NÃO É IBSEN MAS TAMBÉM NÃO É FERNANDO MENDES
Veio sob a forma de e-mail, daqueles que se enviam para uma catrefada de gente.
Assim:
«caros amigos, conhecidos e outros azarados de monta,
continuo a percorrer um caminho que me conduz àquilo a que se pode chamar "metade de um homem da renascença". tal não se refere ao antónio sala rachado ao meio, com o bem-estar inerente que essa imagem proporcionaria, quer dizer tão somente que tento meter-me em múltiplas actividades, dando-se o caso de, ao contrário do sucedido com os patrocinados pelos médicis, não ter verdadeiro talento para nada. mas que sou dono de corpo e mente irrequieto, lá isso é verdade e como tal meti-me novamente ao barulho do teatro amador. impedido de ensaiar na recta final antes da estreia, graças ao meu novos horários de trabalho por turnos, acabei por ser substituído. sucede que o meu substituto também necessita ele próprio de substituição nos próximos dias 1 e 2 de junho. e lá vou eu a caminho da refrega.
a coisa acontece no teatro de carnide, instituição de nacional-porreirismo e espírito voluntário em que – horror dos horrores – há gente a desempenhar tarefas e a dar o litro sem ganhar dinheiro com isso e assim lá se foi a minha última esperança de ser um liberal-mercantilista. a peça em questão chama-se "os velhos não devem namorar", é uma farsa espanhola em três actos encenada pelo joão ricardo, homem talentoso que tanto ensaia sobre a cegueira com joão brites e o bando como ensaia sobre a cegueira dos espectadores da tvi, participando amiúde nas suas novelas. e o resultado deste espectáculo só podia ser um espelho dessas circunstâncias. mescla de actores falhados [este vosso amigo], gloria gaynor, relatos do rui tovar, goran bregovic e tony de matos, cabotinice e riso escarninho pretende-se um espectáculo popular para agradar às massas, que não alimentícias mas sim alimentadas. não é ibsen mas também não é fernando mendes. cabe-vos a vós julgar, se arriscarem tal experiência. eu faço aqui o meu papel de mensageiro, alea jacta est, olhem para o resultado dos dados se vos aprouver.»
Assinado: Pedro Vieira (o grande Pedro Vieira)
Curiosidade: antes de andar a fazer teatro e telenovelas da TVI, o João Ricardo foi monitor de um campo de férias em que participei na minha borbulhenta puberdade, lá pelos 13/14 anos, numas instalações da EDP mesmo junto à barragem do Castelo de Bode, uma coisa à maneira, belos tempos (ao João Ricardo chamávamos Badocha, inevitável alcunha, e lembro-me de ser unanimemente considerado o adulto mais porreiro das redondezas, pelo menos até Tomar).





