ELOGIO DO TRADUTOR
«O tradutor é desconhecido; está sentado no último lugar; vive, por assim dizer, de esmolas; aceita desempenhar as funções mais ínfimas, os papéis mais obscuros; "servir" é a sua divisa e não pede nada para si, tomando por toda a glória ser fiel aos mestres que escolheu, fiel até à anulação da sua própria personalidade intelectual. Ignorá-lo, recusar-lhe qualquer consideração, não o nomear, na maior parte das vezes, senão para o acusar, quase sempre sem provas, de ter traído o que queria interpretar, desdenhá-lo mesmo quando o seu trabalho nos satisfaz, é desprezar as qualidades mais preciosas e as virtudes mais raras: a abnegação, a paciência, a própria caridade, e a honestidade escrupulosa, a inteligência, a argúcia, os conhecimentos vastos, uma memória rica e aguda – virtudes e qualidades que podem, nalguns casos, faltar aos melhores espíritos, mas que nunca se encontram reunidas na mediocridade.»
[Excerto da primeira página de Sous l'invocation de Saint Jerôme, de Valéry Larbaud, citado por José Alberto Oliveira no texto de abertura do primeiro número, segunda série, da revista A Phala, Assírio & Alvim, 2007]