LEMBRAR OS ESQUECIDOS


O Cardeal Napellus, de Gustav Meyrink, trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo, FMR/Presença, 74 páginas.
O Amigo da Morte, de Pedro Antonio de Alarcón, trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo, FMR/Presença, 168 páginas.
Apesar de não lhe terem faltado, ao longo da vida, solicitações editoriais de todos os géneros, Jorge Luis Borges só aceitou coordenar uma única colecção de obras alheias: esta ‘Biblioteca de Babel’, antologia de pérolas mais ou menos obscuras da literatura fantástica e de terror, escolhidas a dedo com a colaboração de Franco Maria Ricci, durante uma estadia de dois meses na mansão familiar do designer gráfico, em Parma.
Além de seleccionar as obras, seguindo um critério que sobrepôs quase sempre predilecções pessoais e memórias afectivas à estrita qualidade literária, Borges escreveu curtos prefácios (quatro a cinco páginas) para cada um dos volumes, muito ao estilo dos prólogos que abrem os seus próprios livros, por norma textos elegantes e exemplares na difícil arte da sinopse. Mais do que lançar pistas sobre os contos escolhidos, interessou-lhe resumir a vida e a personalidade do escritor em causa, estabelecer qual o seu lugar na História da Literatura ou definir as circunstâncias biográficas que o conduziram (a ele, Borges) à descoberta destes universos ficcionais.
A introdução a O Cardeal Napellus, de Gustav Meyrink, primeiro volume da ‘Biblioteca...’ (projecto que a Presença em boa hora decicidiu trazer para Portugal), é um bom exemplo desse biografismo assumido. Borges começa por recordar a forma como, em 1916, decidiu aprender sozinho a língua alemã, lançando-se “com uma temeridade que ainda hoje me assusta” às impenetráveis páginas de Goethe, Kant e Heine, munido apenas de um dicionário breve inglês-alemão.
Depois de vencidos os obstáculos linguísticos, foi a vez do acaso entrar em cena, através de uma baronesa de “tímido sorriso” que lhe ofereceu um exemplar de Der Golem, a obra-prima de Meyrink. Chegado aqui, e depois de exibir com desprendimento a sua erudição, Borges justifica a escolha dos três contos (retirados do volume Fledermäuse/Os Morcegos) e ainda consegue evocar a carta em que Meyrink elogiou a sua tradução para castelhano de uma das histórias (“talvez por não conhecer bem a nossa língua”), além de lhe resumir a bibliografia e o percurso, de Viena (1868) a Starnberg (1932), na “margem de um lago, quase à sombra dos Alpes”.
A chave de leitura que torna mais claro o território de sombras e rituais mágicos do autor d’A Noite de Walpurgis, fica guardada para o último parágrafo. “Meyrink acreditava que o reino dos mortos penetrava no mundo dos vivos e que o nosso mundo visível era incessantemente invadido por outro mundo, invisível”, afirma Borges. E ao afirmá-lo resume o essencial dos três relatos que escolheu, porque cada um deles acaba por ser uma variação sobre o tema da permeabilidade do nosso mundo à ditadura dos espectros que manipulam os humanos, sem que estes se apercebam da sua escravidão.
O Cardeal Napellus decorre numa paisagem que parece saída de um quadro de Caspar David Friedrich: um castelo em ruínas, invadido por uma “vegetação asselvajada”, junto ao lago que se assemelha a um “olho verde-escuro cravado no céu”. É neste cenário ultra-romântico e nocturno que um grupo de quatro amigos, entre os quais o narrador, se confrontam com a terrível história de Hieronymus Radspieller, o misterioso hóspede que os acolhe naquele fim do mundo para onde foram a pensar em pescarias. Radspieller, que em tempos pertencera a uma seita mística adepta da auto-flagelação, dedicou décadas da sua vida à procura, com uma sonda, do fundo mais fundo do lago, supostamente inacessível por causa dos redemoinhos. Ao alcançar o impossível, cumpre-se o impulso que desde novo o “arrojava para longe das coisas do mundo” e a sua energia malsã explode, por entre aparições funestas do fundador da seita (o cardeal Napellus) e o culminar de uma maldição extraordinária, em que malignas flores azuis se alimentam de sangue como se fossem vampiros vegetais.
Igualmente fantástico mas literariamente mais conseguido é o segundo conto, J. H. visita a região dos Suga-Tempo, em que uma personagem sem idade, Johann Hermann Obereit, consegue o maior dos prodígios, ao “transpor o limiar da morte sem perder a consciência”. Do lado de lá, o que ele descobre é o horror absoluto: um lugar que é o reflexo do nosso mundo, habitado por “fantasmas-sósias” que se alimentam da espera e da esperança dos humanos, esses “corpos que parecem matéria, mas não passam de tempo coagulado”. Obereit pertence à escassa estirpe dos que conseguem fugir do “hálito pestilencial” da morte com um heroísmo inalcançável e perante o qual o narrador, neto falhado de um desses eleitos, se curva com um misto de devoção e terror. Por fim, Os quatro irmãos da Lua. Um documento leva ao paroxismo esta visão dantesca da humanidade escravizada por forças que a ultrapassam, imaginando-a nas mãos de uma confraria de selenitas, profetas de um apocalipse em que as máquinas se vingariam dos seus ingénuos criadores, prenunciado de alguma forma pelo eclodir da I Guerra Mundial.
Aos contos excessivos e desequilibrados de Meyrink, segue-se um volume com duas narrativas do escritor espanhol Pedro Antonio de Alarcón (1833-1891), um romântico tardio que quase ninguém lembra, muito por culpa de uma obra heterogénea e de um percurso político que o levou de “violento revolucionário” na juventude a “resignado conservador” nos seus últimos anos.
Apesar dos avisos indulgentes de Borges sobre os excessos no “uso do epíteto e da interjeição” por parte de Alarcón (a que acrescentaríamos uma certa tendência para o empolamento e a solenidade), O Amigo da Morte não deixa de ser uma bela surpresa. Em poucas palavras, é a história de um sapateiro que se torna amigo da Morte, valendo-se dessa amizade para ganhar (e perder logo depois) a mulher que ama mais do que tudo na vida, após rocambolescas aventuras que passam pela disputa da coroa espanhola, entre Filipe V e o seu filho Luís I, viagens fabulosas à volta do mundo até à casa da “ceifeira” (no Pólo Norte), culminando num tremendo Juízo Final que rebenta com o planeta Terra no ano 2316.
Ou seja, é uma delícia de ironia e humor negro, muitos furos acima da segunda história, A Mulher Alta, exercício pouco inventivo sobre um homem inteligente que se deixa dominar por um medo irracional. Medo alimentado pela imagem de uma velha que o assedia em ruas desertas, a altas horas da madrugada, e que tanto pode ser o Diabo como, mais uma vez, a Morte (já que aparece sempre antes de o informarem sobre o passamento de pessoas que ama).
Com afinidades temáticas evidentes mas estilos opostos, Meyrink e Alarcón representam a faceta mais macabra do gosto borgesiano pelo genéro fantástico. Em Abril, a colecção amplia-se com nomes mais consensuais: o italiano Giovanni Papini (O Espelho que Foge) e o norte- americano Henry James (Os Amigos dos Amigos).
Um sonho de Franco Maria Ricci
A história é contada por Alberto Manguel no livro Com Borges (Ambar, 2006). Certa vez, estando o ensaísta no apartamento em que o autor de Ficciones habitava, na Rua Maipú, em Buenos Aires, tocou à porta o carteiro. Nas mãos, trazia um enorme pacote com a edição de luxo da narrativa O Congresso, publicada em Itália por Franco Maria Ricci. Quando Manguel lhe descreveu os requintes gráficos daquele volume de grande formato, encadernado em seda negra e "com letras de ouro impressas num papel Fabriano azul feito à mão", Borges indignou-se: "Mas isso não é um livro, é uma caixa de bombons." E ofereceu-o logo ali ao carteiro que assistia, perplexo, à cena.
Mais do que os livros em si mesmos, a Borges interessava-lhe a literatura. Não era imune, porém, à amizade persuasiva de Ricci, esse dandy que encarava a edição como um exercício estético de amor pela forma, tanto como pelo conteúdo. Talvez por isso, aceitou a carta branca que o italiano lhe deu, em 1977, para criar uma colecção de literatura fantástica, baptizada com o título de um dos seus contos mais conhecidos: A Biblioteca de Babel.
Com um entusiasmo quase juvenil, Borges seleccionou e prefaciou 33 tomos com obras de H. G. Wells, Voltaire, Saki, Oscar Wilde, Robert Louis Stevenson, Franz Kafka, Edgar Allan Poe, Rudyard Kipling, Henry James, Herman Melville, entre outros.
São esses livros, publicados pela primeira vez em Itália e até este momento só traduzidos em França, que a Presença começa agora a editar, ao ritmo de cinco ou seis volumes por ano, reproduzindo fielmente (em cartolina cinzenta) as capas originais, com as suas magníficas ilustrações.
[Textos publicados no suplemento 6.ª do Diário de Notícias]
Comments
Esta colecção já existia - pelo menos parcialmente - em Portugal [e em português], com chancela da Vega. Abraço.
Posted by: francisco curate | abril 6, 2007 03:44 PM
Apesar da Ilha dos Mortos, aqui é Primavera.
Espero uma visita ao Odisseus.
Posted by: henrique doria | abril 7, 2007 01:07 PM
Obrigado pela memória bibliófila, francisco.
Posted by: José Mário Silva | abril 9, 2007 11:40 PM
A colecção apareceu também em espanha no princípio dos anos 80, editada pela Siruela.
Posted by: rui_david | maio 7, 2007 04:57 PM