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UM POEMA DE ROGÉRIO RÔLA

Um deus prostituto

Lembrava um modelo de Caravaggio
desses que ele ia buscar não sei a que doca
e cujo aluguer não seria caro.

Trazia pesadelos desenhados na t-shirt,
auréola de headphones corrente
ao pescoço e relógio metálico.

Os brilhos atraíam-no. Entorpeciam-no.
Discotecas centros comerciais
o cinema porno o chamon e a coca.

Sem dinheiro nos bolsos, aguardava
com outros anjos de dentes cariados
indolentes e de asas partidas

(na destra, um seta de atirar ao alvo
na esquerda, a cerveja vazia)
o negócio dos olhos.

A ave de rapina para voar melhor
no movimento do músculo
contrai-se e cai abatida.

E no braço esquerdo a tatuagem
de um número de cadastro
que,
é pra esquecer, dizia.

[in revista aguasfurtadas, número 10]

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