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ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

Sangue Sábio, de Flannery O'Connor, tradução de Nuno Batalha, Cavalo de Ferro, 184 páginas.

Depois de Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, magnífico livro de contos que o suplemento 6.ª considerou o melhor livro de ficção estrangeira editado em Portugal no ano 2006, a Cavalo de Ferro prossegue a publicação de Flannery O’Connor com mais uma obra-prima: Sangue Sábio (1952), primeiro romance da escritora sulista que morreu vítima de lúpus aos 39 anos, em 1964, no auge das suas capacidades.
Como quase todas as histórias de O’Connor, este romance centra-se numa figura psicologicamente complexa, à deriva num mundo cheio de obstáculos, tentações e abismos, um lugar hostil onde acaba por não se conseguir encaixar. Hazel Motes é um rapaz de 22 anos, desmobilizado do exército, que chega à imaginária cidade de Taulkinham (Tenessee) com uma ideia fixa: explicar às massas que Jesus é uma mentira e a Redenção da humanidade um logro.
O primeiro dos 14 capítulos, tão perfeito e equilibrado que pode ser lido como um conto, apresenta as linhas de força essenciais do romance. Viajando de comboio, Hazel é forçado a dormir na parte de cima de um beliche, tão próximo do tecto que quase sufoca, como se estivesse dentro de um caixão. Talvez por isso, durante o sono evoca os enterros de familiares próximos (o pai, os irmãos mais novos, a mãe) e mergulha num delírio em que reencontra o avô, pregador austero que percorria os condados vizinhos no seu Ford, explicando o poder redentor de Jesus às almas duras como pedras.
Foi justamente contra este avô e a sua fé obstinada que Hazel se ergueu desde a infância. Ainda em criança, “já tinha dentro de si uma instintiva convicção, negra e profunda, de que a forma de evitar Jesus era evitar o pecado”. Depois, aos doze anos, surge-lhe uma visão do Messias, “movendo-se de árvore em árvore nos confins da sua mente, uma figura bruta e esfarrapada acenando-lhe para que desse meia volta e o seguisse para dentro da escuridão, onde não conseguiria ver bem onde punha os pés, onde poderia pôr-se a caminhar sobre água sem o saber e de repente perceber e afogar-se”.
Sangue Sábio é a história desse naufrágio, porque Motes, apesar de todas as tentativas de fugir ao Jesus interior, seja pela apostasia (criando uma igreja niilista) seja pelo pecado (do sexo com uma prostituta ao homicídio de um inocente), nunca conseguirá escapar ao seu apelo mais fundo – tornando-se, pelo menos para a autora (no prefácio à segunda edição, de 1962, que abre este volume), um exemplo de “integridade” e “liberdade”, se entendermos esta como um “mistério”.
Assim que se instala em Taulkinham, Hazel trava conhecimento com um pregador, Asa Hawks, e a sua filha bastarda, Sabbath Lily, que representam o lado negro da religião, usada como embuste para enganar tolos. Falso cego, Hawks é um pedinte disfarçado de glorificador da redenção divina. E é contra ele que Hazel, que todos confundem com um pregador por causa do seu fato azul coruscante e do chapéu de aba larga, cria a Igreja Sem Cristo, “ond’os cegos nã vêem, os coxos nã andam e o que ‘tá morto, morto fica”. O que ele procura é a única “verdade” (a de que não há nada em que valha a pena acreditar) e um “novo jesus” que não ande a “desperdiçar o sangue dele pra redimir as pessoas co’ele porque ele é todo homem e nã tem Deus nenhum dentro dele”. Sem local sagrado que o acolha, ele prega diante dos cinemas, em pé sobre a capota de um carro a cair de podre, com gestos largos e retórica trapalhona.
A restante galeria de personagens acentua o tom grotesco desta comédia negra, densa e por vezes visceral. Não faltam personagens patéticas, como Enoch Emery, o rapazola de 18 anos que guarda um portão do Jardim Zoológico e é dominado pela voz do sangue, que sabe mais coisas do que ele, guiando-o numa demanda espiritual que acaba por ser uma caricatura da via crucis do protagonista. Ou Onnie Jay Holy, que ao ver Hazel a falar em cima do automóvel “cor de ratazana”, para meia dúzia de espectadores indiferentes, se lembrou de “Jesus Cristo e Abraham Lincoln”, oferecendo-se desde logo para ser discípulo do Profeta. A recusa de Motes, que no fundo quer ser o único seguidor do seu credo, dará origem a um dos episódios mais divertidos do romance, quando Onnie, por vingança, cria a Santa Igreja de Cristo sem Cristo, culto gémeo com um pregador gémeo – um tal de Solace Layfield, que imita tanto o vestuário como a pose de Hazel e que há-de acabar mal.
Há ainda mulheres oblíquas e venenosas, um homem mirrado dentro de uma vitrina do museu (que Enoch julga ser a encarnação do “novo jesus”), um macaco gigante que é só mais um disfarce para o mal e muitas outras figuras bizarras que acentuam uma espécie de vertigem barroca, desconcertante e potenciadora da brutalidade do desfecho.
Mas não é no enredo, ou na arquitectura narrativa, que pressentimos a grandeza literária de O’Connor. É antes nos detalhes, no desenho preciso das atmosferas e na extraordinária capacidade de caracterizar, com um mínimo de elementos, uma personagem. Alguns exemplos: “O sorriso da senhora Watts era curvo e afiado como a lâmina de uma gadanha” (p. 47); “[Hazel] parecia uma dessas portas de armários dos filmes de mafiosos, onde alguém está lá dentro atrás da porta, atado a uma cadeira e com um pano na boca” (p. 67); “o rosto dele tinha um aspecto frágil, como se tivesse sido quebrado e os pedaços tivessem sido colados uns aos outros, ou como uma arma que ninguém sabe se está carregada” (p. 52).
À semelhança do que acontece nos contos, O’Connor consegue sempre trocar-nos as voltas. As tensões acumuladas explodem quando menos se espera. E é com um misto de espanto e pavor que assistimos à ascese final de Hazel, depois de eliminar o seu negativo, o reflexo da sua insensatez. Ao contrário de Asa Hawks, que se acobardou no momento da verdade, ele cega-se com cal e é na cegueira concreta, corolário de uma cegueira metafórica, que se reencontra e afunda, por entre ritos sacrificiais (andar com pedras nos sapatos, enrolar arame farpado à volta do peito) e o amor impossível da senhoria que assiste ao seu progressivo apagamento.
A tradução de Nuno Batalha, embora sem comprometer as subtilezas estilísticas de O’Connor, é por vezes algo baça e os critérios utilizados para transpor para a nossa língua o dialecto sulista (aproximando-o das entoações típicas dos alentejanos) são no mínimo questionáveis.

[Publicado no suplemento 6.ª do Diário de Notícias]

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