
O encenador que fala teatro
Bernard Sobel é um dos mais importantes encenadores franceses da actualidade. Criador do Théâtre de Gennevilliers, nos subúrbios de Paris, onde trabalhou durante 43 anos (até atingir o limite de idade previsto na lei, em Dezembro de 2006), Sobel montou mais de 80 peças, sobretudo de autores russos e alemães. A sua abrangência estética levou a que se interessasse tanto pelos clássicos gregos (Ésquilo, Eurípedes) como pelas vanguardas das últimas décadas do século XX (Sarah Kane). Também dirigiu espectáculos de ópera e foi realizador de cinema e televisão. A Portugal trouxe três espectáculos, sempre ao Festival de Teatro de Almada: O Refém, de Paul Claudel (2002); Dom, Mecenas e Adoradores, de Ostrovski (2006); e agora A Charrua e as Estrelas, de Sean O’Casey, que sobe à cena com elenco português e tradução de Helena Barbas no novo e muito azul Teatro Municipal de Almada, por ele estreado há precisamente um ano.
Por que é que escolheu encenar Sean O’Casey, um dramaturgo irlandês que nunca antes tinha subido ao palco em Portugal, e esta peça – A Charrua e as Estrelas – em particular? Existe alguma lógica de continuidade com os trabalhos de encenação que tem feito nos últimos anos?
Isto tudo começou quando o Joaquim Benite, director da Companhia de Teatro de Almada, me disse: “Queres vir fazer qualquer coisa aqui?” A primeira questão que me coloquei tinha a ver com o meio envolvente do Teatro Azul, como é conhecido o novo Teatro Municipal. Isto é, tinha a ver com as pessoas que vivem à volta dele. Porque vir encenar um clássico não fazia sentido para mim, por muito generosa que fosse a proposta do Joaquim. Era preciso que eu sentisse uma verdadeira necessidade de estar ali, no Teatro Azul, naquele contexto demográfico, digamos assim. E parece-me que um homem como O’Casey, quando fala dos subúrbios e bairros operários de Dublin, que são de certo modo o seu território, fala também das pessoas que habitam à volta do Teatro Azul. Porque o Teatro Azul, em si mesmo, é um milagre e um paradoxo. Podemos perguntar-nos o que é que ele faz ali. A coragem da autarquia e a teimosia do Joaquim criaram um instrumento precioso, respondendo de certo modo à indignação do Rei Lear, quando diz: “Se derem aos seres humanos apenas aquilo de que eles necessitam, estarão a tratá-los como animais.” A mim, pareceu-me que se um almadense que habite perto da milagrosa casa azul decidir descer ao teatro, não digo que se reconheça em O’Casey, mas pode ver pessoas, sentimentos, emoções, esperanças e desesperos que continuam a ser os seus, mesmo hoje.
Entre a Dublin de 1916 e a Almada (ou a Europa) de 2007, o que é que mudou e o que é que ficou na mesma?
O que mudou foi apercebermo-nos de que o animal humano não muda. Ele faz a História, ele altera o mundo, mas não se altera a si mesmo. Quer dizer, altera-se mas não muda: não se torna bom, não se torna melhor. Se quisermos falar hoje do nosso tempo, evocando a invenção da lei, a democracia, a liberdade, a relação do indivíduo com a comunidade, etc., a obra mais moderna de que podemos partir é a Oresteia, de Ésquilo. Tornou-se claro que não é Shakespeare que é nosso contemporâneo, como dizia Jan Kott, mas somos nós que continuamos a ser contemporâneos de Shakespeare. O animal humano, que é uma parte da Natureza, é a parte da Natureza menos natural, a mais monstruosa. E essa constatação sempre foi o que esteve na origem da prática artística a que chamamos teatro.
O’Casey era um autor empenhado não apenas politicamente mas também socialmente.
Não acho que fosse mais empenhado do que Shakespeare. Era um homem do seu tempo, sem dúvida. Tinha opiniões, assistia às lutas e aos combates, mas não creio que fosse mais ou menos empenhado do que Shakespeare. Dizer isso seria reduzi-lo.
Já que refere o autor de Macbeth, há quem diga que a linguagem de O’Casey era muito shakespeariana.
Mas claro que sim. Ele foi, acima de tudo, um poeta. Um poeta que foi admirado por homens como Beckett. O seu problema foi ter escolhido heróis que aparentemente nada têm de heróico. Falou da arraia miúda de Dublin, como António José da Silva falou dos habitantes do Bairro Alto, Goldoni dos desgraçados de Veneza e Valle-Inclán dos miseráveis de Madrid. O que O’Casey mostra é que essa arraia miúda de Dublin só conseguia sobreviver a condições de vida muitíssimo precárias graças a duas drogas: a poesia e o álcool. Todos os seus heróis são poetas. É a poesia que lhes permite suportar o lado implacável da realidade. Em O’Casey, ao contrário de Brecht, não há uma mensagem que se quer passar, uma lição. Considero-o mais inovador e construtivista do que Brecht, que se queria moderno. Brecht é mais clássico do que O’Casey. Mas isso não se vê. Ficamos com a impressão de que Brecht é muito mais moderno e que O’Casey tem uma modernidade mais secreta.
O’Casey é idealista mas não é ideólogo.
Eu diria antes que ele é um poeta a viver no meio de outros poetas, que não sabem que o são.
Há também um lado simbólico nesta peça. Porque a metáfora da charrua e das estrelas aborda a possibilidade de uma certa superação dos constrangimentos que prendem os homens à terra e a uma vida insatisfatória.
Sim, era um pouco isso. A política na Irlanda podia ser ao mesmo tempo sangrenta e poética. Mas O’Casey fez com A Charrua e as Estrelas a sua mais bela peça. Ele foi beber aos gregos, aos isabelinos, aos filósofos. E também há lá dentro a Nora de Ibsen, a Ofélia de Shakespeare, Tirésias, figuras do teatro que aparecem como vindas do nada. Quando o poema é verdadeiro, regressam automaticamente as figuras mitológicas da humanidade. Há a Bíblia, há profetas bêbedos. É uma mistura onde cabe tudo, de Ésquilo e Homero até Chaplin.
Mas sempre a partir de tipos urbanos ainda hoje reconhecíveis.
Sim. As suas personagens são operários, mulheres-a-dias, pedreiros. É talvez por isso que a maioria dos encenadores torcem o nariz a O’Casey. Mas pensei que em Almada – onde não faltam mulheres-a-dias, pedreiros, carpinteiros e... desempregados – fazia sentido abordar este universo.
A peça já tinha sido montada por si, em 1986. Mais de vinte anos depois, em que é que difere o seu olhar de encenador sobre o texto?
O meu olhar difere porque entretanto pude descobrir o artista enorme que O’Casey é. Discernir a sua arte. Uma arte que absorve tudo o que então se passava na Europa, mesmo sem que ele se apercebesse disso. Há ali ideias de montagem, ecos do nascimento do cinema. Em alguns aspectos, eu diria mesmo que A Charrua e as Estrelas é uma peça cubista.
A actual produção vai ser falada em português. Este facto implicou algum tipo de ajustes no seu método de trabalho?
Não. Mas é óbvio que se trata de um desafio. E de uma enorme demonstração de coragem por parte do Benite. Foi ele que me fez o casting. Corrigi-o depois um pouco, mas não muito. Quanto aos jovens actores que trabalham comigo, só espero estar à altura do entusiasmo de que já me deram provas. Eles estão muito cansados, o trabalho tem sido muito duro.
Você é muito exigente como encenador?
Nem por isso. Ou melhor, não sou eu que sou exigente. É O’Casey.
A língua não está a ser uma barreira?
Quando se monta uma peça, seja de quem for, depressa se compreende que a “fala” do teatro é uma outra fala. Mesmo quando estou num palco em França, não é francês que eu falo. Falo outra coisa. Falo teatro.
É um idioma à parte.
Não. É uma língua que não é a língua do uso quotidiano. E é por isso que eu posso entender-me com os actores portugueses, mesmo que não perceba o que eles dizem. Porque quando estamos juntos falamos teatro. E quando falamos teatro, entendemo-nos.
[Texto publicado no número 5 da revista Obscena]
A sua formação começou na Alemanha, com o Berliner Ensemble. Qual foi a importância desse começo, dessa descoberta do teatro sob o signo de Brecht?
Não sei dizer. Eu não tenho uma teoria do teatro mas descobri que ele é cada vez mais útil porque o teatro, tanto em Molière como em Ostrovski, tenta oferecer ao animal humano, consciente ou inconscientemente, a coragem de compreender que a sua vida não tem um sentido pré-estabelecido. É como diz Shakespeare: a vida “signifying nothing”, a nossa vida, que nada significa. Não quer dizer que seja desesperado. Mas a esperança é uma paixão triste. Não devemos ter esperança nem desesperar. Devemos viver.
Diz que não tem uma teoria do teatro, mas em Gennevilliers pôde entregar-se à prática do teatro durante mais de quarenta anos.
Pois. Mas durante essas quatro décadas deu-se o aparecimento da televisão, o desabar do socialismo real existente...
E o seu trabalho foi reflectindo tudo isso...
Sim, essa era mesmo a sua razão de ser.
Registar as transformações do mundo.
As transformações que eu próprio vivia. E os poetas antigos foram-me ensinando que o mundo sempre sofreu transformações brutais. Quando montava Ésquilo, não tinha a impressão de montar um velho poeta. Compreende?
Joaquim Benite sempre disse que o projecto de Almada – fazer teatro e criar um público na periferia da capital – se inspirou no seu trabalho em Gennevilliers. Por que é que escolheu fazer teatro longe do centro de Paris, nos subúrbios?
Porque é nos subúrbios que as mudanças têm efeitos mais violentos. É ali que se tem medo de perder o trabalho, é ali que assistimos ao consumo nas grandes superfícies comerciais, é ali que reina o McDonalds.
E é também ali que emerge a rebelião, como em 2005, com os automóveis a arder.
Claro. É na periferia das grandes cidades que o tsunami que varre a Terra se faz sentir de forma mais evidente. Na Europa, a nossa principal preocupação é proteger o que temos, porque já nos mostraram que de um só golpe podemos perder tudo. A exacerbação dos nacionalismos, de que O’Casey também fala, é uma tentativa de esquecer a realidade. E a realidade é que a “fábrica do mundo” fica nos arredores de Pequim, já não é aqui.
Ao trabalhar nos subúrbios, conseguiu sentir de perto esses problemas económicos e sociais?
De muito perto mesmo. E também por isso considero que a chegada ao poder de Sarkozy é um sinal fortíssimo.
Sarkozy disse que um dos seus objectivos é pôr fim ao que resta do espírito de Maio de 68.
Há uma coisa que é surpreendente na aventura Sarkozy. Ele próprio me disse uma vez que nós pertencíamos à mesma profissão.
É um encenador? Um actor?
Sim. Ele é o actor dos discursos de outrem. Se virmos bem, tudo se resume ao poder das palavras. Quais são as palavras que vão causar maior impacto? E nesse sentido há uma proximidade entre Sarkozy e um grande actor, que pede a autores que lhe escrevam os seus textos e que sabe os efeitos que as palavras produzem.
Isso foi muito evidente no célebre episódio em que Sarkozy, ainda ministro do Interior, se referiu à “racaille” [ralé] quando falava dos jovens que protestavam contra a morte, num transformador de electricidade, de dois adolescentes perseguidos pela polícia.
A palavra “racaille” teve um peso tremendo, como agora essas duas palavras que andam sempre juntas: valor e trabalho. Aliás, penso que a esquerda, depois de ter sido espoliada da ideia de progresso, foi incapaz de encontrar outra linguagem. Permaneceu na velha linguagem. Ao contrário de Sarkozy, que se adaptou e por isso acho que ele mereceu ganhar as eleições presidenciais. Agora, se não concordo com ele, porque sou de esquerda, tenho que encontrar uma outra linguagem, tão eficaz quanto a dele. E este é um problema de teatro.
Teme a encenação que ele vai preparar para a França?
Isso não sei. Ele vai fazer como o Joaquim Benite. Procurar o seu público, aqui e ali.
No final de 2006, abandonou o Théâtre de Gennevilliers. Foi duro? Como é que viveu essa saída?
Foi muito duro. Acho que quem tomou a decisão se enganou. Mas espero que o meu substituto faça um bom trabalho. Da minha parte, vou fazendo o que posso.
Gostava de voltar?
Não, não. Isso é impossível. Mas penso que podia ter continuado a ser útil.
Qual é o seu projecto neste momento?
Encontrar um lugar, um espaço modesto, para uns 100 ou 200 espectadores. Para mim, o que é interessante é dar um rosto a uma casa, uma identidade.
Ainda não encontrou esse espaço?
Ainda não.
O que é que vai fazer depois desta passagem por Almada?
O director do Teatro Nacional de Estrasburgo, Stéphane Braunschweig, convidou-me a montar um espectáculo de Yuri Olecha, um grande escritor soviético, contemporâneo de Mandelstam. Vai ser em Outubro e irá depois para o Théâtre de la Colline, em Paris.
Quando encontrar esse espaço, acha que ainda vai ter energia para recomeçar um projecto da estaca zero, com novos artistas?
Espero ter força para isso, sim.
Não lhe falta vontade.
Claro que não. Caso contrário, não teria quaisquer razões para viver.
A sua vida foi sempre o teatro.
Sim, mas nunca tive vocação para o teatro.
Nunca?!
Nunca tive. Foi tudo por acaso. E tenho a impressão de que é apenas aquilo que eu posso fazer menos mal.