A BALEIA INATINGÍVEL

Depois de ter adaptado à cena outros romances clássicos, como o Werther de J. W. Goethe ou o Quixote de Cervantes, o encenador António Pires decidiu arriscar a transposição para teatro de uma das mais extraordinárias obras-primas da literatura norte-americana: Moby Dick, o livro publicado por Herman Melville em 1851, que começou por ser um flop, tanto de crítica como de público, só entrando relativamente tarde no cânone literário universal.
Uma das grandes originalidades do romance tem a ver com a sua estrutura narrativa complexa, pródiga em derivas, mudanças bruscas de estilo, histórias paralelas e longas passagens que em nada contribuem para o avanço da acção, antes se detendo na análise minuciosa de aspectos tão diversos como a vida a bordo dos baleeiros, as técnicas usadas pelos arpoadores ou a ecologia dos cetáceos (de resto não isenta de erros científicos grosseiros, como o de chamar “peixes” às baleias).
Se esta complexidade estrutural levanta bastantes obstáculos a uma adaptação cénica, não é menos certo que há em Moby Dick, tanto na curva ascendente do seu ímpeto trágico como na qualidade shakespeariana dos diálogos, um potencial dramatúrgico evidente. Mais, tendo em conta as verdadeiras didascálias que Melville espalha pelo texto, bem como os muitos monólogos e apartes das personagens, não é assim tão difícil imaginar que as tábuas do convés do Pequod se podem converter nas tábuas de um palco.
Optando por restringir os muitos enredos de Moby Dick a um só (o que nasce da sede de vingança do Capitão Ahab, obcecado com a captura da baleia branca que lhe arrancou uma perna), Maria João Cruz conseguiu preservar, quase intacto, o sopro de loucura colectiva que leva um conjunto de homens a respeitar o desígnio insensato do seu comandante, até à aniquilação final.
Por uma questão de economia dramática, há personagens suprimidas e outras fundidas em figuras-chave, como Stubb (José Airosa) ou Starbuck (Ricardo Aibéo), o único que tenta demover Ahab (Miguel Guilherme) da sua demanda, recorrendo a argumentos racionais e à memória dos prazeres da vida em terra. Menos feliz é o enxerto de uma narradora quaker (Maria Rueff), inexistente na obra de Melville, que articula as várias partes da história recorrendo ao tom da prosa original – ora descritivo, ora lírico – mas nada acrescenta, antes quebrando o ritmo do espectáculo com a sua toada monocórdica.
Contudo, o principal problema reside na encenação de António Pires: frouxa, baça, com pouco pulso a dirigir os actores e incapaz de aproveitar a cem por cento as engenhosas soluções cenográficas de João Mendes Ribeiro. Entre outras coisas, não se percebe por que motivo Pires insiste de início numa abordagem mais ligeira, com vários números musicais do estilo Broadway (para os quais o elenco não revela, sublinhe-se, o mínimo talento), optando logo depois por um registo quase oposto, alegórico e declamativo.
Os desequilíbrios são ainda mais notórios no que às interpretações diz respeito. Se José Airosa, Ricardo Aibéo e João Barbosa cumprem bem os respectivos papéis, Graciano Dias (Ismael) e Milton Lopes (Pip) revelam-se demasiado verdes, enquanto Miguel Borges (Queequeg) está claramente subaproveitado e Rui Morrison (vários capitães) parece um amador. Por fim, Miguel Guilherme assume o protagonista com galhardia e tenacidade, mas falta-lhe a vertigem bigger than life que esperaríamos do verdadeiro Capitão Ahab.
[Crítica à peça Moby Dick, que esteve em cena no Teatro São Luiz até 3 de Março, publicada no n.º 2 da revista Obscena]
Comments
baleias animais.
Posted by: vanessa | janeiro 31, 2008 08:47 AM