ARTE POÉTICA
Trocar o sublime ângulo recto
pelo prosaico ângulo raso
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Trocar o sublime ângulo recto
pelo prosaico ângulo raso
Tinha os dedos amarelos, aquele velho. E nem sequer era da nicotina.

À Mesa com Kafka, de Mark Crick, Casa das Letras, 135 páginas.
Cordeiro com molho de funcho à la Raymond Chandler, Ovos com estragão à la Jane Austen, Sopa rápida de miso à la Franz Kafka, Bolo rico de chocolate à la Irvine Welsh, Tiramisu à la Marcel Proust, Coq au vin à la Gabriel García Márquez, Risotto de cogumelos à la John Steinbeck, Passarinhas desossadas e recheadas à la Marquês de Sade, Clafoutis Grandmère à la Virginia Woolf, Fenkata à la Homero, Frango vietnamita à la Graham Greene, Solha à la Dieppoise à la Jorge Luis Borges, Queijo gratinado sobre tostas à la Harold Pinter e Tarte de cebolas à la Geoffrey Chaucer. Eis o refinado menu que o inglês Mark Crick (n. 1962) apresenta no seu livro de estreia: o divertidíssimo e ultra-literário À Mesa com Kafka (Kafka’s Soup), que a Casa das Letras publicou no fim de 2006, em excelente tradução de Margarida Vale de Gato.
Fotógrafo profissional, Crick assume-se nesta obra como um artista completo. Para além de escrever cada história ao melhor estilo dos autores escolhidos (houve quem lhe chamasse “ventríloquo literário”), ele próprio se encarregou das ilustrações que acompanham os 14 contos, também elas um exercício de homenagem e pastiche: das latas Campbell de Warhol ao universo da BD, das gravuras setecentistas à exuberância pictórica de Frida Kahlo, de Jean Cocteau a William Hoghart, dos vitrais policromáticos às paisagens urbanas de Giorgio De Chirico.
Contudo, o principal interesse desta brincadeira erudita está mesmo nos textos, muito bem urdidos e reveladores de uma imensa paixão pela literatura de todos os tempos. Desde sempre um bibliófilo, Crick estudou os clássicos franceses no Lycée Condorcet (Paris) e Literatura Comparada na Universidade de Warwick. São talvez essas bases sólidas que explicam o surpreendente à-vontade com que salta de um autor para outro, com uma precisão e um requinte que raiam o virtuosismo.
Atente-se, por exemplo, no exercício de estilo que consiste em imitar Marcel Proust (ele próprio um notável autor de pastiches). Está lá tudo: o cappuccino tomado num café do Boulevard Beaumarchais a servir de alavanca (como a madalena do original) para o mecanismo da memória que o leva a certo fim de tarde, em torno de uma rapariga com “lábios de Botticelli” e do mais delicioso dos tiramisus; as frases muito longas, crescendo em espirais enquanto evocam, nas suas curvas, toda a atmosfera de uma época; aquele tom único que nos diz “isto é um texto de Proust”, quando na realidade não é.
Igualmente perfeitas são as abordagens a Jane Austen (com as relações afectivas e os “arranjos” replicados num mundo de ovos e ervas aromáticas), Kafka (o pesadelo tortuoso de quem recebe visitas inesperadas sem nada de jeito para oferecer), Irvine Welsh (cena de junkies decrépitos em ressaca de uma droga chamada chocolate), Sade (ode ao erotismo da gula, com uma Justine voyeuse), Jorge Luis Borges (variação gastronómica do célebre conto O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam) e Harold Pinter (peça curta em um acto que parece mesmo the real thing, tanto na crueza dos diálogos como nas meticulosas didascálias).
Dito isto, também há aproximações previsíveis: os lugares comuns policiais do costume em Chandler; o exotismo tropical saturado de calor e insectos que compromete a evocação de García Márquez; o enredo excessivamente culinário da parábola à maneira de Steinbeck, sobre a miséria da Grande Depressão; um decalque de Graham Greene que devia fazer lembrar o "americano tranquilo" mas não faz; ou o frouxo monólogo interior dedicado à autora de As Ondas e Mrs. Dalloway.
Corajoso, Crick experimenta ainda o fôlego homérico e as rimas de Chaucer. Mas nesses domínios, hélas, não há receita que o salve.
[Publicado no suplemento 6.ª do Diário de Notícias]
Já não sou capaz de recordar as circunstâncias exactas em que rabisquei este "pequeno exercício", mas tenho uma vaga ideia de estar na esplanada do Kavana Dubrovnik, em Zagreb, diante da imponente estátua equestre de Ban Josip Jelacic, o herói croata que enfrentou os húngaros e que os ímpetos nacionalistas trouxeram para o coração da capital, depois da independência.
Lembro-me que estava de férias, passeava pelas ruas o desprendimento de quem se recusa a ser turista e bebia cafés com lentidão cerimonial, na vaga esperança de pressentir, pelo canto do olho, o fantasma da Mitteleuropa. Às tantas, armado em Breton ocioso, saiu-me aquilo. Uma brincadeira. Um jeu de mots inofensivo e com o seu quê de gratuito, como todos os jogos de palavras. Por exemplo, reparo agora que para muitos leitores Deus talvez não seja "o erro de paralaxe", mas antes "o abismo à nossa espera" ou a "sombra vertical". E para outros o poema será, não a "hesitação feliz", mas "a utopia dos dedos" ou a "porta entreaberta". Já para não falar no amor, que muitos prefeririam, estou certo, ver classificado como "estratagema subtil" ou "erro de paralaxe".
«O tradutor é desconhecido; está sentado no último lugar; vive, por assim dizer, de esmolas; aceita desempenhar as funções mais ínfimas, os papéis mais obscuros; "servir" é a sua divisa e não pede nada para si, tomando por toda a glória ser fiel aos mestres que escolheu, fiel até à anulação da sua própria personalidade intelectual. Ignorá-lo, recusar-lhe qualquer consideração, não o nomear, na maior parte das vezes, senão para o acusar, quase sempre sem provas, de ter traído o que queria interpretar, desdenhá-lo mesmo quando o seu trabalho nos satisfaz, é desprezar as qualidades mais preciosas e as virtudes mais raras: a abnegação, a paciência, a própria caridade, e a honestidade escrupulosa, a inteligência, a argúcia, os conhecimentos vastos, uma memória rica e aguda – virtudes e qualidades que podem, nalguns casos, faltar aos melhores espíritos, mas que nunca se encontram reunidas na mediocridade.»
[Excerto da primeira página de Sous l'invocation de Saint Jerôme, de Valéry Larbaud, citado por José Alberto Oliveira no texto de abertura do primeiro número, segunda série, da revista A Phala, Assírio & Alvim, 2007]

Em hindu, phala significa fruto. Fruto no sentido de resultado, recompensa, algo que se alcança depois de um esforço.
Em português, phala significa o mesmo. E também fénix, matéria que renasce das cinzas.
Pequeno exercício neo-surrealista
– O que é um anjo?
– Um equívoco divino.
– O que é uma carícia?
– A utopia dos dedos.
– O que é uma floresta?
– Uma sombra vertical.
– O que é o medo?
– Um abismo à nossa espera.
– O que é o amor?
– Uma porta entreaberta.
– O que é o tempo?
– Um estratagema subtil.
– O que é Deus?
– Um erro de paralaxe.
– O que é o poema?
– Uma hesitação feliz.
Zagreb, 12-04-2002


O Cardeal Napellus, de Gustav Meyrink, trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo, FMR/Presença, 74 páginas.
O Amigo da Morte, de Pedro Antonio de Alarcón, trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo, FMR/Presença, 168 páginas.
Apesar de não lhe terem faltado, ao longo da vida, solicitações editoriais de todos os géneros, Jorge Luis Borges só aceitou coordenar uma única colecção de obras alheias: esta ‘Biblioteca de Babel’, antologia de pérolas mais ou menos obscuras da literatura fantástica e de terror, escolhidas a dedo com a colaboração de Franco Maria Ricci, durante uma estadia de dois meses na mansão familiar do designer gráfico, em Parma.
Além de seleccionar as obras, seguindo um critério que sobrepôs quase sempre predilecções pessoais e memórias afectivas à estrita qualidade literária, Borges escreveu curtos prefácios (quatro a cinco páginas) para cada um dos volumes, muito ao estilo dos prólogos que abrem os seus próprios livros, por norma textos elegantes e exemplares na difícil arte da sinopse. Mais do que lançar pistas sobre os contos escolhidos, interessou-lhe resumir a vida e a personalidade do escritor em causa, estabelecer qual o seu lugar na História da Literatura ou definir as circunstâncias biográficas que o conduziram (a ele, Borges) à descoberta destes universos ficcionais.
A introdução a O Cardeal Napellus, de Gustav Meyrink, primeiro volume da ‘Biblioteca...’ (projecto que a Presença em boa hora decicidiu trazer para Portugal), é um bom exemplo desse biografismo assumido. Borges começa por recordar a forma como, em 1916, decidiu aprender sozinho a língua alemã, lançando-se “com uma temeridade que ainda hoje me assusta” às impenetráveis páginas de Goethe, Kant e Heine, munido apenas de um dicionário breve inglês-alemão.
Depois de vencidos os obstáculos linguísticos, foi a vez do acaso entrar em cena, através de uma baronesa de “tímido sorriso” que lhe ofereceu um exemplar de Der Golem, a obra-prima de Meyrink. Chegado aqui, e depois de exibir com desprendimento a sua erudição, Borges justifica a escolha dos três contos (retirados do volume Fledermäuse/Os Morcegos) e ainda consegue evocar a carta em que Meyrink elogiou a sua tradução para castelhano de uma das histórias (“talvez por não conhecer bem a nossa língua”), além de lhe resumir a bibliografia e o percurso, de Viena (1868) a Starnberg (1932), na “margem de um lago, quase à sombra dos Alpes”.
A chave de leitura que torna mais claro o território de sombras e rituais mágicos do autor d’A Noite de Walpurgis, fica guardada para o último parágrafo. “Meyrink acreditava que o reino dos mortos penetrava no mundo dos vivos e que o nosso mundo visível era incessantemente invadido por outro mundo, invisível”, afirma Borges. E ao afirmá-lo resume o essencial dos três relatos que escolheu, porque cada um deles acaba por ser uma variação sobre o tema da permeabilidade do nosso mundo à ditadura dos espectros que manipulam os humanos, sem que estes se apercebam da sua escravidão.
O Cardeal Napellus decorre numa paisagem que parece saída de um quadro de Caspar David Friedrich: um castelo em ruínas, invadido por uma “vegetação asselvajada”, junto ao lago que se assemelha a um “olho verde-escuro cravado no céu”. É neste cenário ultra-romântico e nocturno que um grupo de quatro amigos, entre os quais o narrador, se confrontam com a terrível história de Hieronymus Radspieller, o misterioso hóspede que os acolhe naquele fim do mundo para onde foram a pensar em pescarias. Radspieller, que em tempos pertencera a uma seita mística adepta da auto-flagelação, dedicou décadas da sua vida à procura, com uma sonda, do fundo mais fundo do lago, supostamente inacessível por causa dos redemoinhos. Ao alcançar o impossível, cumpre-se o impulso que desde novo o “arrojava para longe das coisas do mundo” e a sua energia malsã explode, por entre aparições funestas do fundador da seita (o cardeal Napellus) e o culminar de uma maldição extraordinária, em que malignas flores azuis se alimentam de sangue como se fossem vampiros vegetais.
Igualmente fantástico mas literariamente mais conseguido é o segundo conto, J. H. visita a região dos Suga-Tempo, em que uma personagem sem idade, Johann Hermann Obereit, consegue o maior dos prodígios, ao “transpor o limiar da morte sem perder a consciência”. Do lado de lá, o que ele descobre é o horror absoluto: um lugar que é o reflexo do nosso mundo, habitado por “fantasmas-sósias” que se alimentam da espera e da esperança dos humanos, esses “corpos que parecem matéria, mas não passam de tempo coagulado”. Obereit pertence à escassa estirpe dos que conseguem fugir do “hálito pestilencial” da morte com um heroísmo inalcançável e perante o qual o narrador, neto falhado de um desses eleitos, se curva com um misto de devoção e terror. Por fim, Os quatro irmãos da Lua. Um documento leva ao paroxismo esta visão dantesca da humanidade escravizada por forças que a ultrapassam, imaginando-a nas mãos de uma confraria de selenitas, profetas de um apocalipse em que as máquinas se vingariam dos seus ingénuos criadores, prenunciado de alguma forma pelo eclodir da I Guerra Mundial.
Aos contos excessivos e desequilibrados de Meyrink, segue-se um volume com duas narrativas do escritor espanhol Pedro Antonio de Alarcón (1833-1891), um romântico tardio que quase ninguém lembra, muito por culpa de uma obra heterogénea e de um percurso político que o levou de “violento revolucionário” na juventude a “resignado conservador” nos seus últimos anos.
Apesar dos avisos indulgentes de Borges sobre os excessos no “uso do epíteto e da interjeição” por parte de Alarcón (a que acrescentaríamos uma certa tendência para o empolamento e a solenidade), O Amigo da Morte não deixa de ser uma bela surpresa. Em poucas palavras, é a história de um sapateiro que se torna amigo da Morte, valendo-se dessa amizade para ganhar (e perder logo depois) a mulher que ama mais do que tudo na vida, após rocambolescas aventuras que passam pela disputa da coroa espanhola, entre Filipe V e o seu filho Luís I, viagens fabulosas à volta do mundo até à casa da “ceifeira” (no Pólo Norte), culminando num tremendo Juízo Final que rebenta com o planeta Terra no ano 2316.
Ou seja, é uma delícia de ironia e humor negro, muitos furos acima da segunda história, A Mulher Alta, exercício pouco inventivo sobre um homem inteligente que se deixa dominar por um medo irracional. Medo alimentado pela imagem de uma velha que o assedia em ruas desertas, a altas horas da madrugada, e que tanto pode ser o Diabo como, mais uma vez, a Morte (já que aparece sempre antes de o informarem sobre o passamento de pessoas que ama).
Com afinidades temáticas evidentes mas estilos opostos, Meyrink e Alarcón representam a faceta mais macabra do gosto borgesiano pelo genéro fantástico. Em Abril, a colecção amplia-se com nomes mais consensuais: o italiano Giovanni Papini (O Espelho que Foge) e o norte- americano Henry James (Os Amigos dos Amigos).
Um sonho de Franco Maria Ricci
A história é contada por Alberto Manguel no livro Com Borges (Ambar, 2006). Certa vez, estando o ensaísta no apartamento em que o autor de Ficciones habitava, na Rua Maipú, em Buenos Aires, tocou à porta o carteiro. Nas mãos, trazia um enorme pacote com a edição de luxo da narrativa O Congresso, publicada em Itália por Franco Maria Ricci. Quando Manguel lhe descreveu os requintes gráficos daquele volume de grande formato, encadernado em seda negra e "com letras de ouro impressas num papel Fabriano azul feito à mão", Borges indignou-se: "Mas isso não é um livro, é uma caixa de bombons." E ofereceu-o logo ali ao carteiro que assistia, perplexo, à cena.
Mais do que os livros em si mesmos, a Borges interessava-lhe a literatura. Não era imune, porém, à amizade persuasiva de Ricci, esse dandy que encarava a edição como um exercício estético de amor pela forma, tanto como pelo conteúdo. Talvez por isso, aceitou a carta branca que o italiano lhe deu, em 1977, para criar uma colecção de literatura fantástica, baptizada com o título de um dos seus contos mais conhecidos: A Biblioteca de Babel.
Com um entusiasmo quase juvenil, Borges seleccionou e prefaciou 33 tomos com obras de H. G. Wells, Voltaire, Saki, Oscar Wilde, Robert Louis Stevenson, Franz Kafka, Edgar Allan Poe, Rudyard Kipling, Henry James, Herman Melville, entre outros.
São esses livros, publicados pela primeira vez em Itália e até este momento só traduzidos em França, que a Presença começa agora a editar, ao ritmo de cinco ou seis volumes por ano, reproduzindo fielmente (em cartolina cinzenta) as capas originais, com as suas magníficas ilustrações.
[Textos publicados no suplemento 6.ª do Diário de Notícias]
Nem o tempo é clemente. A Primavera, uma praga.
Já não era sem tempo, Francisco, já não era sem tempo.
Na creche, a Alice ofereceu-me um calendário (com uma foto dela e a mãozinha impressa em tinta espessa). Um calendário. Prenda certeira.
A bibliofilia segundo os Belle & Sebastian (Wrapped Up in Books).
Eu recebo muitos livros. Excepcionais, razoáveis, medianos, medíocres (a escala completa). Enviados por boas editoras, por editoras cuja simples existência ignorava e por diligentes autores obscuros que tentam a sorte, com uma convicção quase sempre inversamente proporcional ao talento.
Na minha secretária, por entre os livros que se encontram nas livrarias, há coisas inverosímeis. Por exemplo, um romance intitulado Planeta Joyce 8, em que são personagens o Matemático H30, o Físico R4 e o Informático E11, além do Avião F5, do Malmequer 9 e da Estrela 4000 b, perdidos em diálogos intermináveis. Ou livros de poesia, às carradas. Obras gloriosamente más, como Íntimos Afectos, de José-António Chocolate, e Alvos na Planície Encharcada, de Gilson Alves.
Não me interpretem mal. Eu respeito a vontade de expressão estética de toda a gente, mesmo das pessoas que escrevem versos como «Um eriçar de pêlos no espargir da massa» (Gilson Alves) ou «Quando a imaginação / adormece no limbo esquálido / do tempo masmorrecido» (J.-A. Chocolate). Mas sempre que os vejo, a estes livros, no meio das pilhas de papel que crescem na minha secretária como os arranha-céus em Hong Kong, sinto-me não apenas cúmplice da desflorestação trágica da Amazónia (culpa banal) como de um sistema que alimenta as ilusões literárias de pessoas que teriam, estou certo, formas muito mais úteis de empregar o seu tempo e o seu empenho.

He Ting, 22 anos, um dos muitos chineses que falam em discurso directo no último (e magnífico) número da revista Colors, edição de Inverno 2006/2007. O tema é Pequim - Histórias de uma cidade.
Eis um link que se impunha há muito tempo.
Será que a carta enviada ontem pelo Secretário de Estado da Cultura a Paolo Pinamonti, director artístico do Teatro Nacional de São Carlos, dando-lhe conta do seu afastamento (e lida ao telefone pela secretária, meia hora antes do anúncio formal do novo director por parte da tutela), seguiu as vias normais? Será que foi registada e trazia aviso de recepção? Não sei. Mas que deve ficar registada, deve.
Onde havia terra firme, descobrir areias movediças.
As pessoas perguntam-me coisas. E eu não queria que essas coisas se pudessem perguntar.

Depois de ter adaptado à cena outros romances clássicos, como o Werther de J. W. Goethe ou o Quixote de Cervantes, o encenador António Pires decidiu arriscar a transposição para teatro de uma das mais extraordinárias obras-primas da literatura norte-americana: Moby Dick, o livro publicado por Herman Melville em 1851, que começou por ser um flop, tanto de crítica como de público, só entrando relativamente tarde no cânone literário universal.
Uma das grandes originalidades do romance tem a ver com a sua estrutura narrativa complexa, pródiga em derivas, mudanças bruscas de estilo, histórias paralelas e longas passagens que em nada contribuem para o avanço da acção, antes se detendo na análise minuciosa de aspectos tão diversos como a vida a bordo dos baleeiros, as técnicas usadas pelos arpoadores ou a ecologia dos cetáceos (de resto não isenta de erros científicos grosseiros, como o de chamar “peixes” às baleias).
Se esta complexidade estrutural levanta bastantes obstáculos a uma adaptação cénica, não é menos certo que há em Moby Dick, tanto na curva ascendente do seu ímpeto trágico como na qualidade shakespeariana dos diálogos, um potencial dramatúrgico evidente. Mais, tendo em conta as verdadeiras didascálias que Melville espalha pelo texto, bem como os muitos monólogos e apartes das personagens, não é assim tão difícil imaginar que as tábuas do convés do Pequod se podem converter nas tábuas de um palco.
Optando por restringir os muitos enredos de Moby Dick a um só (o que nasce da sede de vingança do Capitão Ahab, obcecado com a captura da baleia branca que lhe arrancou uma perna), Maria João Cruz conseguiu preservar, quase intacto, o sopro de loucura colectiva que leva um conjunto de homens a respeitar o desígnio insensato do seu comandante, até à aniquilação final.
Por uma questão de economia dramática, há personagens suprimidas e outras fundidas em figuras-chave, como Stubb (José Airosa) ou Starbuck (Ricardo Aibéo), o único que tenta demover Ahab (Miguel Guilherme) da sua demanda, recorrendo a argumentos racionais e à memória dos prazeres da vida em terra. Menos feliz é o enxerto de uma narradora quaker (Maria Rueff), inexistente na obra de Melville, que articula as várias partes da história recorrendo ao tom da prosa original – ora descritivo, ora lírico – mas nada acrescenta, antes quebrando o ritmo do espectáculo com a sua toada monocórdica.
Contudo, o principal problema reside na encenação de António Pires: frouxa, baça, com pouco pulso a dirigir os actores e incapaz de aproveitar a cem por cento as engenhosas soluções cenográficas de João Mendes Ribeiro. Entre outras coisas, não se percebe por que motivo Pires insiste de início numa abordagem mais ligeira, com vários números musicais do estilo Broadway (para os quais o elenco não revela, sublinhe-se, o mínimo talento), optando logo depois por um registo quase oposto, alegórico e declamativo.
Os desequilíbrios são ainda mais notórios no que às interpretações diz respeito. Se José Airosa, Ricardo Aibéo e João Barbosa cumprem bem os respectivos papéis, Graciano Dias (Ismael) e Milton Lopes (Pip) revelam-se demasiado verdes, enquanto Miguel Borges (Queequeg) está claramente subaproveitado e Rui Morrison (vários capitães) parece um amador. Por fim, Miguel Guilherme assume o protagonista com galhardia e tenacidade, mas falta-lhe a vertigem bigger than life que esperaríamos do verdadeiro Capitão Ahab.
[Crítica à peça Moby Dick, que esteve em cena no Teatro São Luiz até 3 de Março, publicada no n.º 2 da revista Obscena]
«Aquilo que os outros não dizem, nós sussurramos.»
[No blogue verde alface, a quem endereço parabéns atrasados pelas quatro primaveras.]
Abre e fecha. Abre e fecha. Como um olho que só piscasse muito de vez em quando.

Ela pode ter todos os defeitos do mundo, mas também tem uma virtude: a auto-ironia.
Escondem as feridas só para exibir, mais tarde, as cicatrizes.

Sangue Sábio, de Flannery O'Connor, tradução de Nuno Batalha, Cavalo de Ferro, 184 páginas.
Depois de Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, magnífico livro de contos que o suplemento 6.ª considerou o melhor livro de ficção estrangeira editado em Portugal no ano 2006, a Cavalo de Ferro prossegue a publicação de Flannery O’Connor com mais uma obra-prima: Sangue Sábio (1952), primeiro romance da escritora sulista que morreu vítima de lúpus aos 39 anos, em 1964, no auge das suas capacidades.
Como quase todas as histórias de O’Connor, este romance centra-se numa figura psicologicamente complexa, à deriva num mundo cheio de obstáculos, tentações e abismos, um lugar hostil onde acaba por não se conseguir encaixar. Hazel Motes é um rapaz de 22 anos, desmobilizado do exército, que chega à imaginária cidade de Taulkinham (Tenessee) com uma ideia fixa: explicar às massas que Jesus é uma mentira e a Redenção da humanidade um logro.
O primeiro dos 14 capítulos, tão perfeito e equilibrado que pode ser lido como um conto, apresenta as linhas de força essenciais do romance. Viajando de comboio, Hazel é forçado a dormir na parte de cima de um beliche, tão próximo do tecto que quase sufoca, como se estivesse dentro de um caixão. Talvez por isso, durante o sono evoca os enterros de familiares próximos (o pai, os irmãos mais novos, a mãe) e mergulha num delírio em que reencontra o avô, pregador austero que percorria os condados vizinhos no seu Ford, explicando o poder redentor de Jesus às almas duras como pedras.
Foi justamente contra este avô e a sua fé obstinada que Hazel se ergueu desde a infância. Ainda em criança, “já tinha dentro de si uma instintiva convicção, negra e profunda, de que a forma de evitar Jesus era evitar o pecado”. Depois, aos doze anos, surge-lhe uma visão do Messias, “movendo-se de árvore em árvore nos confins da sua mente, uma figura bruta e esfarrapada acenando-lhe para que desse meia volta e o seguisse para dentro da escuridão, onde não conseguiria ver bem onde punha os pés, onde poderia pôr-se a caminhar sobre água sem o saber e de repente perceber e afogar-se”.
Sangue Sábio é a história desse naufrágio, porque Motes, apesar de todas as tentativas de fugir ao Jesus interior, seja pela apostasia (criando uma igreja niilista) seja pelo pecado (do sexo com uma prostituta ao homicídio de um inocente), nunca conseguirá escapar ao seu apelo mais fundo – tornando-se, pelo menos para a autora (no prefácio à segunda edição, de 1962, que abre este volume), um exemplo de “integridade” e “liberdade”, se entendermos esta como um “mistério”.
Assim que se instala em Taulkinham, Hazel trava conhecimento com um pregador, Asa Hawks, e a sua filha bastarda, Sabbath Lily, que representam o lado negro da religião, usada como embuste para enganar tolos. Falso cego, Hawks é um pedinte disfarçado de glorificador da redenção divina. E é contra ele que Hazel, que todos confundem com um pregador por causa do seu fato azul coruscante e do chapéu de aba larga, cria a Igreja Sem Cristo, “ond’os cegos nã vêem, os coxos nã andam e o que ‘tá morto, morto fica”. O que ele procura é a única “verdade” (a de que não há nada em que valha a pena acreditar) e um “novo jesus” que não ande a “desperdiçar o sangue dele pra redimir as pessoas co’ele porque ele é todo homem e nã tem Deus nenhum dentro dele”. Sem local sagrado que o acolha, ele prega diante dos cinemas, em pé sobre a capota de um carro a cair de podre, com gestos largos e retórica trapalhona.
A restante galeria de personagens acentua o tom grotesco desta comédia negra, densa e por vezes visceral. Não faltam personagens patéticas, como Enoch Emery, o rapazola de 18 anos que guarda um portão do Jardim Zoológico e é dominado pela voz do sangue, que sabe mais coisas do que ele, guiando-o numa demanda espiritual que acaba por ser uma caricatura da via crucis do protagonista. Ou Onnie Jay Holy, que ao ver Hazel a falar em cima do automóvel “cor de ratazana”, para meia dúzia de espectadores indiferentes, se lembrou de “Jesus Cristo e Abraham Lincoln”, oferecendo-se desde logo para ser discípulo do Profeta. A recusa de Motes, que no fundo quer ser o único seguidor do seu credo, dará origem a um dos episódios mais divertidos do romance, quando Onnie, por vingança, cria a Santa Igreja de Cristo sem Cristo, culto gémeo com um pregador gémeo – um tal de Solace Layfield, que imita tanto o vestuário como a pose de Hazel e que há-de acabar mal.
Há ainda mulheres oblíquas e venenosas, um homem mirrado dentro de uma vitrina do museu (que Enoch julga ser a encarnação do “novo jesus”), um macaco gigante que é só mais um disfarce para o mal e muitas outras figuras bizarras que acentuam uma espécie de vertigem barroca, desconcertante e potenciadora da brutalidade do desfecho.
Mas não é no enredo, ou na arquitectura narrativa, que pressentimos a grandeza literária de O’Connor. É antes nos detalhes, no desenho preciso das atmosferas e na extraordinária capacidade de caracterizar, com um mínimo de elementos, uma personagem. Alguns exemplos: “O sorriso da senhora Watts era curvo e afiado como a lâmina de uma gadanha” (p. 47); “[Hazel] parecia uma dessas portas de armários dos filmes de mafiosos, onde alguém está lá dentro atrás da porta, atado a uma cadeira e com um pano na boca” (p. 67); “o rosto dele tinha um aspecto frágil, como se tivesse sido quebrado e os pedaços tivessem sido colados uns aos outros, ou como uma arma que ninguém sabe se está carregada” (p. 52).
À semelhança do que acontece nos contos, O’Connor consegue sempre trocar-nos as voltas. As tensões acumuladas explodem quando menos se espera. E é com um misto de espanto e pavor que assistimos à ascese final de Hazel, depois de eliminar o seu negativo, o reflexo da sua insensatez. Ao contrário de Asa Hawks, que se acobardou no momento da verdade, ele cega-se com cal e é na cegueira concreta, corolário de uma cegueira metafórica, que se reencontra e afunda, por entre ritos sacrificiais (andar com pedras nos sapatos, enrolar arame farpado à volta do peito) e o amor impossível da senhoria que assiste ao seu progressivo apagamento.
A tradução de Nuno Batalha, embora sem comprometer as subtilezas estilísticas de O’Connor, é por vezes algo baça e os critérios utilizados para transpor para a nossa língua o dialecto sulista (aproximando-o das entoações típicas dos alentejanos) são no mínimo questionáveis.
[Publicado no suplemento 6.ª do Diário de Notícias]
Literatura: imitação do abismo.

Fotografia de Raymond Depardon (série Errance)
«Digo-te uma coisa: a felicidade é aquilo que nunca sabemos onde está.»
Cinquentona com a mania de que é vamp (só porque fez uns retoques de cirurgia estética e recuperou parte dos shares perdidos), a RTP olhou-se ao espelho e vangloriou-se durante horas a fio, como se fosse a versão mais que perfeita da BBC. Há muito tempo que não espreitava uma festa de aniversário tão parola, tão ridícula, tão desavergonhada.

Tratado de Umbrografia, de José Carlos Fernandes e Luís Henriques, Devir, 72 páginas.
José Carlos Fernandes (n. 1964) é de longe o mais prolífico e premiado dos autores portugueses de Banda Desenhada, com uma carreira reconhecida internacionalmente (sobretudo em Espanha e no Brasil). Depois de fazer a mão em fanzines, no início da década de 90, JCF impôs-se com um conjunto de mais de 30 títulos publicados a partir de 1993, em editoras como a Polvo, a Baleiazul ou a Devir. Com um traço não muito expressivo, o seu maior trunfo sempre esteve na qualidade das histórias que conta (tradicional pecha da BD nacional), num registo que se aproxima tanto da erudição de Jorge Luis Borges como da criatividade vocabular de Georges Perec, acrescido de um raro virtuosismo efabulatório e de um impecável domínio da língua.
Se dúvidas houvesse sobre o talento de JCF, a série Pior Banda do Mundo (de que já foram publicados quatro volumes) seria suficiente para as dissipar. Numa cidade sem nome, personagens bizarras são agentes de uma prodigiosa máquina ficcional, capaz de explorar toda a sorte de curto-circuitos na lógica do mundo, em curtas narrativas que nunca ultrapassam as duas páginas. Com o tempo, Fernandes aperfeiçoou um estilo imediatamente reconhecível mas que se arriscava a esgotar-se num futuro próximo. Por muito sólido que seja o experimentalismo de A Última Obra-Prima de Aaron Slobodj (2004) ou a elegância formal de Agência de Viagens Lemming (publicada em pranchas diárias pelo DN, em 2005), o certo é que tudo remete, de há uns tempos para cá, para o universo sépia e graficamente limitado da Pior Banda.
Enquanto não resolve este impasse estético, JCF encontrou uma solução de compromisso: em vez de ilustrar ele mesmo o imenso caudal de histórias que a sua imaginação produz, delega essa tarefa noutros autores. Este conceito (Black Box Stories), já testado por Miguel Rocha e Roberto Gomes, conheceu finalmente a edição em livro com Tratado de Umbrografia, um belíssimo álbum ilustrado por Luís Henriques (n. 1973) que augura desde já o mais risonho dos futuros para esta nova série.
Ao contrário de Fernandes, Henriques nunca repete uma atmosfera ou um enquadramento. Adapta-se visualmente a cada história, como um camaleão. E é essa a sua principal virtude. Na narrativa que dá título ao livro, consegue materializar a intangibilidade das sombras. Em Elegia Americana, remake de um trabalho antigo de JCF (On the Road, 1992), pairamos entre a aguarela e o negrume expressionista. A Substância de que são Feitos os Sonhos é de um onirismo diáfano. Em A Feira dos Políticos Manuseados, as colagens grotescas e berrantes magnificam a ironia do texto. De um vermelho obsessivo, Zuma, o Tatuador, pesadelo em que os homens sofrem na pele (literalmente) uma maldição, consegue ser arrepiante. E O Avanço do Deserto, a melhor das seis histórias, é a crónica difusa de um desvanecimento em que a própria realidade parece ter sido levada pelo vento e engolida pela areia.
[Publicado no suplemento 6.ª do Diário de Notícias]
O que mais me impressiona no vídeo do post anterior: a timidez ostensiva de Andrei Tarkovsky.
Orson Welles, Robert Bresson e Andrei Tarkovsky em Cannes (1983).
Há muito tempo que não me entusiasmava assim com um blogue.
Como muitas outras micro-editoras que surgiram nos últimos anos, a Livros de Areia é uma estrutura bicéfala, assente no empenho, na energia e na vontade de dois amigos de longa data: João Seixas e Pedro Marques. Projecto antigo, viu a luz em Maio de 2005 e concretizou-se uns meses mais tarde (em Novembro, com o lançamento de um pequeno livro de Rhys Hughes), mas as suas raízes remontam ao tempo em que ambos frequentavam o mesmo liceu, em Viana do Castelo.
Nessa altura, o máximo a que aspiravam era fazer o jornal da escola, fotocopiado entre duas aulas. Os grandes sonhos vieram depois. Ideias para uma BD em que João escreveria as histórias e Pedro se encarregaria dos desenhos; esboços de argumentos para filmes do Fantasporto; antevisões de uma editora a sério, onde pudessem publicar autores de culto ainda inéditos em Portugal. A realidade, porém, depressa os obrigou a fincar os pés na terra. Com o começo dos estudos universitários, em 1989, outras prioridades se interpuseram e embora tenham partilhado um quarto durante seis meses, no Porto, onde João frequentava a Faculdade de Direito e Pedro a de Letras, a colaboração mais estreita entre os dois ficou adiada.
A partir de 2000, já com escritório de advogado em Viana, Seixas volta a insistir com o amigo. “O modelo que tínhamos na cabeça sempre foi o da small press anglo-saxónica: aquelas editoras especializadas (como a PS Publishing, do Peter Crowther; ou a Cemetery Dance, do Richard Chizmar) que apostam em edições pequenas para uma minoria, com alguns exemplares de luxo para coleccionadores.” Neste caso, o problema era de escala. Porque se em Inglaterra “as minorias acabam sendo muito grandes”, o que permite viabilizar economicamente projectos exteriores à lógica do mainstream, em Portugal as minorias são mesmo minoritárias, para não dizer residuais. “Aqui não funciona”, resume Pedro Marques, o elemento mais céptico da dupla, que procura sempre adequar o interesse dos livros escolhidos à realidade do mercado editorial.
Justamente para entender melhor como funciona o mundo dos livros no nosso país, Marques frequentou, em 2003/2004, uma pós-graduação sobre o tema na Universidade Nova de Lisboa, que não chegou a terminar por razões financeiras. Com alguma experiência profissional (foi paginador e designer, além de ter escrito um livro sobre o programa Quark Express), queria aprender o máximo e encontrar, no fim, quem o empregasse. Mas depressa se apercebeu de que estava a viver uma ilusão. Por muito que os trabalhos (sobre o Apocalipse de Dürer ou as teses de McLuhan) o entusiasmassem, a verdade é que não existiam saídas à vista. “O que me desanimou foi constatar o desinteresse das editoras, a falta de propostas de estágio, a ausência de perspectivas.” E se antes já suspeitava das aberrações do nosso mercado editorial, agora confrontava-se directamente com elas.
A lista de problemas é interminável. Passa pela cegueira provocada pelas modas literárias, pela inexistência de estatísticas fiáveis que quantifiquem o sector e pelo paradoxo de Portugal ser o único país da Europa onde não vingam as edições baratas (de bolso ou paperback). Para João Seixas, “as nossas editoras trabalham para pessoas que não lêem, porque quem lê muito não se pode dar ao luxo de comprar livros tão caros”. Além de revelar nomes e títulos pouco conhecidos no universo da literatura de pendor fantástico, a Livros de Areia também procura diminuir este desfasamento. “Temos como meta que nenhum dos nossos livros ultrapasse a fasquia dos 15 euros”, garante Pedro Marques.
Cuidadosos na gestão dos seus recursos, de forma a não caírem em buracos financeiros insanáveis, os dois sócios correm alguns riscos mas evitam apostas que comprometam o futuro imediato da editora. A estratégia passa por limitar ao máximo o recurso ao outsourcing. Ou seja, tudo o que possa ser feito pela prata da casa, é feito pela prata da casa. Marques, que tem formação em webdesign, criou os sites, desenha os livros e pagina. Seixas trata dos contactos com agentes. E ambos trabalham quer o controlo editorial dos livros quer a promoção das obras e dos autores. Apesar de as coisas estarem a correr bem (à margem do catálogo próprio, editam igualmente peças com a chancela da Companhia de Teatro de Almada), o volume de negócios ainda não lhes permite uma dedicação exclusiva ao projecto. João continua a exercer advocacia e Pedro dá aulas de informática a alunos do ensino básico, em Viana do Castelo.
Excluindo o peso das deslocações a Lisboa e Porto, o facto de estarem na periferia não os incomoda minimamente. “Viana nem sequer consta da nossa equação. É só um cenário físico para um projecto imaterial.” Tanto assim que se consideram “virtualmente desconhecidos” numa cidade que tem todas as características claustrofóbicas dos meios pequenos. Comunicando com os clientes e contactos essencialmente através de vias electrónicas (e-mail, telemóvel), os dois sócios consideram que a Livros de Areia não tem um locus fixo. “A editora está onde nós estivermos.”
E onde eles estão, quase sempre, é na internet. O site, elegante e funcional, tem sido simultaneamente uma montra, um “cartão de visita”, um escritório e a porta de entrada para autores estrangeiros que se espantam com a qualidade gráfica da página – talvez porque esta não se limita à tradicional abordagem, mais ou menos atractiva, do catálogo (com nomes como os de Harry G. Frankfurt, Rhys Hughes, Jeff VanderMeer, Jerzy Kosinski, João Barreiros e Lázaro Covadlo; estando previstos, para 2007, Blanca Riestra, Richard Lupoff e Matthew Rossi). Entre outras pequenas preciosidades visuais, destacam-se os trailers, inaugurados com um pequeno filme de pouco mais de dois minutos, que resume a atmosfera do livro Futebol: sol e sombra, do escritor uruguaio Eduardo Galeano.
Apesar de se queixarem dos livreiros, “uma classe muito acomodada”, Pedro Marques e João Seixas não se arrependem de entregar directamente os seus livros numa rede de livrarias discriminada no site e que já chega a Luanda (Chá de Caxinde) e Macau (Bloom). Além de continuarem a crescer de forma sustentada em Portugal, um dos próximos passos que pretendem dar, dentro de dois ou três anos, é a edição de originais em inglês, directamente para o mercado anglo-saxónico. Ou seja, ignorar fronteiras e cumprir por fim a velha quimera da editora de nicho, com que Seixas sonhava na faculdade.
Na internet
Apesar de ter morada oficial em Viana do Castelo, a Livros de Areia apostou desde a primeira hora numa existência “deslocalizada”, tendo como ponto de partida o seu site na internet. Graficamente sofisticada, a homepage da editora apresenta as novidades do mês, reúne os PressKits sobre cada livro ou autor, anuncia lançamentos e explora os mais recentes instrumentos tecnológicos disponibilizados online: dos trailers de certas obras do catálogo (disponíveis no YouTube) aos pagamentos através do sistema PayPal (havendo também a possibilidade de fazer encomendas por e-mail). Há ainda uma lista de todas as livrarias e pontos de venda onde a editora está representada, com fotos e contactos de algumas delas. O site ainda não é bilingue, mas prevê-se para breve uma versão em inglês.
Quanto ao blogue, actualizado quase diariamente, alterna os posts sobre a estadia no nosso país dos vários autores “da casa” com reflexões sobre o mundo dos livros e a cultura em geral.
[Publicado na edição de ontem do suplemento 6.ª do Diário de Notícias]
«Da maneira como as coisas acontecem, sempre uma atrás da outra, parecia que o tempo passava tão depressa que nem dava para a gente saber se estamos novos ou velhos.»
[in Sangue Sábio, de Flannery O'Connor, trad. Nuno Batalha, Cavalo de Ferro, 2007]
Il faut confronter des idées vagues avec des images claires.

Joseph Koudelka, Carnaval em Olomouc (Checoslováquia), 1968
Toda a palavra chama outra palavra.
Toda a palavra é um íman verbal,
um pólo de atracção variável
que inaugura sempre novas constelações.
Uma palavra é toda a linguagem,
mas é também a fundação
de todas as transgressões da linguagem,
a base onde se afirma sempre uma antilinguagem.
Uma palavra é ainda o homem.
Duas palavras são já o abismo.
Uma palavra pode abrir uma porta.
Duas palavras fazem-na desaparecer.
[in Poesia Vertical, trad. Arnaldo Saraiva, Campo das Letras, 1998]