONTRAM NO YOUTUBE

Devo ser o único português que ainda não elogiou o gesto de Pedro Santana Lopes, ao recusar o hara-kiri deontológico da SIC Notícias (o canal informativo que interrompeu uma entrevista política para fazer um directo absolutamente vazio de um acontecimento absolutamente vazio: a chegada de um treinador ao aeroporto da Portela, em viagem pessoal). Fica então o elogio. Santana Lopes, o demagogo, o desastre ambulante, o pior primeiro-ministro da história do Portugal democrático, pôs a nu o pântano mediático em que andamos mergulhados. Disse uma evidência («o país está louco») sem levantar a voz, foi sereno, educado, pedagógico. Numa altura em que tanto se fala de chapeladas no PSD, tiro o meu chapéu a este social-democrata que não de deixou humilhar pela estupidez da ilusória "vertigem da actualidade".

ANDAR PERDIDO

No princípio de Julho, o Joaquim Manuel Magalhães publicou, no suplemento Actual do Expresso, um daqueles seus ensaios que funcionam como contraponto (e acto de resistência) à lógica dominante na imprensa dos nossos dias, segundo a qual não há espaço para grandes manchas de texto ou exercícios teóricos "exigentes" para o leitor (essa flor de estufa que não "entra" em prosas que se dêem ao luxo de recorrer a uma linguagem "complexa"; isto é, uma linguagem que voe nem que seja dois palmos acima da banalidade, erigida cada vez mais em mínimo denominador comum do discurso mediático). Nesse sábado, JMM reflectia em tom irónico sobre a famosa expressão "regresso ao real", que o tem perseguido como um fantasma e alimentado toda a sorte de polémicas no diminuto universo da poesia contemporânea portuguesa. Mas não foi pela explicação sobre o que aquele "real" verdadeiramente significava que eu guardei as efémeras páginas, dobradas em quatro, dentro de um bolso qualquer. Foi por causa de uma frase. Esta:

«Por mim, se ando à procura de me cortar palavras, isso é apenas sinal de que não gosto do que publiquei e de que vejo a poesia como um modo de andar perdido» [sublinhado meu]

setembro 27, 2007

UMA BOA E UMA MÁ NOTÍCIA SOBRE QUEM AS FAZ (ÀS NOTÍCIAS)

Boa notícia: a Espanha já tem o seu Público (e ainda por cima promete ser de esquerda, a sério, como o El País já não é).

Má notícia: O fotógrafo japonês assassinado em Rangum, Birmânia (mais um na longa lista de jornalistas mortos no exercício da profissão).

OUVIDO NO CAFÉ

Ai ele tem insónias? Olha, é para o lado que eu durmo melhor.

setembro 26, 2007

TIME OUT

Já estávamos a precisar de uma coisa assim.

DEDO NA FERIDA

«Agora os conservadores são mais conservadores do que nos anos 80 e as pessoas de esquerda são menos de esquerda do que na época. O espaço público não tem defensores, vinga um capitalismo sem regras, devorador. A comunicação social está controlada. Só vozes isaladas proferem um discurso de tendência crítica.»

Almudena Grandes, em entrevista a Ana Marques Gastão, no Diário de Notícias

[A escritora fala de Espanha, claro, mas por cá é a mesma coisa]

CÉU

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Lisboa, hoje, 07h42

setembro 25, 2007

MANTRA

E as rosas da electricidade abrem-se ainda / Nos jardins da minha memória (repeat)

DO GENTIL ROUSSEAU

Henri Rousseau, Le Douanier, Joyeux Farceurs (1906)

É SÓ APROVEITAR

Querem um belo título para blogue? Então roubem-no ao Apollinaire: O vigia melancólico (ver post anterior). Eu próprio ficarei com ele, se chegar a minha vez de perscrutar "a noite e a morte".

QUATRO POEMAS DE GUILLAUME APOLLINAIRE

ANNIE

Na costa do Texas
Há entre Mobile e Galveston
Um imenso jardim cheio de rosas
E no interior desse jardim uma villa
Que é uma grande rosa

Uma mulher passeia-se amiúde
Sozinha no jardim
E quando eu passo em frente na estrada bordada de tílias
Olhamo-nos longamente

Como esta mulher é menonita
As suas roseiras e os seus vestidos não têm um só botão
Faltam dois no meu casaco
É como se essa mulher e eu seguíssemos a
mesma religião


INSCRIÇÃO PARA A SEPULTURA DO PINTOR HENRI ROUSSEAU ADUANEIRO

Gentil Rousseau que nos escutas
Nós te saudamos
Delaunay a sua mulher o senhor Queval e eu
Deixa passar sem pagar direitos as nossas bagagens pelas portas do céu
Levar-te-emos pincéis tintas e telas
Para que os teus ócios sagrados ali na luz real
Os possas consagrar a pintar como quando fizeste o meu retrato
O rosto das estrelas


O VIGIA MELANCÓLICO

E tu meu coração porque bates tão forte

Como um vigia melancólico
Perscruto a noite e a morte


TIVE A CORAGEM DE OLHAR

Tive a coragem de olhar para trás
Os cadáveres dos meus dias
Assinalam o meu caminho e eu choro-os
Uns apodrecendo nas igrejas italianas
Ou entre os limoeiros
Que dão ao mesmo tempo e em qualquer estação
A flor e o fruto
Outros dias choraram antes de morrerem nas tabernas
Fustigados por ardentes ramos
Sob o olhar duma mulata que inventava a poesia
E as rosas da electricidade abrem-se ainda
Nos jardins da minha memória.

[in O Século das Nuvens, trad. Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, 2007]

COISAS QUE SE ENCONTRAM NO YOUTUBE

John Cage a interpretar Water Walk ("because it contains water and because I walk during the performance") num programa televisivo, em 1960.
G-E-N-I-A-L.

setembro 24, 2007

ESTÚDIO ABERTO

António Jorge Gonçalves, que já nos oferecia uma brilhante galeria de retratos subterrâneos (no sentido literal da palavra), abriu agora outra porta: «Aqui encontram aquilo que fiz, aquilo que estou a fazer, e aquilo que talvez venha a fazer.»
Um privilégio.

O MELHOR HUMORISTA PORTUGUÊS

«Sendo o SOL o primeiro grande jornal nascido no século XXI (...)», escreveu o Arquitecto Saraiva na sua crónica umbiguista do costume.
E eu digo apenas: bye bye Ricardo Araújo Pereira.

[A boutade foi publicada no sábado e ainda estou para aqui a rir convulsivamente.]

A CAMINHO DAS LIVRARIAS

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Um belíssimo romance de Augusto Monterroso, o mestre dos micro-relatos, editado pela Oficina do Livro na colecção Ovelha Negra.

[Quanto ao tipo que rabiscou o prefácio, enfim, isso agora não interessa nada, cof cof cof, disfarcem, tenham a bondade de saltar as respectivas páginas, finjam que não o conhecem, etc.]

UMA PALAVRA ANTIGA E EM ITÁLICO FICA SEMPRE BEM

O verdadeiro intelectual é aquele que não fala apenas de pathos, ethos e logos, mas também da hubris.

setembro 23, 2007

ANIVERSÁRIO

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O Pedro fez hoje um ano. À tarde houve avós e bolo. De manhã, no oceanário, espantou-se com os peixes enormes e com aquele azul irreal, envolvente, intrauterino.

setembro 22, 2007

BARTLEBY

I would prefer not to. Muitas vezes, mais do que lema, um imperativo moral.

DAR A VOLTA

Clown, de Georg Baselitz (1981)

A SÍNDROME DE HEINE

Porque a brevidade exige tempo, os romancistas apressados esticam-se, esticam-se, esticam-se e no fim publicam tijolos de 500 páginas que ninguém, hélas, vai ter tempo para ler (cf. na livraria mais próxima).

setembro 21, 2007

AFINAL QUANTO É QUE JOSÉ MOURINHO VAI RECEBER DE INDEMNIZAÇÃO?

Passo os olhos pela imprensa e pasmo: o 24 Horas diz que o ex-treinador do Chelsea receberá no mínimo 17 milhões de euros, o Jornal de Notícias sugere que a fasquia começa nos 20, A Bola aposta num número preciso (24 milhões), o Público arredonda para 25, enquanto O Jogo garante que são 26, o Record puxa para 30, o Correio da Manhã garante que são 35 e o DN deixa no ar a hipótese de um cheque de 37 milhões (caso Mourinho não volte a treinar até 2010).
Em que é que ficamos? Toda a gente sabe que o jornalismo está muito longe de ser uma ciência exacta mas, caramba, há limites para a leviandade com que se abordam certos temas. Ou não há?

ANDARAM A CHATEAR O SALMAN RUSHDIE QUANDO ESTE TIPO É QUE MERECIA UMA FATWA

Mr. Paul Muldoon, aka the guy who stole the job I wanted.

DOIS ANOS DE ESTADO CIVIL (MAS ELE JÁ CÁ ANDA DESDE 2002)

Não é um blogger. É o blogger.

setembro 20, 2007

CAN I APPLY FOR THE JOB, PLEASE?

Caríssimos responsáveis da New Yorker,
O sr. Paul Muldoon parece-me uma excelente escolha para o vosso invejável lugar de editor de poesia. Partindo do princípio de que o sr. Muldoon não ficará no cargo 20 anos, como a sua predecessora (Alice Quinn), venho por este meio desde já candidatar-me a uma futura vaga.
É certo que nunca ganhei um Pulitzer, mas também não vivo no Alasca. E em acertando as coisas, posso perfeitamente mudar-me de armas e bagagens para um T2 em Brooklyn (ou Queens), embora evidentemente não diga que não a um loft na Times Square, mesmo a dois passos da sede.
Aqui deixo o meu contacto: cartasmorel@gmail.com. Just in case.

BLOGUES DE AREIA

Montag e Blade Runner. Ou de como há vida para lá da edição.

setembro 19, 2007

PROJECTO DE ROMANCE

Um homem assiste, de fora, ao fim do mundo.

A MINHA VIDA

M. C. Escher, Relatividade (1953)

setembro 18, 2007

LIMITE

Da estante, Cardoso Pires pergunta-me: E agora, José?

setembro 17, 2007

A/C RUI REININHO

Título possível para um álbum dos GNR: Circo Bipolar Catártico.

setembro 16, 2007

POÉTICA DOS PEQUENOS OBJECTOS QUOTIDIANOS

O Acidente, de Jorge Gomes Miranda, Assírio & Alvim, 34 páginas.

A partir do seu terceiro livro (Curtas-Metragens, Relógio d’Água, 2002), o poeta Jorge Gomes Miranda, que se estreou em 1995 com O Que Nos Protege (Pedra Formosa), aumentou de forma brutal o seu ritmo de publicação. Em cinco anos, deu à estampa nove títulos, com sete chancelas diferentes. Uma urgência discursiva a que tem correspondido uma cada vez mais notória concepção do livro enquanto unidade temática, urdida através de uma estrutura sólida.
Em O Acidente, esse princípio torna-se claro ao fim de meia dúzia de páginas: cada poema do livro é atribuído a um objecto de uso comum, que se transforma em sujeito poético e observador da vida de um homem marcado pela perda recente da sua mulher (no vago “acidente” do título). Criam-se assim dois planos que equivalem a duas linhas paralelas na consciência do leitor. Por um lado, uma espécie de exercício de estilo à maneira de Francis Ponge, em que a personalização dos objectos escapa às armadilhas retóricas do sentimentalismo e da facilidade expressiva. Por outro, uma história que se vai contando, peça a peça, indício a indício, como um puzzle de que nunca conseguimos fixar a imagem final.
Essa narrativa é a crónica difusa (ou desfocada) de uma ausência. No centro há um homem que ama a vida com “talento dissipador”, perdido no desconsolo de um mundo em que reina o “engano” e a “sombra”, mas procurando erguer-se das ruínas para cuidar de uma “criança” que é ao mesmo tempo herança e luz salvadora. O homem luta contra o vazio e esse combate é testemunhado, à vez, pelas coisas que o rodeiam: uma chávena, um bilhete de comboio, uma mala de viagem, um copo ou uma mola de roupa (de plástico, mas “com um coração inclinado à melancolia”).
São os objectos, simples, banais, que registam os seus gestos e memórias. São eles que assistem, nas manhãs que lembram crepúsculos, ao esforço para encontrar uma saída para a crise (insinuada nos poemas finais) e, na escrita, mais do que um “trespasse de cinzas”.
Jorge G. Miranda, ao conseguir tornar estas vozes plausíveis – com o seu lirismo volátil –, alcançou um feito digno de admiração e aplauso.

[Publicado no Diário de Notícias]

NEM TODOS OS MICROFILMES SERVEM PARA PRESERVAR O PASSADO

Alguns também tentam perceber para que lado fica o futuro.

setembro 15, 2007

DOIS OBJECTOS POÉTICOS (OBJECTOS EM SENTIDO LITERAL)

BILHETE DE COMBOIO

De cartão duro, com o destino
e a hora de chegada bem vincados.
Imune aos enganos do computador,
às dedadas vigilantes do revisor,
meu destino será permanecer,
e um dia despertar, no meio de um livro.

Célere, percorremos a plataforma,
a rapidez do lince, o amor
a salvo da armadilha.

Vamos regressar aos campanários,
à eira, às descidas semanais
ao café para comprar o jornal.

Sei que nos primeiros meses
nada vai existir a não ser
o corpo dela
rodado, projectado
no écran da memória;

mas também sei que a vida
quase sempre se esconde
daqueles que a amam
com talento dissipador.


MOLA DE ROUPA

Conservei-me afastada do estendal
durante algum tempo.
Sofro de vertigens, por isso
intimidava-me olhar para baixo,
o pátio vazio, restos de flores secas.
Um prédio com dez andares
e ele tinha logo que viver no último,
tendo como horizonte o mar
de terraços e antenas parabólicas.

Quando, chegado com a roupa
da máquina de lavar,
pega em mim,
de suas mãos eu deslizo para o chão.
Apressado, em vez de me apanhar
imediatamente, escolhe outra;
no final, atira-me para o cesto
de verga.

Não é que seja particularmente ardilosa,
mas verdade seja dita, preferia ser
mola do rés-do-chão,
dessas que faça sol ou chuva
sempre prendem a roupa numa corda
estendida no pátio.

O destino quis-me feita de plástico,
com um coração inclinado à melancolia.
Tenho, no entanto, como divisa
antes quebrar que torcer.

Sonho com o dia em que nas mãos da criança
serei um comboio.

[in O Acidente, de Jorge Gomes Miranda, Assírio & Alvim, 2007]

COISAS QUE SE ENCONTRAM NO YOUTUBE

O M-velope do Gmail através do mundo, numa montagem feita a partir das contribuições de 1100 utilizadores, de 65 países.

ASSUNTO DE IMPORTÂNCIA QUASE EXTREMA PARA O BEM E PARA O MAL DESTE PAÍS

Caríssimo Tiago Galvão,
Permite-me que sirva de pombo correio: tens aqui alguém que precisa desesperadamente (mas é mesmo desesperadamente) de comunicar contigo.
Escreve ao homem, pá.

setembro 14, 2007

31 X 31

São "16 figuras maiores da música atiradas à parede por um anónimo voluntarioso". Variações sobre a ideia de LP imaginário, capas de disco com medidas do tempo do vinil (31 por 31 centímetros), vislumbres de álbuns que nunca existiram mas podiam (e se calhar deviam) ter existido. O "anónimo voluntarioso" é nada mais nada menos do que o nosso virtuoso e industrioso Pedro Vieira. A exposição vai estar na loja da editora de jazz Trem Azul, na Rua do Alecrim 21A, até 31 de Outubro.
Ide, ide, que ele há coisas que não se podem perder.

FORMAÇÃO DESORDENADA

No fundo, no fundo, eu gostava era de ser jogador de râguebi. Daqueles esguios, estão a ver, mestres na arte da finta, muito velozes e imunes a qualquer placagem. Uma espécie de Serge Blanco, esse génio, mas ainda mais elegante. Punha-me a correr por ali fora, com quatro ou cinco matulões a quererem deitar-me abaixo (e falhando sempre por uma unha negra), para só pousar a bola oval, em triunfo, mesmo atrás dos postes.
Em vez disso, sou apenas escravo do que escrevo e vice-versa (um escriba escravo), com a agravante de não saber qual dos dois José Mários, o verdadeiro ou esse outro (com protector nos dentes), levaria mais porrada.

[É evidente que haveria, na suposta vida alternativa, o problema do nome: Silva ainda se aceita numa equipa de futebol (não faltam exemplos) mas para se pertencer aos Lobos é preciso mais pedigree. Lá teria que omitir uns apelidos, dar lustro a outros e passar a chamar-me José Pinto Deniz, que até nem soa mal e era logo meio caminho andado para chorar baba e ranho aos primeiros acordes do hino de Alfredo Keil.]

BOLHÃO (2)

bolhao4.jpg

O cartaz pimba, a Nossa Senhora e o Menino, o Anjo da Guarda, o Santo António, o relógio com ponteiros metalizados, a beldade sorridente em biquíni junto à balança, o Pai Natal de pendurar no retrovisor do automóvel. Não falta nada.

setembro 13, 2007

MINGUANTE N.º 7

Reflexos e reflexões.

DURANTE A TROVOADA

"Eu não tenho medo, papá, os pés é que têm." E tapou-os com o edredão.

DAS DEZ À MEIA-NOITE

O cansaço era tanto que já nem se sentia capaz de o medir.

setembro 12, 2007

PODERÃO OS LIVROS DESUMANIZAR-NOS?


O Silêncio dos Livros, de George Steiner, seguido de Esse Vício Ainda Impune, de Michel Crépu, trad. Margarida Sérvulo Correia, Gradiva, 71 páginas.

Professor emérito em Oxford, Cambridge e Harvard, além de colaborador habitual de publicações como o The Guardian, New Yorker ou Times Literary Supplement, George Steiner representa hoje, melhor do que ninguém, o papel do sábio que olha para o mundo do alto da sua erudição, oferecendo-nos magníficas sínteses e pertinentes avisos à navegação (mesmo quando estes anunciam, com demasiada frequência, um apocalipse cultural ao virar da esquina).
O Silêncio dos Livros, ensaio breve publicado originalmente na revista Esprit (número de Janeiro de 2005), retoma algumas das obsessões temáticas de Steiner, centradas no receio de que a ideia de Livro, sobre a qual se ergueu toda história cultural do Ocidente, possa estar seriamente ameaçada nestes tempos de incerteza civilizacional.
Essa ameaça, de resto, não é de agora. Os livros sempre foram vulneráveis e já continham "em germe", desde os primórdios, "a possibilidade ou a eventualidade de um fim". É sob o signo desta condição frágil que Steiner estrutura as suas reflexões, num tom que sendo didáctico nunca é professoral nem demasiado exaustivo nas citações e referências.
Depois de traçar as origens da escrita, esse pequeno "arquipélago" no oceano da tradição oral, Steiner relembra-nos que tanto Sócrates como Jesus de Nazaré – figuras fundadoras dos dois principais pólos do pensamento ocidental: Atenas e Jerusalém – preferiam o discurso falado ao escrito e nenhum deles deixou textos para a posteridade.
Apesar da sua obra vasta, Platão sistematizaria a crítica da escrita implícita no método socrático. Por um lado, a autoridade de um discurso que se torna normativo, logo um exercício do poder. Por outro, o facto da fixação em livro desvalorizar a importância da memória. "Um texto autoriza todas as formas de esquecimento", avisa Steiner.
De forma algo esquemática, o ensaísta identifica alguns "inimigos" com que o livro teve de se haver (mesmo durante a sua "idade de ouro"), do "bucolismo radical" aos niilistas russos. E salta algo intempestivamente para o cenário das fogueiras que consumiram bibliotecas durante o século XX e o fenómeno antiquíssimo da censura, esse silenciamento que funciona, de forma paradoxal, como acicate do génio literário.
A ideia mais desafiante do ensaio (complementado por um texto não menos desafiante de Michel Crépu) fica guardada para o fim. É quando Steiner coloca uma hipótese de natureza psicológica: a de que o convívio assíduo com os livros possa ser um factor de desumanização, que torna "mais difícil o empenhamento total relativamente às realidades circunstanciais" de um mundo onde o lugar da leitura se restringe cada vez mais, à falta do tempo e do silêncio de que esta necessita.

[Publicado no Diário de Notícias]

setembro 11, 2007

9/11

Seis anos depois, a cinza continua a cair.

setembro 10, 2007

BOLHÃO



Mercado do Bolhão, fim de Agosto 2007

setembro 09, 2007

O TRIUNFO DA MEDIOCRIDADE

«O que quer que faça com que uma grande literatura seja subversiva, que diga "não" à barbárie, à estupidez, àquela ética capitalista, degradada, do consumo massificado que desvaloriza o nosso trabalho e as nossas vidas, essa qualquer coisa brotou sempre, como reacção, do território da censura e da opressão. "Esmaguem-nos", dizia Joyce à censura católica, "que nós somos como as azeitonas". Ou, como sussurrava Borges: "A censura é a mãe da metáfora." Quando o aparelho de repressão cede aos valores veiculados pelos mass media ou ao matraquear da publicidade, como acontece hoje em dia na Europa ocidental, assistimos ao triunfo da mediocridade.»

[George Steiner, in O Silêncio dos Livros, trad. Margarida Sérvulo Correia, Gradiva, 2007]

setembro 08, 2007

SERRALVES

serralves.jpg

Jardim de Serralves, fim de Agosto de 2007

setembro 07, 2007

TRINTA E CINCO ANOS

«Como numa floresta imprevisível, depois da infância estás no mundo à caça de diferentes géneros de felicidade. Se fores demasiado eficaz e tiveres a pontaria afinada, em breve caçarás todos os géneros possíveis que existem na floresta. E depois nada ficará senão uma insuportável sensação de que, mesmo que deixes de estar perdido, o que encontrarás, ou que te encontrará, será ainda pior.
A partir de um dado momento, a alternativa é permaneceres perdido na floresta, a vaguear sem rumo, ou seres encontrado, finalmente, pela raivosa alcateia de lobos que há muito te fareja uma ferida.
»

[Gonçalo M. Tavares, in Breves Notas sobre o Medo, Relógio d'Água, 2007]

setembro 06, 2007

A MINHA MELHOR FOTOGRAFIA

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Alice na praia (Algarve), Julho de 2007

[Gosto muito da sombra a 90 graus, cortando as águas. O ombro direito cheio de luz. E a forma como a minha filha olha, de frente, para o oceano.]

NOITE

As antenas como patas de aranha sobre os telhados, entre as chaminés. Um grito algures (onde?). O rio tão negro como o céu quase sem estrelas. A persistência da sirene de ambulância, crescendo e decrescendo (Doppler explica). Golpes de vento. Silêncios inesperados. Luzes a piscar na outra margem. Sombras junto ao gradeamento. O cansaço que nos afasta do computador. O eterno néon vermelho da escola de condução, três ruas mais abaixo.

setembro 05, 2007

NUM CLIMA DE APARATO E DE SIGILO

francesca.jpg

Francesca Woodman, Autoretrato, Roma, 1977-78

DOIS POEMAS DE MARGARIDA VALE DE GATO

ÉMULOS

Foi como amor aquilo que fizemos
ou tacto tácito – os dois carentes
e sem manhã sujeitos ao presente;
foi logro aceite quando nos fodemos.

Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
o acto de abraçarmos? Foi candura
o termos juntos sexo com ternura
num clima de aparato e de sigilo.

Se virmos bem ninguém foi iludido
de que era a coisa em si – só o placebo
em certo excesso que acelera a líbido.

E eu, palavrosa, injusta desconcebo
o zelo de que nada fosse dito
e quanto quis tocar em estado líquido.


MULHER AO MAR

MAYDAY lanço, porque a guerra dura
e está vazio o vaso em que parti
e cede ao fundo onde a vaga fura,
suga a fissura, uma falta – não
um tarro de cortiça que vogasse;
especifico: é terracota e fractura,
e eu sou esparsa, e a liquidez maciça.
Tarde, sei, será, se vier socorro:
se transluz pouco ao escuro este sinal,
e a água não prevê qualquer escritura
se jazo aqui: rasura apenas, branda
a costura, fará a onda em ponto
lento um manto sobre o afogamento.

[in Sulscrito, revista de literatura, número 1, verão de 2007]

setembro 04, 2007

O POST 1000

É este.

setembro 03, 2007

FRANCESCA

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setembro 02, 2007

AINDA EDUARDO PRADO COELHO (3)

A memória é uma coisa danada. Pelo menos a minha. Então não é que me esqueci, neste post, de referir o dia em que o Eduardo demonstrou, para minha salvação, toda a sua proverbial gentileza e generosidade? Foi em 1999. Nessa altura, eu fazia parte da equipa de um programa que ia para o ar todos os dias da semana, na RTP2: o Portugalmente. Sem formato fixo, aqueles 25 minutos eram o que nós quiséssemos que eles fossem, com todo o risco e a liberdade que isso implica. Com poucos meios e quase nenhum tempo para colher imagens, éramos experimentalistas mais por necessidade logística do que por imposição programática. E assim nasceram momentos únicos na televisão portuguesa, sobretudo quando fomos deliberadamente anti-televisivos nas nossas abordagens. Mas o que eu quero evocar aqui é a tarde em que levei EPC ao Centro Cultural de Belém, para comentar a exposição retrospectiva de Francesca Woodman, essa fotógrafa excepcional que se auto-representou de uma forma torturada e se suicidou atirando-se de uma janela, em Nova Iorque, aos 22 anos. Quando chegámos às salas que hoje são ocupadas pelo Museu Berardo, EPC pensava que eu pretendia um depoimento sobre as imagens de Francesca. Quando lhe expliquei que a ideia era acompanhá-lo ao longo da exposição, sala a sala, cruzando close-ups das fotografias com o seu entusiasmo de espectador fascinado, disse logo que não tinha vocação para cicerone. No entanto, confrontado com a nossa urgência (os timings de montagem estavam apertadíssimos naquela semana) lá acabou por aceitar a nossa ideia maluca e fez a volta à mostra em tempo real, improvisando à medida que caminhava um discurso de uma coerência teórica simplesmente impecável.
Ignoro se gostou do resultado final e da música de György Kurtág que escolhi para os separadores, mas de uma coisa estou certo: pouquíssimas pessoas se prestariam a um tal exercício sem rede, de um risco absoluto para ele (mais ainda do que para nós).
Na altura, como é óbvio, agradeci-lhe muitíssimo a disponibilidade. Mas talvez não tenha agradecido o suficiente.

AINDA EDUARDO PRADO COELHO (2)

Os ecos da morte de EPC na imprensa portuguesa, que vou lendo com vários dias de atraso, não reflectem apenas a importância de um dos intelectuais mais activos e estimulantes das últimas décadas. A mim, parecem-me transportar, ao mesmo tempo, uma carga extra de melancolia. É como se se fizesse, com os elogios e testemunhos da praxe, não só a glorificação do divulgador cultural mas também o Requiem por um certo tipo de jornalismo (e de jornais) que parece, cada vez mais, condenado a desaparecer na voragem da tabloidização em curso.

AINDA EDUARDO PRADO COELHO (1)

Já não diremos, como dizíamos tantas vezes: "E sobre isto, o que é que o EPC vai escrever?"

setembro 01, 2007

LISBOSCÓPIO

Viagem mais ou menos atribulada através do labirinto de tubos da instalação Lisboscópio, criada por Amâncio (Pancho) Guedes e Ricardo Jacinto para a Bienal de Veneza de 2006. A obra esteve exposta nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian este verão, até 12 de Agosto. É uma visão da cidade em fragmentos, feita a partir de fotografias panorâmicas captadas no topo do Cristo Rei, em Almada. Os tubos transportam e amplificam sons emitidos a uns metros de distância por outros visitantes, como quem fala para o ar sem se aperceber que assim participa no burburinho constante da grande urbe.

EPC

A meio da minha ausência, um amigo telefonou-me a dizer que o Eduardo Prado Coelho morrera horas antes. Foi no sábado. Um calor brutal e os filhos mergulhados no sono frágil da sesta. Dali a pouco mais de 30 minutos, o maire da aldeia leria os artigos do Código Civil francês relativos ao casamento, com a faixa tricolor pousada em cima da mesa, a três passos do retrato sorridente do odioso président Sarkozy. Dali a pouco mais de 30 minutos, o meu irmão e a sua amada sairiam sob uma chuva de arroz (um dos poucos resquícios de formalidade nupcial a que não conseguiram escapar), belos e felizes e eufóricos.
Ao telefone, o meu amigo a dizer-me que depois explicaria melhor aquilo, o EPC morto assim de repente, eu a lembrar-me de o ver acinzentado, estranhamente emagrecido, à espera do transplante salvador, o transplante que veio, o transfigurou, o remoçou durante uns meses, afinal para nada, só para o coração o trair pouco depois.
Conheci mal o Eduardo, quase só por tangentes, conversas oblíquas em festas e encontros literários, pequenos acenos de cumplicidade. Ele gostava muito do suplemento DNA (e sobretudo das fotografias do Augusto Brázio) quando eu estava no DNA. Falávamos disso. Num meio cultural tão pequeno como o português, era impossível não tropeçar nele, no seu sorriso ao mesmo tempo malicioso e infantil, na força gravítica de um poder que era, ainda, o poder do intelectual que abarca várias áreas do saber, com noção perfeita da sua influência, capaz de exaltar (ou enfurecer) os leitores, levando-os a descobrir livros, filmes, artistas plásticos, teorias que de outra forma lhes passariam ao lado.
Junto à janela cheia de luz, calçando os sapatos para a festa, lembrei-me com extraordinária nitidez do seu rosto de papel, aquele desenho meio estilizado que encimou anos a fio a crónica do Público. Nos últimos anos, o seu rosto já não era assim (era muito mais magro), mas sempre que o lia eram aquelas barbas a meio caminho entre o Pai Natal e Karl Marx que via nas entrelinhas dos textos, miniaturas elegantes que tanto citavam Deleuze e a última descoberta bibliófila na livraria La Hune, como testemunhavam fúrias com telemóveis perdidos, impressoras avariadas e call centers kafkianos, toda a sorte de entusiasmos, maquinações e venenos, discursos redondos sobre revistas de design em papel couché ou odisseias de cidadão comum nos corredores de um hospital.
Junto à janela cheia de luz, num sábado à tarde, fiquei na fronteira entre a tristeza da morte que chega por telefone, a dois mil quilómetros de distância, e o rumor imaginário da festa que ainda não aconteceu mas já estende as suas raízes. Hesitei um momento, em frente ao espelho. E então as crianças acordaram.