O BOTÃO E O COSMOS
Miguel Torga [de que hoje se comemora o centenário do nascimento] é daqueles escritores que o tempo castiga, por estarem enraízados numa paisagem física e cultural entretanto transfigurada, ou que simplesmente deixou de existir. O Portugal do médico transmontano, literato escondido atrás de um pseudónimo e da placidez do consultório em Coimbra, morreu com a adesão a essa Europa que sempre o assustou. O Portugal rural – das fragas inacessíveis, das cintilações humanas e da miséria entranhada nos corpos – foi substituído pelas auto-estradas e por todas as ilusões de progresso que os dinheiros comunitários permitiram (e ainda permitem). Elementar, telúrico, solene, Torga ficou com os pés bem fincados no século XX e tem hoje, parece-me, uma influência quase nula na literatura que se faz nesta “nesga de terra debruada de mar”.
A sua obra vale sobretudo pelos contos e pelos diários. A poesia, datadíssima, nunca me entusiasmou. Os ensaios também não. Mas entre os contos encontramos pequenas maravilhas, histórias contadas no ritmo certo, personagens que parecem esculpidas à navalha, exemplos perfeitos da arte de narrar. Já os diários mostram o direito e o avesso de um homem que espelha a sua época com desassombro, oscilando entre o optimismo e o azedume. Logo numa das primeiras entradas, a 4 de Novembro de 1933, resume assim uma certa tendência para o exagero: “Começo a pintar um botão, e é capaz de me sair o cosmos.” Apenas 26 anos e já no bom caminho. “Começo a pintar um botão, e é capaz de me sair o cosmos”. Conhecem melhor caderno de encargos para um escritor?
[Texto publicado no Jornal de Letras]
Comments
uma existência assim faz-nos muita falta. um abraço.
Posted by: AF | agosto 22, 2007 05:44 PM