RETRATO DO ARTISTA QUANDO VELHO


Ravel, de Jean Echenoz, trad. Armando Silva Carvalho, 104 páginas.
Numa manhã muito fria de Dezembro, Ravel hesita em abandonar o banho. Não é fácil trocar a água morna e cheia de sabão pelos aposentos mal aquecidos da sua minúscula casa de Monfort-l’Amaury. Ainda que a custo, porém, lá se decide a sair da “boa atmosfera amniótica”. Finda a rotina higiénica, que inclui lavagem dos dentes com escova articulada e depilação da sobrancelha “onde durante a noite um pêlo teve a ousadia de crescer como uma antena”, veste-se à pressa sem prescindir do habitual requinte (fato em tom ardósia, sobretudo cor de chocolate) e acaba por sair à rua, onde Hélène, uma amiga diligente e enregelada, o espera ao volante do Peugeot 201 que os levará à estação de Saint-Lazare, em Paris. O ano de 1927 está quase a chegar ao fim. E o autor de Gaspard de la Nuit, então com 52 anos e no auge da fama, só tem à sua frente mais uma década de vida.
Assim começa Ravel, o magnífico romance que Jean Echenoz publicou no início de 2006, conseguindo um raro coro de elogios por parte da crítica francesa. Raro mas merecido, diga-se, porque não é todos os dias que nos passa pelas mãos um objecto literário tão maravilhosamente bem escrito, tão equilibrado e empolgante, tão fluido e certeiro na sua cadência musical. Echenoz como que desliza entre os factos conhecidos e supostos da existência do compositor, atento sobretudo aos pequenos detalhes que permitem traçar, à transparência, o retrato de um homem fechado na sua solidão.
Não sendo propriamente velho quando a narrativa o encontra, prestes a apanhar o comboio para o Havre, onde embarcará no transatlântico France a caminho de uma apoteótica tournée americana, o certo é que Ravel está no começo da etapa final da sua vida. Idolatrado em toda a parte, só consegue experimentar a glória com um misto de desdém e cansaço existencial. O mundo quer vitoriá-lo, bater-lhe palmas de pé durante horas, lançar-lhe flores, mas ele está mais preocupado com as suas insónias recorrentes, com as “gravatas espampanantes” ou com o desânimo que lhe vai roubando a vontade de compor. Entre o fumo dos gauloises e um tédio que o paralisa, Ravel atravessa as coisas como um fantasma elegante, por vezes rude e quase imune ao que os outros pensam de si – se exceptuarmos dois casos: o de Toscanini, que o enfurece ao acelerar o tempo do Bolero; e o do irmão de Ludwig Wittgenstein, Paul, pianista sem um braço a quem dedicou o Concerto para a mão esquerda, só para o ver desrespeitar a partitura com todo o tipo de arrebiques virtuosísticos.
Mais do que o percurso do músico genial, o que interessa a Echenoz é a história do seu progressivo declínio, a forma como se foi desligando aos poucos da realidade. Talvez por isso, uma parte significativa do livro corresponde à viagem no France, com a descrição minuciosíssima da vida a bordo, dos seus luxos e preguiças, dos jantares faustosos e das tardes a olhar as ondas nas chaises longues do convés, numa espécie de suspensão do tempo em que “todos os dias se assemelham”. De certo modo, os últimos anos de Ravel são como o France: magníficos e terríveis, enormes e claustrofóbicos.
Talvez de propósito, Echenoz aborda muito ao de leve, numa tangente, as obras musicais de Ravel. Quase nunca o vemos a compor ou a reflectir sobre o que escreve. Há uma passagem, contudo, em que se aborda o célebre Bolero, inspirado pelo trabalho em cadeia numa fábrica de Vésinet: “é algo que se autodestrói, uma partitura sem música, (...) um suicídio cuja arma se traduz no simples prolongamento do som”. E tal como nessa “frase repisada” que eclipsou injustamente as verdadeiras obras-primas do compositor, também neste romance “não existe estrutura a bem dizer, nem desenvolvimento, nem modulação, só ritmo e arranjos de orquestra”. Ritmo e arranjos que nos conduzem, melancolicamente, até ao triste fim de Ravel, vítima de uma operação falhada para curar a atrofia cerebral que acabou por lhe tolher o entendimento, a fala e a escrita.
Saúde-se ainda a notável tradução do poeta Armando Silva Carvalho que transpõe para português, intacta, a prosa límpida e luminosa de Echenoz.
[Texto publicado no Diário de Notícias]
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Posted by: Zé Ninguém | agosto 15, 2007 04:45 PM