" /> A Invenção de Morel: julho 2007 Archives

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julho 31, 2007

BLOWDOWN

Bergman & Antonioni. Quantos rostos cabem num grande plano?

julho 29, 2007

RETRATO DO ARTISTA QUANDO VELHO


Ravel, de Jean Echenoz, trad. Armando Silva Carvalho, 104 páginas.

Numa manhã muito fria de Dezembro, Ravel hesita em abandonar o banho. Não é fácil trocar a água morna e cheia de sabão pelos aposentos mal aquecidos da sua minúscula casa de Monfort-l’Amaury. Ainda que a custo, porém, lá se decide a sair da “boa atmosfera amniótica”. Finda a rotina higiénica, que inclui lavagem dos dentes com escova articulada e depilação da sobrancelha “onde durante a noite um pêlo teve a ousadia de crescer como uma antena”, veste-se à pressa sem prescindir do habitual requinte (fato em tom ardósia, sobretudo cor de chocolate) e acaba por sair à rua, onde Hélène, uma amiga diligente e enregelada, o espera ao volante do Peugeot 201 que os levará à estação de Saint-Lazare, em Paris. O ano de 1927 está quase a chegar ao fim. E o autor de Gaspard de la Nuit, então com 52 anos e no auge da fama, só tem à sua frente mais uma década de vida.
Assim começa Ravel, o magnífico romance que Jean Echenoz publicou no início de 2006, conseguindo um raro coro de elogios por parte da crítica francesa. Raro mas merecido, diga-se, porque não é todos os dias que nos passa pelas mãos um objecto literário tão maravilhosamente bem escrito, tão equilibrado e empolgante, tão fluido e certeiro na sua cadência musical. Echenoz como que desliza entre os factos conhecidos e supostos da existência do compositor, atento sobretudo aos pequenos detalhes que permitem traçar, à transparência, o retrato de um homem fechado na sua solidão.
Não sendo propriamente velho quando a narrativa o encontra, prestes a apanhar o comboio para o Havre, onde embarcará no transatlântico France a caminho de uma apoteótica tournée americana, o certo é que Ravel está no começo da etapa final da sua vida. Idolatrado em toda a parte, só consegue experimentar a glória com um misto de desdém e cansaço existencial. O mundo quer vitoriá-lo, bater-lhe palmas de pé durante horas, lançar-lhe flores, mas ele está mais preocupado com as suas insónias recorrentes, com as “gravatas espampanantes” ou com o desânimo que lhe vai roubando a vontade de compor. Entre o fumo dos gauloises e um tédio que o paralisa, Ravel atravessa as coisas como um fantasma elegante, por vezes rude e quase imune ao que os outros pensam de si – se exceptuarmos dois casos: o de Toscanini, que o enfurece ao acelerar o tempo do Bolero; e o do irmão de Ludwig Wittgenstein, Paul, pianista sem um braço a quem dedicou o Concerto para a mão esquerda, só para o ver desrespeitar a partitura com todo o tipo de arrebiques virtuosísticos.
Mais do que o percurso do músico genial, o que interessa a Echenoz é a história do seu progressivo declínio, a forma como se foi desligando aos poucos da realidade. Talvez por isso, uma parte significativa do livro corresponde à viagem no France, com a descrição minuciosíssima da vida a bordo, dos seus luxos e preguiças, dos jantares faustosos e das tardes a olhar as ondas nas chaises longues do convés, numa espécie de suspensão do tempo em que “todos os dias se assemelham”. De certo modo, os últimos anos de Ravel são como o France: magníficos e terríveis, enormes e claustrofóbicos.
Talvez de propósito, Echenoz aborda muito ao de leve, numa tangente, as obras musicais de Ravel. Quase nunca o vemos a compor ou a reflectir sobre o que escreve. Há uma passagem, contudo, em que se aborda o célebre Bolero, inspirado pelo trabalho em cadeia numa fábrica de Vésinet: “é algo que se autodestrói, uma partitura sem música, (...) um suicídio cuja arma se traduz no simples prolongamento do som”. E tal como nessa “frase repisada” que eclipsou injustamente as verdadeiras obras-primas do compositor, também neste romance “não existe estrutura a bem dizer, nem desenvolvimento, nem modulação, só ritmo e arranjos de orquestra”. Ritmo e arranjos que nos conduzem, melancolicamente, até ao triste fim de Ravel, vítima de uma operação falhada para curar a atrofia cerebral que acabou por lhe tolher o entendimento, a fala e a escrita.
Saúde-se ainda a notável tradução do poeta Armando Silva Carvalho que transpõe para português, intacta, a prosa límpida e luminosa de Echenoz.

[Texto publicado no Diário de Notícias]

julho 28, 2007

1992-2007

Quinze anos depois das polémicas sobre os custos astronómicos e o perfil de «bunker», o CCB não só foi integrado no tecido da cidade como começa a entrar também no cânon da nossa arquitectura contemporânea.

julho 27, 2007

PRÉMIO DE CARREIRA DA 1.ª TRIENAL DE ARQUITECTURA DE LISBOA

Escolhido por Álvaro Siza: o arquitecto italiano Vittorio Gregotti, autor do projecto do Centro Cultural de Belém.

julho 26, 2007

O MAIOR DE TODOS OS PRIVILÉGIOS

Escrever.

ARTES ESQUISITAS (UM EXEMPLO)

Mulholland Drive, de Martin Bonadeo, Michael Chu e D. Scott Hessels

Three media artists drove Los Angeles' famous Mulholland Drive with five types of sensors measuring the car's tilt, direction, altitude, speed, and engine sound. The captured data of the mountain road was loaded into a computer and a 3-dimensional model was created. This model was used computationally to control two robotic lights in a room filled with fog. Two 100-foot beams of light and the processed sound of the engine recreated the topology of the road as a new form of visual experience and sculpture-cinema without image.

OUVIDO NA ESPLANADA DA GULBENKIAN

«O meu sobrinho agora dedica-se à pintura, mas é uma coisa a sério, limpinha, não é dessas artes esquisitas que se vêem para aí», dizia a balzaquiana às suas amigas igualmente balzaquianas, enquanto bebiam chá e os pardais debicavam, audazes, o resto das torradas.

julho 25, 2007

ECOPONTO

Depois de disciplinar o lixo (isto é para o verde, isto é para o azul, isto é para o amarelo, isto é orgânico), só lhe falta disciplinar a vida que provoca o lixo.

SOLIDARIEDADE

Qual será o anagrama para underwater writer?

julho 24, 2007

O MEU FUTURO (POR ESTES DIAS)

julho 23, 2007

ESPUMA NO ROSTO

De manhã, faço a barba. Reflexo no espelho inclinado, o azul da casa de banho sufocante como o fundo do mar. Sinto a lâmina na pele e alguém que me espia. Atrás de mim, por cima do ombro, o poema do Jorge Gomes Miranda.

julho 22, 2007

CITEMOR

Já começou a 29.ª edição. Em Montemor-o-Velho. E também na blogosfera. Programação completa aqui.

julho 21, 2007

UM POEMA DE JORGE GOMES MIRANDA

Lâmina de barbear

Abre um armário espelhado,
pega em mim.
Pousa-me no lado direito do lavatório.
Inclina-se.
No instante em que a água quente
corre da torneira,
nas mãos em concha mergulha
o rosto; emerge para o aproximar
um pouco mais do espelho
e repara nas linhas
que se formaram nos últimos anos
à volta dos olhos.
O creme percorre a pele áspera,
suaviza-a,
quase uma carícia.
Calmamente começa a fazer a barba:
movimentos certos,
conhecidos.

Olha para o seu lado esquerdo.
Removida do rosto uma sombra,
outra, ainda sem nome,
investe já contra a pele.

[in O Acidente, Assírio & Alvim, 2007]

CÚMULO DA TIMIDEZ

Marcar um blind date, sim, mas no Second Life.

julho 20, 2007

SALVAR MAIS PEIXES

Um homem piedoso explicou aos seus seguidores: «É maléfico tirar vidas e nobre salvá-las. Todos os dias me comprometo a salvar uma centena de vidas. Lanço a minha rede ao lago e apanho uma centena de peixes. Coloco os peixes na margem, onde eles se contorcem e debatem. "Não tenham medo", digo a esses peixes. "Estou a salvar-vos de morrerem afogados." Pouco depois, os peixes acalmam-se e ficam imóveis. No entanto, é triste dizê-lo, é sempre demasiado tarde. Os peixes morrem. E como é mau desperdiçar o que quer que seja, pego naqueles peixes mortos, levo-os ao mercado e vendo-os por um bom preço. Com o dinheiro que recebo, compro mais redes para poder salvar mais peixes.

[Epígrafe anónima do romance Um Lugar Sem Nome, de Amy Tan (Casa das Letras), que na versão original se intitula Saving Fish from Drowning]

SMALL STEPS & GIANT LEAPS

Foi há 38 anos (tinha eu -3).

julho 19, 2007

ILUSÕES

As ilusões ópticas explicam-se, as ilusões éticas nem por isso.

O REGRESSO DA F. E DA J.

Por duas das autoras do saudoso tomara-que-caia (desactivado), eis o sapal. Re-bem-vindas, meninas.

LIÇÃO N.º 48 PARA PAIS DE BEBÉS COM QUASE DEZ MESES

Aproveitem as sestas deles para trabalhar, mas aproveitem mesmo. Não se esqueçam que as sestas são "janelas de oportunidade" que se podem fechar de repente, com grande estrondo e muitos vidros em cacos pelo chão.

[Um título alternativo para este post é: «Como o excesso de confiança em relação ao sono da progenitura pode arruinar o trabalho que contávamos fazer num dia de folga»]

A MARCA NOBEL

Há exagero nas reacções internacionais à hipótese iberista avançada por José Saramago numa entrevista ao DN? É claro que sim. As páginas inteiras dedicadas à polémica na maior parte dos jornais de referência europeus (mas também no resto do mundo, até na China) reflectem dois aspectos que me parecem cruciais na ecologia da comunicação à escala global. Por um lado, assistimos a mais um exemplo do efeito de contaminação temática («se o El Pais e o La Repubblica pegam nisto, também temos que pegar...», «se já chegou à BBC, não podemos ignorar», etc.) que leva a uma espécie de bola de neve mediática instantânea e imparável, como aconteceu de forma ainda mais avassaladora no caso do desaparecimento de Madeleine McCann. O segundo aspecto tem a ver com o poder da marca Nobel. Por muito que se questione a legitimidade literária das escolhas da Academia Sueca, o certo é que o epíteto Prémio Nobel da Literatura continua a ter um peso enorme. Acham que se a ideia de um Portugal condenado a fundir-se com Espanha tivesse sido avançada, digamos, pelo António Lobo Antunes (para citar um nome de igual estatuto no mundo das Letras) a reacção dos media internacionais teria sido esta?

julho 18, 2007

COISAS QUE SE ENCONTRAM NO YOUTUBE

O mundo ao contrário (para sabermos o que nos custaria estar do outro lado).

[via blogue da Igualdade de Oportunidades para Todos]

julho 17, 2007

REGRESSO À ORIGEM

São poemas escritos em forma de post pelo Francisco José Viegas (a longa série intitulada A Noite, o Que É?), agora transpostos para o papel numa edição da Quasi (que apetece resgatar de novo para este limbo etéreo da blogosfera).
Tomem lá três:

Oiço o ruído dos canaviais não muito longe. Pequeno vento a meio da noite, pequeno vento. A única tempestade, ninguém a suspeita. A meio da noite adormece-se a pensar nesse perfume.

***

Abrir um caderno {The night writing} e escrever pela noite fora, enquanto não chega o Inverno. Nunca se escreve tudo, nunca se chega ao fim. Agora, que olho os teus olhos, sei como se começa a escrever pela noite fora, como se ouvem os ruídos, como se ouve a respiração. Ao recuperá-la, não se perde de novo, não se adormece sem ouvir essa voz a que sempre se pertenceu. A noite é isto, afinal, chegar e partir, enfrentar as horas, esperar.

***

Ficamos com pouco, depois de um ano inteiro: poeira, o coração sempre no fim da tarde, insectos, colibris, o sabor da cerveja, não ter endereço. O coração no fim da tarde é uma imagem que transporto todos os dias. A poeira também. E alguns nomes novos: vagalume, sonambulismo, domingo de praia, nadar a meio da noite, livros, café da manhã.

julho 16, 2007

O ETERNO PROBLEMA DO EXCESSO DE EXPECTATIVAS

Livros que levei para ler nas férias

Livros que efectivamente li nas férias

CONTRA O ESTATUTO

O MIL (Movimento Informação é Liberdade) está a tentar que não seja promulgado o diploma que define o novo Estatuto do Jornalista, aberração legal que abre caminho ao «mais violento ataque à liberdade de Imprensa em 33 anos de democracia». Com a possibilidade de quebra do sigilo das fontes e a atribuição do controlo deontológico a um órgão administrativo, abre-se caminho a perigosíssimas limitações do trabalho e independência dos jornalistas. Como se não bastassem todos os outros factores de "amordaçamento" (inerente à lógica económica dos grandes grupos de comunicação) que vêm minando a credibilidade da mais bela profissão do mundo...

julho 15, 2007

O QUE DEIXEI PARA TRÁS

ria.jpg

Quinze magníficos dias de férias e esta paisagem (Ria de Alvor).

julho 01, 2007

TOCA E FOGE

Nem de propósito. Ainda mal consegui pôr esta coisa up to date e já me estou a baldar. Daqui a umas horas saio de Lisboa para duas semanas de repouso que espero absoluto. Regresso dia 15, a tempo de votar nas eleições intercalares.
Entretanto, o mais certo é não haver posts por estas bandas (mas nunca se sabe).