QUANDO O AMOR ARDE POR ENTRE AS ROSAS

Pétalas negras ardem nos teus olhos, de Luís Falcão, Assírio & Alvim, 48 páginas.
Completamente desconhecido no meio literário, Luís Falcão conseguiu um feito raro: o de publicar a sua primeira obra na colecção de poesia inédita da Assírio & Alvim, tão só uma das mais exigentes e respeitadas entre as que se editam em Portugal. Para isso muito terá contribuído o facto desta poesia – quase impalpável na sua depuração austera e com marcas de uma religiosidade magoada – se filiar numa linha estética de que fazem parte outros autores da Assírio, como José Tolentino Mendonça e Mário Rui de Oliveira.
Pétalas negras ardem nos teus olhos é um título até certo ponto enganoso, ao sugerir um exagero metafórico que acaba por estar, salvo uma ou outra excepção, ausente do livro. Pelo contrário, o estilo é conciso, contido, de sintaxe clara e elegante. Há mesmo uma certa transparência, uma nitidez que acolhe e potencia o fulgor das imagens.
Os poemas, quase todos curtíssimos (o mais longo tem dez versos), funcionam como miniaturas capazes de captar os mais ínfimos sinais de um “tempo de presságios e venenos”, cenário de uma solidão que nasce de um duplo abandono: por um lado, o do amor terrestre, essa “língua bárbara” que insiste em “arder por entre as rosas”; por outro, o de Deus, cuja sombra protectora se eclipsou.
Na epígrafe, retirada da Vita Nuova, de Dante Alighieri, fala-se de uma parte da vida “onde não se pode ir com intenção de regressar” e é justamente desse limite, desse “lugar profundo e desprotegido”, que Luís Falcão escreve, sempre à beira do inominável: “Permaneces trancado / No interior de um segredo / Implorando por dedos / Que silenciosa e docemente / Fossem abrindo / As corolas dos crisântemos”.
Nesta terra-de-ninguém, marcada por desastres vagos, tragédias não ditas e advertências íntimas, uma paisagem de ruínas em que os nomes das árvores são escritos com capitular (como se fossem arquétipos platónicos), o sujeito poético vagueia entre súplicas e despedidas, certo de que o mundo resiste a ser compreendido e de que pode haver beleza na renúncia.
Contudo, ao fechar-se num universo temático muito circunscrito (até em termos lexicais), Falcão arrisca pouco, como se temesse a cada momento o passo em falso. Talvez por isso, os versos bem medidos, onde cai a neve e abunda a iconografia católica (claustro, incenso, oração da tarde), aparecem como meros vislumbres de uma realidade simbólica, cristalizada e artificial.
No último poema, o mais longo e explicativo, encontramos uma espécie de síntese: “Sabemos que o tempo passou / Que alguma coisa deveria ter sido dita / (talvez depois, talvez mais tarde) / Deixamos atrás de nós / Uma sequência desconexa de gestos irreparáveis / E, feridos, / Por todas as coisas / que poderíamos ter evitado a nós próprios / Caminhamos para o silêncio / E para a escuridão indefinível dos bosques.”
Resta saber se, como sugeria Dante, haverá regresso desse silêncio que cerca, mortal, cada um destes poemas.
[Publicado no suplemento 6.ª do Diário de Notícias]
Comments
Boa noite!
Queria dizer que embora não tenha feitos comentários, gosto muito de entrar e ler neste blog. Sou espanhola e estou a aprender a bela língua de Camões
Posted by: neves de ontem | abril 12, 2007 10:19 PM
E por falar no 6ª, o que raio lhe aconteceu? Desapareceu sem aviso prévio (ou houve aviso, mas eu é que não o vi?).
Bjs
Posted by: Sara Figueiredo Costa | abril 14, 2007 02:48 PM
Zé Mário eu não cheguei a encontrar o suplemento 6ª. Mas se tu dizes que havia...
Posted by: Luis Januario | abril 14, 2007 06:21 PM
é só pra dar os parabéns aos Luis daqui do meio do atlântico:)
força hombre!!!
um abraço,
Rui (o gajo do workshop na Terceira que andava de chapéu)
Posted by: Rui de Sousa | junho 15, 2008 03:16 AM