" /> A Invenção de Morel: maio 2007 Archives

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maio 30, 2007

NÃO É IBSEN MAS TAMBÉM NÃO É FERNANDO MENDES

Veio sob a forma de e-mail, daqueles que se enviam para uma catrefada de gente.
Assim:
«caros amigos, conhecidos e outros azarados de monta,
continuo a percorrer um caminho que me conduz àquilo a que se pode chamar "metade de um homem da renascença". tal não se refere ao antónio sala rachado ao meio, com o bem-estar inerente que essa imagem proporcionaria, quer dizer tão somente que tento meter-me em múltiplas actividades, dando-se o caso de, ao contrário do sucedido com os patrocinados pelos médicis, não ter verdadeiro talento para nada. mas que sou dono de corpo e mente irrequieto, lá isso é verdade e como tal meti-me novamente ao barulho do teatro amador. impedido de ensaiar na recta final antes da estreia, graças ao meu novos horários de trabalho por turnos, acabei por ser substituído. sucede que o meu substituto também necessita ele próprio de substituição nos próximos dias 1 e 2 de junho. e lá vou eu a caminho da refrega.
a coisa acontece no teatro de carnide, instituição de nacional-porreirismo e espírito voluntário em que – horror dos horrores – há gente a desempenhar tarefas e a dar o litro sem ganhar dinheiro com isso e assim lá se foi a minha última esperança de ser um liberal-mercantilista. a peça em questão chama-se "os velhos não devem namorar", é uma farsa espanhola em três actos encenada pelo joão ricardo, homem talentoso que tanto ensaia sobre a cegueira com joão brites e o bando como ensaia sobre a cegueira dos espectadores da tvi, participando amiúde nas suas novelas. e o resultado deste espectáculo só podia ser um espelho dessas circunstâncias. mescla de actores falhados [este vosso amigo], gloria gaynor, relatos do rui tovar, goran bregovic e tony de matos, cabotinice e riso escarninho pretende-se um espectáculo popular para agradar às massas, que não alimentícias mas sim alimentadas. não é ibsen mas também não é fernando mendes. cabe-vos a vós julgar, se arriscarem tal experiência. eu faço aqui o meu papel de mensageiro, alea jacta est, olhem para o resultado dos dados se vos aprouver.»
Assinado: Pedro Vieira (o grande Pedro Vieira)
Curiosidade: antes de andar a fazer teatro e telenovelas da TVI, o João Ricardo foi monitor de um campo de férias em que participei na minha borbulhenta puberdade, lá pelos 13/14 anos, numas instalações da EDP mesmo junto à barragem do Castelo de Bode, uma coisa à maneira, belos tempos (ao João Ricardo chamávamos Badocha, inevitável alcunha, e lembro-me de ser unanimemente considerado o adulto mais porreiro das redondezas, pelo menos até Tomar).

maio 29, 2007

RETRATOS DO TRABALHO EM RIADE (*)

trabalho.jpg

Lavam janelas, servem as refeições, carregam malas, batem à porta dos quartos para saber se está tudo bem. São filipinos ou naturais do Bangladesh; a maioria dos sauditas olham-nos com uma espécie de desprezo endinheirado.

maio 27, 2007

NOTAS SAUDITAS #6

Riade é uma cidade estranha. Não se vêem automóveis utilitários. Fiat Punto, Renault Clio, Opel Corsa? Nem um para amostra. Já Bentleys e Ferraris, Lamborghinis e Lexus dos mais carotes, é só virar a esquina.
Virar a esquina é como quem diz, porque as pessoas quase não andam na rua. O conceito de passeio é uma abstracção. Ignoro se por causa do calor se por causa da moral, as ruas são apenas vias para ir de um lugar a outro lugar. Transportes públicos? Poucos e maus, porque só quem está na base da pirâmide social é que os usa. Centros comerciais? Aos magotes, enormes, alguns cinco e seis vezes maiores do que o Colombo, com todas as grandes marcas ocidentais a preços de saldo (o IVA não é alto nem baixo, simplesmente não existe).
E depois, perto do centro, tão frequentada como os centros comerciais, há a praça das execuções. Os homens são decapitados, as mulheres lapidadas (numa espécie de curral para onde os espectadores podem lançar pedras). Dá arrepios saber que há cidadãos neste país que assistem à barbárie, gritam e aplaudem o suplício, cospem nos adúlteros ou nos homicidas, e depois entram calmamente no seu Lexus dos mais carotes, já a pensar no que hão-de comprar na loja da Gucci.

maio 25, 2007

QUANDO O FIO DAS COISAS SE ATA E DESATA

A mulher que prendeu a chuva, de Teolinda Gersão, Sudoeste, 136 páginas.

Num hotel de cinco estrelas em Lisboa, um homem de negócios escuta por mero acaso, ao fazer a mala, mesmo antes de sair para o aeroporto, uma conversa entre duas empregadas de limpeza que entraram no quarto sem se aperceberem da sua presença. Elas são imigrantes africanas, já resignadas a uma rotina de aspiradores e panos do pó, mas ainda capazes de evocar narrativas mágicas do continente em que nasceram, como a história terrível e poética da mulher acusada de “prender a chuva” numa aldeia consumida pela seca e que a intuição do feiticeiro condena ao sacrifício. Perdido por momentos naquele “pedaço de África” e perplexo com o vislumbre de uma “floresta virgem” no ambiente asséptico da suíte presidencial, o homem de negócios foge dali para fora, mas nem assim se liberta do desconforto provocado pelo contacto, imprevisto e improvável, com um universo que questiona o seu conceito de normalidade.
Este efeito de estranheza que se abate sobre o protagonista de A mulher que prendeu a chuva – história que dá título ao último volume de contos de Teolinda Gersão (publicado numa editora com poucos meses de vida, a Sudoeste, que já se viu forçada a mudar de nome para Sextante) – é comum a várias personagens das restantes 13 narrativas breves incluídas no livro. Encontramo-lo no difícil convívio com a proximidade da morte (Cavalos Nocturnos; Se por acaso ouvires esta mensagem), na descoberta difícil ou deslumbrada de cidades estrangeiras (Berlim em Encontro no S-Bahn; a capital italiana, em Roma; Florença, em Cidades), no vazio que invade as vidas vulgares (As tardes de um viúvo aposentado; Conversa), nas pulsões viscerais que animalizam (Um casaco de raposa vermelha; O cão) ou no abismo da crueldade (História antiga; A ponte na Califórnia).
Com uma linguagem límpida, mais próxima das suas novelas que dos seus romances, a escritora deixa-se levar pela “vertigem do tempo”, empurrando as figuras ficcionais desenhadas a carvão, algo vagas e fugidias, para lugares que reflectem sempre “outros lugares”. Estas são histórias em que o “fio das coisas” ora se quebra, abrindo caminho ao medo, à angústia ou ao tédio existencial, ora se volta a atar num movimento que confere sentido ao caos do mundo. Demiurga subtil, Teolinda Gersão encena “choques casuais com a banalidade” e é nesses acidentes quotidianos que encontra o brilho das “iluminações momentâneas”. Um exemplo: Avó e neto contra vento e areia, talvez o melhor dos textos desta recolha. Numa ida à praia como tantas outras, uma avó vigia o neto de cinco anos que nada “como um peixe”. Às tantas perde os óculos, mesmo antes de se levantar uma súbita tempestade de areia, e o que era banal transfigura-se. De repente, ela está perdida no meio das dunas, sem saber para onde seguir, com o menino pela mão e à mercê de fantasmas que chegam do passado a galope. Embora o desenlace seja feliz, a visão de um deserto ameaçador, ao mesmo tempo físico e mental, persegue-nos muito depois do fim da leitura (como, de resto, aquele “pedaço de África” que perturbou o homem de negócios).

[Texto publicado no Diário de Notícias]

maio 23, 2007

PFTV

Uma grande ideia, com tudo para dar certo nesta era do YouTube.

maio 21, 2007

O GUIA

saudita.jpg

Andou connosco uma manhã inteira, às voltas de carro, sorriso sempre pronto a disparar, profissional. Frase mais repetida: "You want to go there? No problem."

maio 19, 2007

SAUDADES DE 'O INDEPENDENTE'

Que eu saiba, ainda nenhum jornal fez o título que se impunha: "Novo aeroporto de Lisboa não Ota nem desOta".

maio 17, 2007

PICAR O PONTO

Voltava sempre, mesmo a destempo, tanto era o medo de que o esquecessem.

maio 15, 2007

ERA UMA DESTAS, SE FAZ FAVOR

Um conto inédito do Rhys Hughes editado em t-shirt pela Livros de Areia? Venha ele, de preferência se o tamanho for o M.

maio 14, 2007

NOTAS SAUDITAS #5

Ao princípio ficamos impressionados. "Aquele ali é príncipe", dizem-nos, apontando para um homem de barba bicuda e olhar de falcão. Mas depois descobrimos que há mais de 3.000 príncipes na corte. E a palavra príncipe fica estranhamente parecida com o portuguesíssimo sôtor.

maio 12, 2007

EM RIADE TODAS AS HORAS SÃO DE PONTA

maio 10, 2007

DATA DE VALIDADE

Nos dias piores, L. sentia-se um iogurte. Um iogurte de aromas, marca branca, fora do prazo.

maio 09, 2007

UM VERSO QUE ECOA

"e o paraíso é a melancolia"

maio 08, 2007

GIOVANNI BATTISTA PIAZZETTA (1682-1754)

Susana e os Velhos (quadro pertencente à colecção Algarotti, está nas galerias Uffizi, em Florença, desde 1920)

maio 07, 2007

UM POEMA DE AMADEU BAPTISTA

[FRAGMENTO]

cores densas e profundas
como no quadro de giovanni battista piazzetta
nos uffizi
susana e os velhos tela 100 por 135
o céu crepuscular espelha-se na água
onde algo de negro e ocre se mistura
com a intensa nostalgia deste mundo
e o paraíso é a melancolia
que a luz evoca neste fim de tarde
estou mais só agora do que nunca
projectam-se as sombras sobre as dunas
desce a penumbra sobre as formas vagas
onde o abandono alguma coisa esconde
a cúmplice sensualidade de susana

[in Antecedentes Criminais, Antologia Pessoal 1982-2007, Edições Quasi]

maio 06, 2007

NÚMERO QUATRO

Obscena soma e segue, com Pina Bausch & etc.

maio 04, 2007

A MARCA DE FOSTER

Torre do Al-Faisaliah Center, em Riade, desenhada pelo arquitecto britânico Norman Foster.

maio 02, 2007

PARIS, TEXAS (NO PORTO)

É quase secreto, como a sua poesia, o blogue pessoal do André Martins (promessa antiga finalmente cumprida). Não sabe ainda "sobre o que será" e isso é bom. Começa sob o signo de Wenders e isso também é bom.