ZODIAC

No seu último filme, David Fincher consegue um pequeno prodígio: transformar uma investigação policial num exercício quase abstracto, em que a procura da verdade se perde nos alçapões processuais e na lógica burocrática da Justiça. Em Se7en, havia um assassino em série inteligentíssimo, criativo, literário, que recorria à memória cultural da humanidade (Dante, os sete pecados capitais) para espalhar cadáveres à sua volta, seguindo uma lógica ao mesmo tempo artística (cada homicídio surge como uma instalação) e lúdica (a sequência de crimes está montada como um puzzle que os detectives têm que resolver). Nada disso em Zodiac. O assassino, talvez por ser real e não um devaneio de argumentista, revela-se um ser frágil, limitado (nem sempre consegue matar as vítimas) e principal alimentador do mito em que o transformaram (ao ponto de se apropriar de crueldades cometidas por outros). O que Fincher filma, desta vez, não é tanto o Mal, ou o fascínio que ele exerce, mas a forma como os vários investigadores (polícias, repórteres, o cartoonista do Chronicle) se deixam consumir por uma história que escapa, devido a uma conjugação de acasos e erros, aos rígidos mecanismos da prova que a Lei americana exige. Zodiac é um labirinto de pistas e cortinas de fumo, armadilhas e enganos, que quase prescinde do Minotauro em torno do qual foi criado. E é um jogo mental, uma espécie de sudoku com factos em vez de números, que nos desafia, deslumbra e frustra, não necessariamente por esta ordem.
Comments
www.pnet.pt ---- muitas gaijas ....
Posted by: pnet | junho 27, 2007 11:33 AM
eu não gostei, achei-o excessivamente longo, (ou lento?), o jogo é cansativo, enervante, frust como dizes, mas, na minha opinião, pelas piores razões. Longe, muito longe do movimento de seven.
Posted by: AF | junho 27, 2007 06:56 PM