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AS CONSEQUÊNCIAS INVOLUNTÁRIAS

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O Arquitecto, de Rui Tavares, Tinta da China.

Entre os vários autores talentosos que se deram a conhecer durante a explosão da blogosfera portuguesa, em 2003, Rui Tavares perfilou-se desde logo como um dos mais sólidos e consistentes. Historiador de formação, opinion maker na imprensa e na TV, publicou, sempre na editora Tinta da China, um magnífico ensaio sobre o sismo de 1755 (O Pequeno Livro do Grande Terramoto, 2005); um volume de “argumentos patalógicos”, onde se reúnem posts publicados no blogue Barnabé, alguns inéditos e textos dispersos (Pobre e Mal Agradecido, 2006); mais duas cuidadas traduções de Voltaire (Cândido, ou o Optimismo) e Giordano Bruno (Tratado da Magia).
Agora, decidiu-se a estudar e trazer para primeiro plano a figura de um dos mais importantes “criadores de formas” do século XX: o arquitecto Minoru Yamasaki, norte-americano de origem japonesa, nascido em Seattle, “um homem amaldiçoado pela história”, famoso sobretudo “pelas suas obras que foram destruídas”. É justamente em torno dos dois projectos de Yamasaki que acabaram reduzidos a escombros – o complexo habitacional de Pruitt-Igoe em Saint Louis (demolido) e as nova-iorquinas torres gémeas do World Trade Center (alvos do ataque terrorista de 11 de Setembro de 2001) – que se estrutura o trabalho de Rui Tavares, como sempre exemplarmente investigado e redigido no estilo habitual: fluente, inventivo, sedutor, impecável no domínio da língua portuguesa, a espaços brilhante.
Dito isto, O Arquitecto, embora pareça um ensaio, não é um ensaio. Os “acontecimentos, personagens e relações entre personagens e acontecimentos” referidos no texto são todos reais, mas o autor partiu deles para criar diálogos “puramente imaginários”. E assim nasceu o seu primeiro livro de ficção, uma improvável peça de teatro que será vista decerto como um ovni no céu pouco estrelado da dramaturgia portuguesa contemporânea. Ou não fosse este um texto de ideias, com pouquíssima acção. Teatro intelectual no sentido mais estrito da palavra. Coisa raríssima por cá, como se sabe.
No primeiro acto, encontramos Yamasaki no seu escritório de Detroit, em 16 de Março de 1972, vagamente melancólico com a demolição prevista para essa tarde da sua obra inaugural – Pruitt-Igoe, a “cidade do futuro” que nunca funcionou – e sem paciência para o assédio dos jornalistas (sobretudo Wolf von Eckardt, crítico de arquitectura do Washington Post). Inesperadamente, recebe a visita de Moreland Griffith Smith, antigo activista dos direitos civis no Alabama e arquitecto retirado, com quem mantém uma longa conversa, durante a qual recordam os respectivos percursos de vida (cheios de simetrias, como se eles fossem “duplos invertidos, cada um do seu lado do espelho”) e os dolorosos impasses profissionais, culminando nas nuvens de poeira dos 33 prédios destruídos em Saint Louis, a sublinhar eloquentemente um “falhanço trágico”.
O segundo acto passa-se um ano mais tarde, na Torre Sul do WTC, momentos antes da inauguração do então edifício mais alto do mundo. Yamasaki volta a falar com Griffith, desta vez acompanhado por dois engenheiros de estruturas e por David Rockefeller, o financiador da obra, numa conversa que é uma espécie de reverso da primeira, ao assinalar o momento em que chegava, depois da queda, o momento de glória para o arquitecto. Acontece que tal como houve factores imprevisíveis em Pruitt-Igoe (erros de construção, equívocos políticos, circunstâncias históricas e sociais) que condenaram à morte um projecto meritório, também o futuro das Torres Gémeas está ameaçado por uma rede ainda mais vasta dessas “consequências involuntárias” que desembocará, quase duas décadas depois, no maior atentado terrorista de todos os tempos.
Para quem pretenda levar este texto ao palco, os dois actos talvez façam lembrar, de início, as duas torres do WTC: blocos enormes, aparentemente densos e monolíticos. Ilusão pura. Arquitecto à sua maneira, Rui Tavares esmerou-se nos detalhes, naquilo que não se revela à primeira vista. A sua é uma “escala humana”, como dizia Yamasaki das torres gémeas. Essas torres que ao longe “eram massivas, esmagadoras até”, mas de perto “ganhavam uma delicadeza inesperada”.

[Texto publicado no Diário de Notícias]

Comments

As torres gemeas era uma vista muito bonita esses terrorista são um bando de ........... são uns sem futuro para que destruir uma coisa que simbolizava muito torres gemeas um fato de terrorismo nunca mais!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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