A ASSÍRIO VOLTA A PHALAR
Ao mesmo tempo que a Assírio & Alvim inicia um novo ciclo da sua existência, com redobrado fôlego e a muito aguardada remodelação do site, que passa a albergar uma livraria online e um blogue, o projecto liderado por Manuel Rosa recupera uma das ideias mais fortes que Manuel Hermínio Monteiro deixou na sua marcante passagem pela editora. Depois d’A Phala em papel amarelado, com páginas rectangulares e estreitas, onde se iam revelando poemas, depoimentos ou ideias avulsas dos autores da casa, a par de antecipações e notícias, sempre no estilo efusivo-sentimental de Hermínio, chega uma outra A Phala, mais parecida com as revistas normais (no formato de livro, na qualidade do papel, no policromatismo das ilustrações) mas não menos apaixonada pelo que é literário e pela expressão de um pensamento alternativo à lógica mercantilista do mainstream.
No texto de abertura, José Alberto Oliveira, coordenador editorial, escreve: “Se o formato é novo, esperamos que as ideias também sejam, e que o leitor que se habituou a um encontro regular com esta publicação lamente o tempo que levou a concretizar esta nova fase do projecto.” Esse tempo perdido materializa-se no facto de várias colaborações remontarem a 2004, o que produz estranhos anacronimos (fala-se de Cesariny e de Sophia no presente do indicativo). Arestas que a futura periodicidade, presume-se que mensal, acabará por limar.
O primeiro número da segunda série divide-se em dois núcleos: uma homenagem a Mário Cesariny e um dossier sobre tradução. A homenagem abre com uma sequência de fotogramas e depoimentos do filme Autografia, de Miguel Gonçalves Mendes. Do autor de Pena Capital, inéditos, dois exemplos da sua arte bicéfala: os quadros-colagens da série Fora d’horas e Passagem dos Sonhos, catálogo onírico atravessado pela reincidência de um “voo puro”, abstracto e vertiginoso. Herberto Helder comenta o poema Sombra de Almagre e o seu comentário é, ele mesmo, um poema. Já Manuel de Freitas, em Manual de Desprestidigitação, recorda que “ninguém, entre nós, percebeu tão claramente que a poesia é um modo essencial de desabrigo – um desabrigo que não exclui necessariamente a exaltação”.
Muito completo, o dossier sobre a arte de traduzir traz-nos um texto fragmentário de Walter Benjamin, uma referência clássica (a carta A Pamáquio, de S. Jerónimo, vertida do latim por Joaquim Félix de Carvalho), vários depoimentos de tradutores sobre o seu ofício (Filipe Guerra, Frederico Lourenço, Jorge Sousa Braga, José Bento, Pedro Tamen e Vasco Graça Moura, entre outros), além da transcrição de uma interessantíssima conversa que juntou Maria Jorge Vilar de Figueiredo, J. A. Palma Caetano, Manuel Resende, Richard Zenith e António Mega Ferreira, com moderação de João Barrento.
Partindo de exemplos concretos – Thomas Bernhard, Samuel Beckett, Gottfried Benn, Odysséas Elytis ou Blaise Cendrars –, cada um deles explana as suas concepções sobre tradução, com um rigor técnico e teórico que chega a ser esmagador. Não por acaso, Richard Zenith pergunta a dado momento, num tom cândido carregado de ironia: “Mas vocês pensam em tudo isto quando estão a traduzir?”
[Publicado no suplemento 6.ª do Diário de Notícias]