PASTAS & PASTICHES

À Mesa com Kafka, de Mark Crick, Casa das Letras, 135 páginas.
Cordeiro com molho de funcho à la Raymond Chandler, Ovos com estragão à la Jane Austen, Sopa rápida de miso à la Franz Kafka, Bolo rico de chocolate à la Irvine Welsh, Tiramisu à la Marcel Proust, Coq au vin à la Gabriel García Márquez, Risotto de cogumelos à la John Steinbeck, Passarinhas desossadas e recheadas à la Marquês de Sade, Clafoutis Grandmère à la Virginia Woolf, Fenkata à la Homero, Frango vietnamita à la Graham Greene, Solha à la Dieppoise à la Jorge Luis Borges, Queijo gratinado sobre tostas à la Harold Pinter e Tarte de cebolas à la Geoffrey Chaucer. Eis o refinado menu que o inglês Mark Crick (n. 1962) apresenta no seu livro de estreia: o divertidíssimo e ultra-literário À Mesa com Kafka (Kafka’s Soup), que a Casa das Letras publicou no fim de 2006, em excelente tradução de Margarida Vale de Gato.
Fotógrafo profissional, Crick assume-se nesta obra como um artista completo. Para além de escrever cada história ao melhor estilo dos autores escolhidos (houve quem lhe chamasse “ventríloquo literário”), ele próprio se encarregou das ilustrações que acompanham os 14 contos, também elas um exercício de homenagem e pastiche: das latas Campbell de Warhol ao universo da BD, das gravuras setecentistas à exuberância pictórica de Frida Kahlo, de Jean Cocteau a William Hoghart, dos vitrais policromáticos às paisagens urbanas de Giorgio De Chirico.
Contudo, o principal interesse desta brincadeira erudita está mesmo nos textos, muito bem urdidos e reveladores de uma imensa paixão pela literatura de todos os tempos. Desde sempre um bibliófilo, Crick estudou os clássicos franceses no Lycée Condorcet (Paris) e Literatura Comparada na Universidade de Warwick. São talvez essas bases sólidas que explicam o surpreendente à-vontade com que salta de um autor para outro, com uma precisão e um requinte que raiam o virtuosismo.
Atente-se, por exemplo, no exercício de estilo que consiste em imitar Marcel Proust (ele próprio um notável autor de pastiches). Está lá tudo: o cappuccino tomado num café do Boulevard Beaumarchais a servir de alavanca (como a madalena do original) para o mecanismo da memória que o leva a certo fim de tarde, em torno de uma rapariga com “lábios de Botticelli” e do mais delicioso dos tiramisus; as frases muito longas, crescendo em espirais enquanto evocam, nas suas curvas, toda a atmosfera de uma época; aquele tom único que nos diz “isto é um texto de Proust”, quando na realidade não é.
Igualmente perfeitas são as abordagens a Jane Austen (com as relações afectivas e os “arranjos” replicados num mundo de ovos e ervas aromáticas), Kafka (o pesadelo tortuoso de quem recebe visitas inesperadas sem nada de jeito para oferecer), Irvine Welsh (cena de junkies decrépitos em ressaca de uma droga chamada chocolate), Sade (ode ao erotismo da gula, com uma Justine voyeuse), Jorge Luis Borges (variação gastronómica do célebre conto O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam) e Harold Pinter (peça curta em um acto que parece mesmo the real thing, tanto na crueza dos diálogos como nas meticulosas didascálias).
Dito isto, também há aproximações previsíveis: os lugares comuns policiais do costume em Chandler; o exotismo tropical saturado de calor e insectos que compromete a evocação de García Márquez; o enredo excessivamente culinário da parábola à maneira de Steinbeck, sobre a miséria da Grande Depressão; um decalque de Graham Greene que devia fazer lembrar o "americano tranquilo" mas não faz; ou o frouxo monólogo interior dedicado à autora de As Ondas e Mrs. Dalloway.
Corajoso, Crick experimenta ainda o fôlego homérico e as rimas de Chaucer. Mas nesses domínios, hélas, não há receita que o salve.
[Publicado no suplemento 6.ª do Diário de Notícias]