NOTAS SAUDITAS #6
Riade é uma cidade estranha. Não se vêem automóveis utilitários. Fiat Punto, Renault Clio, Opel Corsa? Nem um para amostra. Já Bentleys e Ferraris, Lamborghinis e Lexus dos mais carotes, é só virar a esquina.
Virar a esquina é como quem diz, porque as pessoas quase não andam na rua. O conceito de passeio é uma abstracção. Ignoro se por causa do calor se por causa da moral, as ruas são apenas vias para ir de um lugar a outro lugar. Transportes públicos? Poucos e maus, porque só quem está na base da pirâmide social é que os usa. Centros comerciais? Aos magotes, enormes, alguns cinco e seis vezes maiores do que o Colombo, com todas as grandes marcas ocidentais a preços de saldo (o IVA não é alto nem baixo, simplesmente não existe).
E depois, perto do centro, tão frequentada como os centros comerciais, há a praça das execuções. Os homens são decapitados, as mulheres lapidadas (numa espécie de curral para onde os espectadores podem lançar pedras). Dá arrepios saber que há cidadãos neste país que assistem à barbárie, gritam e aplaudem o suplício, cospem nos adúlteros ou nos homicidas, e depois entram calmamente no seu Lexus dos mais carotes, já a pensar no que hão-de comprar na loja da Gucci.