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QUANDO O FIO DAS COISAS SE ATA E DESATA

A mulher que prendeu a chuva, de Teolinda Gersão, Sudoeste, 136 páginas.

Num hotel de cinco estrelas em Lisboa, um homem de negócios escuta por mero acaso, ao fazer a mala, mesmo antes de sair para o aeroporto, uma conversa entre duas empregadas de limpeza que entraram no quarto sem se aperceberem da sua presença. Elas são imigrantes africanas, já resignadas a uma rotina de aspiradores e panos do pó, mas ainda capazes de evocar narrativas mágicas do continente em que nasceram, como a história terrível e poética da mulher acusada de “prender a chuva” numa aldeia consumida pela seca e que a intuição do feiticeiro condena ao sacrifício. Perdido por momentos naquele “pedaço de África” e perplexo com o vislumbre de uma “floresta virgem” no ambiente asséptico da suíte presidencial, o homem de negócios foge dali para fora, mas nem assim se liberta do desconforto provocado pelo contacto, imprevisto e improvável, com um universo que questiona o seu conceito de normalidade.
Este efeito de estranheza que se abate sobre o protagonista de A mulher que prendeu a chuva – história que dá título ao último volume de contos de Teolinda Gersão (publicado numa editora com poucos meses de vida, a Sudoeste, que já se viu forçada a mudar de nome para Sextante) – é comum a várias personagens das restantes 13 narrativas breves incluídas no livro. Encontramo-lo no difícil convívio com a proximidade da morte (Cavalos Nocturnos; Se por acaso ouvires esta mensagem), na descoberta difícil ou deslumbrada de cidades estrangeiras (Berlim em Encontro no S-Bahn; a capital italiana, em Roma; Florença, em Cidades), no vazio que invade as vidas vulgares (As tardes de um viúvo aposentado; Conversa), nas pulsões viscerais que animalizam (Um casaco de raposa vermelha; O cão) ou no abismo da crueldade (História antiga; A ponte na Califórnia).
Com uma linguagem límpida, mais próxima das suas novelas que dos seus romances, a escritora deixa-se levar pela “vertigem do tempo”, empurrando as figuras ficcionais desenhadas a carvão, algo vagas e fugidias, para lugares que reflectem sempre “outros lugares”. Estas são histórias em que o “fio das coisas” ora se quebra, abrindo caminho ao medo, à angústia ou ao tédio existencial, ora se volta a atar num movimento que confere sentido ao caos do mundo. Demiurga subtil, Teolinda Gersão encena “choques casuais com a banalidade” e é nesses acidentes quotidianos que encontra o brilho das “iluminações momentâneas”. Um exemplo: Avó e neto contra vento e areia, talvez o melhor dos textos desta recolha. Numa ida à praia como tantas outras, uma avó vigia o neto de cinco anos que nada “como um peixe”. Às tantas perde os óculos, mesmo antes de se levantar uma súbita tempestade de areia, e o que era banal transfigura-se. De repente, ela está perdida no meio das dunas, sem saber para onde seguir, com o menino pela mão e à mercê de fantasmas que chegam do passado a galope. Embora o desenlace seja feliz, a visão de um deserto ameaçador, ao mesmo tempo físico e mental, persegue-nos muito depois do fim da leitura (como, de resto, aquele “pedaço de África” que perturbou o homem de negócios).

[Texto publicado no Diário de Notícias]

Comments

achei o livro uma merda.

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