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SOMBRAS, SONHOS E ELEGIAS

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Tratado de Umbrografia, de José Carlos Fernandes e Luís Henriques, Devir, 72 páginas.

José Carlos Fernandes (n. 1964) é de longe o mais prolífico e premiado dos autores portugueses de Banda Desenhada, com uma carreira reconhecida internacionalmente (sobretudo em Espanha e no Brasil). Depois de fazer a mão em fanzines, no início da década de 90, JCF impôs-se com um conjunto de mais de 30 títulos publicados a partir de 1993, em editoras como a Polvo, a Baleiazul ou a Devir. Com um traço não muito expressivo, o seu maior trunfo sempre esteve na qualidade das histórias que conta (tradicional pecha da BD nacional), num registo que se aproxima tanto da erudição de Jorge Luis Borges como da criatividade vocabular de Georges Perec, acrescido de um raro virtuosismo efabulatório e de um impecável domínio da língua.
Se dúvidas houvesse sobre o talento de JCF, a série Pior Banda do Mundo (de que já foram publicados quatro volumes) seria suficiente para as dissipar. Numa cidade sem nome, personagens bizarras são agentes de uma prodigiosa máquina ficcional, capaz de explorar toda a sorte de curto-circuitos na lógica do mundo, em curtas narrativas que nunca ultrapassam as duas páginas. Com o tempo, Fernandes aperfeiçoou um estilo imediatamente reconhecível mas que se arriscava a esgotar-se num futuro próximo. Por muito sólido que seja o experimentalismo de A Última Obra-Prima de Aaron Slobodj (2004) ou a elegância formal de Agência de Viagens Lemming (publicada em pranchas diárias pelo DN, em 2005), o certo é que tudo remete, de há uns tempos para cá, para o universo sépia e graficamente limitado da Pior Banda.
Enquanto não resolve este impasse estético, JCF encontrou uma solução de compromisso: em vez de ilustrar ele mesmo o imenso caudal de histórias que a sua imaginação produz, delega essa tarefa noutros autores. Este conceito (Black Box Stories), já testado por Miguel Rocha e Roberto Gomes, conheceu finalmente a edição em livro com Tratado de Umbrografia, um belíssimo álbum ilustrado por Luís Henriques (n. 1973) que augura desde já o mais risonho dos futuros para esta nova série.
Ao contrário de Fernandes, Henriques nunca repete uma atmosfera ou um enquadramento. Adapta-se visualmente a cada história, como um camaleão. E é essa a sua principal virtude. Na narrativa que dá título ao livro, consegue materializar a intangibilidade das sombras. Em Elegia Americana, remake de um trabalho antigo de JCF (On the Road, 1992), pairamos entre a aguarela e o negrume expressionista. A Substância de que são Feitos os Sonhos é de um onirismo diáfano. Em A Feira dos Políticos Manuseados, as colagens grotescas e berrantes magnificam a ironia do texto. De um vermelho obsessivo, Zuma, o Tatuador, pesadelo em que os homens sofrem na pele (literalmente) uma maldição, consegue ser arrepiante. E O Avanço do Deserto, a melhor das seis histórias, é a crónica difusa de um desvanecimento em que a própria realidade parece ter sido levada pelo vento e engolida pela areia.

[Publicado no suplemento 6.ª do Diário de Notícias]

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