LIVROS DE AREIA (PERFIL DE UMA EDITORA)
Como muitas outras micro-editoras que surgiram nos últimos anos, a Livros de Areia é uma estrutura bicéfala, assente no empenho, na energia e na vontade de dois amigos de longa data: João Seixas e Pedro Marques. Projecto antigo, viu a luz em Maio de 2005 e concretizou-se uns meses mais tarde (em Novembro, com o lançamento de um pequeno livro de Rhys Hughes), mas as suas raízes remontam ao tempo em que ambos frequentavam o mesmo liceu, em Viana do Castelo.
Nessa altura, o máximo a que aspiravam era fazer o jornal da escola, fotocopiado entre duas aulas. Os grandes sonhos vieram depois. Ideias para uma BD em que João escreveria as histórias e Pedro se encarregaria dos desenhos; esboços de argumentos para filmes do Fantasporto; antevisões de uma editora a sério, onde pudessem publicar autores de culto ainda inéditos em Portugal. A realidade, porém, depressa os obrigou a fincar os pés na terra. Com o começo dos estudos universitários, em 1989, outras prioridades se interpuseram e embora tenham partilhado um quarto durante seis meses, no Porto, onde João frequentava a Faculdade de Direito e Pedro a de Letras, a colaboração mais estreita entre os dois ficou adiada.
A partir de 2000, já com escritório de advogado em Viana, Seixas volta a insistir com o amigo. “O modelo que tínhamos na cabeça sempre foi o da small press anglo-saxónica: aquelas editoras especializadas (como a PS Publishing, do Peter Crowther; ou a Cemetery Dance, do Richard Chizmar) que apostam em edições pequenas para uma minoria, com alguns exemplares de luxo para coleccionadores.” Neste caso, o problema era de escala. Porque se em Inglaterra “as minorias acabam sendo muito grandes”, o que permite viabilizar economicamente projectos exteriores à lógica do mainstream, em Portugal as minorias são mesmo minoritárias, para não dizer residuais. “Aqui não funciona”, resume Pedro Marques, o elemento mais céptico da dupla, que procura sempre adequar o interesse dos livros escolhidos à realidade do mercado editorial.
Justamente para entender melhor como funciona o mundo dos livros no nosso país, Marques frequentou, em 2003/2004, uma pós-graduação sobre o tema na Universidade Nova de Lisboa, que não chegou a terminar por razões financeiras. Com alguma experiência profissional (foi paginador e designer, além de ter escrito um livro sobre o programa Quark Express), queria aprender o máximo e encontrar, no fim, quem o empregasse. Mas depressa se apercebeu de que estava a viver uma ilusão. Por muito que os trabalhos (sobre o Apocalipse de Dürer ou as teses de McLuhan) o entusiasmassem, a verdade é que não existiam saídas à vista. “O que me desanimou foi constatar o desinteresse das editoras, a falta de propostas de estágio, a ausência de perspectivas.” E se antes já suspeitava das aberrações do nosso mercado editorial, agora confrontava-se directamente com elas.
A lista de problemas é interminável. Passa pela cegueira provocada pelas modas literárias, pela inexistência de estatísticas fiáveis que quantifiquem o sector e pelo paradoxo de Portugal ser o único país da Europa onde não vingam as edições baratas (de bolso ou paperback). Para João Seixas, “as nossas editoras trabalham para pessoas que não lêem, porque quem lê muito não se pode dar ao luxo de comprar livros tão caros”. Além de revelar nomes e títulos pouco conhecidos no universo da literatura de pendor fantástico, a Livros de Areia também procura diminuir este desfasamento. “Temos como meta que nenhum dos nossos livros ultrapasse a fasquia dos 15 euros”, garante Pedro Marques.
Cuidadosos na gestão dos seus recursos, de forma a não caírem em buracos financeiros insanáveis, os dois sócios correm alguns riscos mas evitam apostas que comprometam o futuro imediato da editora. A estratégia passa por limitar ao máximo o recurso ao outsourcing. Ou seja, tudo o que possa ser feito pela prata da casa, é feito pela prata da casa. Marques, que tem formação em webdesign, criou os sites, desenha os livros e pagina. Seixas trata dos contactos com agentes. E ambos trabalham quer o controlo editorial dos livros quer a promoção das obras e dos autores. Apesar de as coisas estarem a correr bem (à margem do catálogo próprio, editam igualmente peças com a chancela da Companhia de Teatro de Almada), o volume de negócios ainda não lhes permite uma dedicação exclusiva ao projecto. João continua a exercer advocacia e Pedro dá aulas de informática a alunos do ensino básico, em Viana do Castelo.
Excluindo o peso das deslocações a Lisboa e Porto, o facto de estarem na periferia não os incomoda minimamente. “Viana nem sequer consta da nossa equação. É só um cenário físico para um projecto imaterial.” Tanto assim que se consideram “virtualmente desconhecidos” numa cidade que tem todas as características claustrofóbicas dos meios pequenos. Comunicando com os clientes e contactos essencialmente através de vias electrónicas (e-mail, telemóvel), os dois sócios consideram que a Livros de Areia não tem um locus fixo. “A editora está onde nós estivermos.”
E onde eles estão, quase sempre, é na internet. O site, elegante e funcional, tem sido simultaneamente uma montra, um “cartão de visita”, um escritório e a porta de entrada para autores estrangeiros que se espantam com a qualidade gráfica da página – talvez porque esta não se limita à tradicional abordagem, mais ou menos atractiva, do catálogo (com nomes como os de Harry G. Frankfurt, Rhys Hughes, Jeff VanderMeer, Jerzy Kosinski, João Barreiros e Lázaro Covadlo; estando previstos, para 2007, Blanca Riestra, Richard Lupoff e Matthew Rossi). Entre outras pequenas preciosidades visuais, destacam-se os trailers, inaugurados com um pequeno filme de pouco mais de dois minutos, que resume a atmosfera do livro Futebol: sol e sombra, do escritor uruguaio Eduardo Galeano.
Apesar de se queixarem dos livreiros, “uma classe muito acomodada”, Pedro Marques e João Seixas não se arrependem de entregar directamente os seus livros numa rede de livrarias discriminada no site e que já chega a Luanda (Chá de Caxinde) e Macau (Bloom). Além de continuarem a crescer de forma sustentada em Portugal, um dos próximos passos que pretendem dar, dentro de dois ou três anos, é a edição de originais em inglês, directamente para o mercado anglo-saxónico. Ou seja, ignorar fronteiras e cumprir por fim a velha quimera da editora de nicho, com que Seixas sonhava na faculdade.
Na internet
Apesar de ter morada oficial em Viana do Castelo, a Livros de Areia apostou desde a primeira hora numa existência “deslocalizada”, tendo como ponto de partida o seu site na internet. Graficamente sofisticada, a homepage da editora apresenta as novidades do mês, reúne os PressKits sobre cada livro ou autor, anuncia lançamentos e explora os mais recentes instrumentos tecnológicos disponibilizados online: dos trailers de certas obras do catálogo (disponíveis no YouTube) aos pagamentos através do sistema PayPal (havendo também a possibilidade de fazer encomendas por e-mail). Há ainda uma lista de todas as livrarias e pontos de venda onde a editora está representada, com fotos e contactos de algumas delas. O site ainda não é bilingue, mas prevê-se para breve uma versão em inglês.
Quanto ao blogue, actualizado quase diariamente, alterna os posts sobre a estadia no nosso país dos vários autores “da casa” com reflexões sobre o mundo dos livros e a cultura em geral.
[Publicado na edição de ontem do suplemento 6.ª do Diário de Notícias]