LIVROS
Eu recebo muitos livros. Excepcionais, razoáveis, medianos, medíocres (a escala completa). Enviados por boas editoras, por editoras cuja simples existência ignorava e por diligentes autores obscuros que tentam a sorte, com uma convicção quase sempre inversamente proporcional ao talento.
Na minha secretária, por entre os livros que se encontram nas livrarias, há coisas inverosímeis. Por exemplo, um romance intitulado Planeta Joyce 8, em que são personagens o Matemático H30, o Físico R4 e o Informático E11, além do Avião F5, do Malmequer 9 e da Estrela 4000 b, perdidos em diálogos intermináveis. Ou livros de poesia, às carradas. Obras gloriosamente más, como Íntimos Afectos, de José-António Chocolate, e Alvos na Planície Encharcada, de Gilson Alves.
Não me interpretem mal. Eu respeito a vontade de expressão estética de toda a gente, mesmo das pessoas que escrevem versos como «Um eriçar de pêlos no espargir da massa» (Gilson Alves) ou «Quando a imaginação / adormece no limbo esquálido / do tempo masmorrecido» (J.-A. Chocolate). Mas sempre que os vejo, a estes livros, no meio das pilhas de papel que crescem na minha secretária como os arranha-céus em Hong Kong, sinto-me não apenas cúmplice da desflorestação trágica da Amazónia (culpa banal) como de um sistema que alimenta as ilusões literárias de pessoas que teriam, estou certo, formas muito mais úteis de empregar o seu tempo e o seu empenho.
Comments
O que esses senhores se esquecem é que para escrever poesia não chegam palavras caras e sentimentos bonitos/melancólicos. É preciso ler muitos poetas, muitos poemas. Compreender a "mecânica" por trás da obra de outros poetas. Ler os seus ensaios. As suas opiniões. Incorporar isso, escrever muito e não confiar em resultados fáceis. Desse muito, um bocadinho será publicável. O resto, interessa apenas aos amigos.
Mas isto dá trabalho. E trabalho é exactamente aquilo que a maioria das pessoas não quer ter.
Posted by: João Ferrão | março 26, 2007 05:32 PM
Caro João Ferrão, mas «incorporar isso» não será apenas incorporar os truques e vícios de outros? Longe de mim defender poetas obscuros, mas lembro o senhor cummings, que era tido pelos críticos como praticamente analfabeto e que viu alguns dos seus livros serem rejeitados pelas editores.
Mas, claro, isto vem de um homem cujo maior elogio que recebeu foi «parece a poesia erótica de uma Natália Correia depois de uma mudança de sexo e de ter tomado o elixir da juventude.»
Um abraço,
Tiago.
Posted by: Tiago Galvão | março 26, 2007 08:04 PM
Seja como for, as pessoas enviam livros para serem apreciados por alguém que respeitam. E só deviam ser mencionados publicamente se tivessem algum valor. Assim é feio. E tu, Silva, também não és nenhum Ezra Pound.
Posted by: Anónimo | março 26, 2007 09:18 PM
José António Chocolate existe mas nunca escreveu nenhum livro. É óbvio que Gilson Alves não existe. No Dicionário de Novos Autores (Texto Editora) é feita referência a uma obra que um tal Gilson T. Alves teria publicado em 1999. Descobriu-se que um dos autores do Dicionário decidiu pregar uma partida aos leitores. José Mário Silva é, provavelmente, mais uma das vítimas do logro.
Posted by: Bruno Vieira Amaral | março 26, 2007 09:37 PM
Citando T.S. Eliot (esse sim, um Poeta): "Immature poets imitate; mature poets steal; bad poets deface what they take, and good poets make it into something better, or at least something different."
Caro tiago, sinceramente acho que nada nasce de nada. Um poeta não pode ser um bom poeta se não tiver um sólido conhecimento do que foi anteriormente feito. É claro que é preciso um toque de génio e originalidade, mas só isso não chega. Tal como diz Eiot, um bom poeta torna o que existiu antes, em algo melhor. Penso (se não estou em erro) que o Harold Bloom defendeu uma teoria parecida.
Quanto a cummings (poeta que também admiro), basta ver que no início foi imensamente influenciado pelos imagistas (Amy Powell principalmente) e por outros modernistas, nomeadamente Ezra Pound. Além disso conviveu com os dadas e os surrealistas e até eu seria um bom poeta, se convivesse com os dadas. :)
Quanto a José António Chocolate, uma rápida pesquisa no Google remete-nos para a apresentação do livro que o autor fez em Setúbal (se não estou em erro). Até houve música e enchidos! Quanto ao Gilson Alves, houve um médico com esse nome que publicou na Minerva e até se queixou à RTP de que teve de pagar a sua edição. É só procurar no Google. :)
Posted by: João Ferrão | março 26, 2007 10:10 PM
o chocolate existe e já escreveu alguns livros. eu já conheci o chocolate, sou familiar de uma pessoa que o conhece muito bem e já tive com livros dele na mão. quanto ao gilson, não conheço.
Posted by: hmbf | março 27, 2007 12:20 AM
onde se lê tive com livros dele na mão leia-se, obviamente, estive com livros dele na mão ou tive livros dele na mão... :) posso acrescentar que o chocolate é de setúbal e, se bem me lembro, leccionava filosofia.
Posted by: hmbf | março 27, 2007 12:23 AM
"um sistema que alimenta as ilusões literárias"
Acho que faz lindamente em não levar a mal as pessoas sem talento que lhe enviam os seus livros: afinal, elas limitam-se a pensar,"Eh pá, se o sistema funciona para ele também pode funcionar para mim...". E parece-me um raciocínio perfeitamente lógico e razoável... Provavelmente não concorda comigo.
A propósito, o chinês do "post" abaixo tem cara de atrasado mental.
Posted by: Mr. de Saint-Sucette | março 27, 2007 01:33 AM
Anónimo:
Eu sei que não sou nenhum Ezra Pound (no campo ideológico, ainda bem), nem sequer outro tipo de poeta menos brilhante. E nunca falaria destes livros numa página de jornal (até por causa da história das árvores-mártires da Amazónia). Mas assim pelo menos têm um eco, que sempre é melhor do que o silêncio absoluto.
PS- Quanto à questão de "serem apreciados por alguém que respeitam", digo apenas que só um dos três livros vinha autografado (e não de forma pessoalizada).
Posted by: José Mário Silva | março 27, 2007 11:20 AM
Engana-se, Mr. de Saint-Sucette. Concordaria consigo sobre isso de o sistema se aplicar a mim, acaso alguma vez tivesse alimentado quaisquer ilusões literárias. Felizmente, não alimentei nem alimento. E consigo viver sem o ferrete da frustração.
Posted by: José Mário Silva | março 27, 2007 11:26 AM
Olhe, ainda bem que não alimenta "ilusões literárias".
O que não seria se alimentasse...
De qualquer modo (é jornalista, não?), deveria ter escrito "caso alguma vez" e não "acaso alguma vez".
Mude de profissão, homem! Não é crítico quem quer - e você, se quer, não pode.
Posted by: mtatento | março 28, 2007 09:21 PM
Van Gogh não vendeu um único quadro.
É preciso um toque de génio para ir numa direcção nova. Se não acreditam, fiquem atentos e, talvez, estejam, daqui à 50 anos, presentes para presenciar o que ora te explico. O quem será esses que ficam mergulhados nos livros dos outros, aborrecidos e trauteando, como podem, por entre as páginas de outras mentes. Será seguro dizer-se que esses são o comum, o ordinário, o patético. Já leu o Nietzche? Sabe o que diz daqueles que o lêm? Non legor, non legar.
Eu, pessoalmente, nunca publiquei nada. Porém, não estou interessado em ler ninguém, nem quero que me leia. Sou eu próprio o criador, o leitor e o Juiz supremo. Não sabes nada do que eu estou a falar, não JMS? Nem nunca poderias saber. És o ordinário comissariado, com pena na mão e nâuseas de letras que leu de outros e contente de os vomitar, depois em palavras, ciente de que ler muitos OUTROS FARÁ DE MIM ALGUÉM. Podias responder-me se te consideras oui se te considerarias um bom ou mau escritor (caso não tenhas nada publicado. Como já disse-te não leio ninguém nem quero ser lido. Logo não faço a mínima ideia de quem sejas)? Ou é-te indiferentem, nºao queres ser, nem tens que ser ou almejas ser? Ou talvez sejas um seguidor, aquele que adora os outros e detesta-se a si próprio. Pensando melhor, estou a tentar dizer-te que talvez tenhas medo de te expor em palavras, não aguentarias uma crítica e, portanto, estás do outro lado da margem, ou mesmo à margem. Tens razão, há maus poetas. Mas ser poeta não é algo que consigas parir da tua ignomínia. Conheço o Gilson. Ao leres o livro dele pela 20ª vez, e principalmente, o último poema do livro, ficarás a pensar que, talvez esse sabe mais que nós OS OUTROS. Se o conhecesses, nem que fosse por dois segundos, terias talvez uma revelação. Mas não tens de saber. Cuidado não é o que muitos da tua espécie têm no bolso. Acabam por ser limpos da história como papel higiénico usado e não reciclado. Concelho: arranja um dicionário quando quizeres ler o livro pela 2ª e outras vezes, JMS.
Posted by: lepra | março 29, 2007 03:45 PM
Tanto ódio, tanta ignorância, tanto tiro ao lado. Não sei se existe uma associação de Idiotas Anónimos mas o que mais há por aí são anónimos idiotas, a falar do que não sabem e a insultar à toa.
Resultado: já começo a ter saudades do tempo em que as caixas de comentários não funcionavam. Era mais triste? Sim. Mas também era mais higiénico.
Posted by: José Mário Silva | março 29, 2007 04:05 PM
Isto assim é muito mais divertido!
Até já há aconselhamento para usar dicionários da parte de quem dá erros seguidos...
De qualquer modo, se essas pessoas realmente existem, seria razoável usar nomes fictícios.
Posted by: cj | março 30, 2007 12:36 PM
Outras discussões e correcções à parte, gostaria de lançar a todos os leitores do blog um desafio, para que julguem por eles próprios. No final destes versos que seleccionei do livro do Gilson Alves, gostaria que todos os que os tiverem lido, apontem, aqui, as suas opiniões. Estes e todo o livro não são nada míseros versos, garanto-vos. O problema é que estamos numa sociedade onde podemos transformar Tonys Carreiras e todo o rebotalho pimba e, muitos outros tristes noutros redutos artísticos, inclusive na Literatura, em deuses e coisas destas, em fracassos. Pergunto ao JMS se conseguiria fazer melhor do que os versos que agora partilho convosco:
A folha
Rouba o relógio o que não lhe deram
Enquanto a folha vai balouçando.
Mil balas no chão se cruzaram:
Ah, querida. Até quando, até quando?
Sim! O quando nas jaulas da física
E no arco sobre a terra sondando.
Lamenta o Outono que já não fica
A folha, querida, até quando
Se libertar e atingir o chão.
Esquece
Esquece!
O mundo vale ao menos um instante.
Vale pela beleza que tem
Da gente entrar num carrossel,
Ficar pendurados no tempo,
Dispersos,
Como pó de giz.
Neve
Sempre esbaforida chega a neve.
Decrépita verdade. Fria
A noite que é neve a derreter.
Neve. Ainda não sei como se escreve:
Se com folhas secas do caule esguio,
Se com as lufadas que embatem
No teu corpo frio.
Mal (Me) Quer
Seria este mal meu próprio sequestro
Do campo onde floria o nosso canteiro?
O mal que guardas segue-me de perto
Até no Estio ou no cimo do outeiro.
Mal (Me) quer a mim, sem ser
Ainda meu adubo ou meu rebento.
Mal mar, mal monte, ao meu ver,
Garganta sufocada de um céu cinzento.
Não te queria quando teu mel vinha beber.
Não te amava ainda, ó flor singela.
Mesmo meu mal vou-te fazer,
De mim completo, a valsa mais bela.
Deste mal não me sei esconder.
Antes que o cheiro te desnuda
Atiro-me ao rio, para quando o mal vier
Não te ter, meu botão de malmequer.
1 adjectivo
Se percluso no queimar de um archote
Salta a arder todo sorridente.
Se tornado pedaço do verso de um mote
Reluz-se mal acabado todo reticente.
Mas já é música se bem retocado
No formar vagaroso de uma figura.
Também fere o seu brilho se mal focado
Na ausência de uma poção de ternura.
É gigante na sua altura
E fortuna se em boas mãos cativo.
Olho agora pasmado à tua figura:
Só te falta um adjectivo.
Toupeira
Vai violando o chão, parafuso,
Planando nesta tua viagem cega.
Sugando tudo, perverso intruso,
Vai furando na tua queda.
Arrasa todo o mel deste prado,
Submerge a terra às tuas garras
E dá ao vento as suas próprias amarras
Enquanto o espaço falece ao teu lado.
Por estes espaços ondulados,
Ladeado do prazer faminto,
Sangue, artérias e carne esgarçados,
Vai minando o teu labirinto.
Nesta rude vertigem terrestre,
Há-de se ouvir desta garra que fura
O grito diluído neste prado campestre
Ao embater na rocha dura.
Em ti todos os astros
Desisto se só consigo sonhar astros,
Refugiado permanente em toda a poesia.
Se não há mares e digo que há mastros,
Fazendo do mundo mera utopia.
O melhor é fazer de ti um corpo celeste,
Essa alva face a lua verdadeira,
Todo o firmamento a tua pele trigueira,
Chamar aos teus olhos o globo terrestre.
Refeito o universo na planície estrelar,
Deduzo na tua retina a chama enlameada.
Sobem os meus dedos que parecem alcançar
Todos os astros da tua pele arrepiada.
Só assim temos os sóis bem perto
E possuo órbitas sem dizer-te adeus.
Não só dos pássaros é o luar deserto
Derramado no céu dos olhos teus.
Pôr as mãos na face de deus
Assim, sei que não sou nada
E vou-me aliviado e contente.
É honroso não ver o fim da estrada,
Ver consumada a natureza da gente.
Abutre de um sarcasmo afónico
Aguardando o restolho sujo da geada,
Ceifo-te cá dentro em tom supersónico,
Entrego-te nas mãos do nada.
A Tua mão a minha devolve
À tua face na estação tardia.
Nos teus preceitos meu bafo dissolve
Com os anos que rasgam sem anestesia.
Na tua face encosto a mão fria
Que instigas ao teu banquete
De epitáfios plantados à luz do dia.
O tempo 2
Atingida, cai por terra uma crisálida.
Cinzas mortas da antiga primavera
Batalham a febre da flor pálida
Que a de então compusera.
Nas chagas quentes de um verão raivoso,
Avistada a água, seca a ribeira.
Mortas as folhas de um Outono carinhoso,
Cai a derradeira.
Identidade
O cheiro da terra em que piso,
A brisa que me invade as narinas,
O inquieto tilintar do guiso,
O esvoaçar das aves bailarinas.
A muitas coisas, tanto faz
Se estão lá fora
Ou se as trago comigo.
Existir
De segundo em segundo sobre os teus olhos
Morre tudo no tic-tac profundo.
Desse vir e bater dá-me os teus olhos
Que os segundos me fazem moribundo.
Existir é sempre o que há-de vir.
Morre de pressas o presente…
Existir é ver-te dormir
E ter o tempo à minha frente.
Existir é amar e tudo perder,
Ter em mim o teu aflito respirar
Sobre o nosso êxtase a morrer.
Existir é não poder voar.
Morre depressa o tempo,
De pressas morre o presente.
Existir é sentir o vento
E não deixar de o agarrar.
Os homens não são livres
Há no exangue deserto
Uma ameaça: sendo a sede derrotada
Muralhas de um caminho descoberto,
As dunas são sede inventada.
Assim, no Homem, a liberdade:
(presa fácil na resina da vaidade)
Que abre caça à fome oferecida
Até que ela se exaure.
Os homens não são livres.
Não se negoceia nenhuma lei
Que se acha mal descoberta,
Tanto quanto sei.
Até extinguiram a liberdade
(flor arrancada inda inteira da mocidade).
Veleiro
Vai abraçar, veleiro, o teu porto seguro.
Tens rota, um mapa sobre as águas,
Mesmo pequeno fizeste-te maduro,
Aprendeste a renovar as tuas tábuas.
Já sei de cor o caminho dos rios,
Aprendi a correr, a nascer, a voar,
Mas ao velho cansado de olhos frios,
Sabe-se lá onde desagua o mar.
O malmequer, por exemplo, para mim, é um dos poemas mais belos da poesia portuguesa desde há anos. O Esquece é outra obra-prima. Quando leres A toupeira, pensa no Homem, se tal não te tinha ocorrido. E mais e mais e mais. Ademais o poema a que se refere a crítica mordaz não foi exposto aqui na sua plenitude. Que os caros leitores o leiam no seu todo, e não pretendendo colocá-lo aqui, podem comprar o livro como eu fiz e lê-lo como a muitos outros e perceberão que não estou aqui a defender um escritor, mas sim uma obra que me chegou às mãos de mansinho e, que agora tenho como uma preciosidade na minha colecção. Neste momento o autor deve estar muito ocupado com os seus doentes e, talvez, nem chegue a saber desta discussão (pelo menos por mim, até porque não somos íntimos e também, pelo que sei, não gosta de falar desta sua outra persona).
Posto todas as discussões e análises possíveis, o que nos resta será discutir meandros estilísticos e estilos expressionistas. Seja como for, estou ansioso para ler novos poemas deste autor, se ele os quiser publicar. É um poeta fantástico, na minha humilde opinião.
Carlos Martins Lepra (ortónimo).
Posted by: Lepra | março 31, 2007 07:12 PM
Caríssimo João Ferrão, não discordo de nada. O que eu não gosto é dessa ideia de ler para aprender, ler para melhorar. Prefiro a leitura preguiçosa, por gosto, para estourar tempo. De resto, concordo com tudo.
Caríssimo José Mário Silva, «tanto ódio, tanta ignorância, tanto tiro ao lado»? Por amor de Deus, vê-se logo que é falta sexo.
Posted by: Tiago Galvão | março 31, 2007 08:56 PM
Ó Lepra, a mim não me suscitam grande interesse, mas o 1º v de "Toupeira", embora mesmo nesse bem articulado verso o "vai violando" suscita algum exagero de poesia e uma falta de naturalidade que pervade um pouco todos os poemas. Acho que há um esforço visível no autor em escrever poemas, se me faço entender.
Posted by: Belzebu Catita | abril 2, 2007 05:29 PM
Caro Tiago Galvão, mesmo lendo por prazer (e é mesmo um prazer!), está automaticamente a apreender conhecimentos e influências do que tem à frente. Quer goste, quer não. É inevitável.
Mas sim, leitura por frete, só mesmo os livros da faculdade. E é quando não têm mesmo interesse nenhum.
Posted by: João Ferrão | abril 2, 2007 07:26 PM
Está bem. Se bem entendo, qualquer letrado/iletrado, em qualquer parte do mundo, pode dizer o que bem entende de qualquer génio consagrado, sem mudar o valor de nada do que foi feito. Isto é, qualquer um pode dizer o que bem entender dos versos de qualquer poeta ou prosador mas, o valor da obra é indelével aqui e agora ou noutro tempo qualquer. Todos podem dizer o que bem entendem do que bem entenderem.
No entanto, atiro-te para aqui um dado que decerto desconheces: o livro, todo ele foi escrito quando o autor tinha 17 e no início dos seus 18 anos, segundo o prefácio e a data dos poemas e tão-somente, a primeira obra do autor. Penso que será dois anos mais velho que eu actualmente. Portanto, deve ter 24 anos. Quantos poetas lograram alcançar tamanho feito nessa idade. Primeira obra, com 17 anos! Todos devemos admitir que se esse autor escreve assim com essa idade, então deve estar a chegar algo de extraordinário à poesia portuguesa. Eu próprio já li muitos escritos, muitos versos de muitos autores consagrados actualmente quando tinham a mesma idade e, de maneira alguma, o que eu li daqueles é superior ao que eu descobri desde autor. Daria muitos exemplos, mas parece-me que não precisam de elucidações nesse campo.
Talvez seja uma fixação minha, mas não deixo de afirmar que isto é poesia de alto nível. Não sei, no entanto, definir “nível” aplicado a obras literárias. Como o autor mesmo diz no seu magnífico prefácio, só a história julga benfeitores e malfeitores da humanidade, muitas vezes a “boa obra” surge quase como um golpe de sorte e muitos vezes a história e as suas percepções são totalmente aberrantes. Olhemos o que aconteceu com o Salazar no nosso país. Seria preciso fazer pior na história de um país para merecer o título de melhor personalidade desse país, a frente dos nossos génios F. Pessoa, J. Saramago e muitos e muitos outros? Essa da boa obra e má obra é uma treta e basta que o povinho esteja embriagado para confundirem tudo e transformarem asnos em cisnes. É preciso muito mais que qualidade para entrar nas boas graças da história ou não seja mesmo a qualidade para aqui chamada. Mas penso que aquele não é o que mais importa para um escritor. Parece que já tinha previsto essa pequena discussão em relação ao seu livro. Leiam o prefácio e saberão do que eu estou a falar.
Posted by: Lepra | abril 2, 2007 09:25 PM
"(...) há coisas inverosímeis. Por exemplo, um romance intitulado «Planeta Joyce 8» em que são personagens o Matemático H30, o Físico R4 (...) o Malmequer 9 (...) perdidos em diálogos intermináveis" (José Mário Silva, 17/3/2007).
É inverosímil para José Mário Silva esta identificação das personagens "perdidas em diálogos intermináveis". E porquê? Julgamos que esta posição só se justifica porque José Mário Silva não leu o romance. Se o tivesse lido (devagar) perceberia que este tipo de identificação é uma forma de satirizar uma sociedade para que caminhamos e em que tudo tende a ser matematizado, a ser robotizado. O romance passa-se num tempo futuro em que talvez já não se saiba dialogar, senão através da realidade virtual, isto é de um écrã de computador. É um écrã computacional o espaço em que decorre o romance. O diálogo é, por isso, aqui privilegiado, o que dá ao romance uma forma acentuadamente dramática (teatral).O escritor tem a liberdade de juntar vários géneros literários. Estamos no século XXI. O «Planeta Joyce 8» é uma sátira ao império da globalidade (tão em moda) que tudo subjuga e a que nada escapa. As pessoas obedecem sem espírito crítico, ou seja, sem usar a liberdade de pensar. No «Planeta Joyce 8» são os cientistas dos países pobres, que são capazes de usar o pensamento por si próprios. Por isso, querem destruir o carácter nefasto dos excessos da globalidade. Assim, o avião ou o malmequer, ao adquirirem a capacidade de pensar, são mais um meio usado para ridicularizar a decadência para que tende, neste contexto, o pensamento humano.
Posted by: Teresa Ferrer Passos | maio 9, 2007 09:51 PM