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PRÉ-PUBLICAÇÃO

«Da infância, Guilherme guarda a leveza do céu que sobrevoava Portalegre e o inesperado pico da Penha onde se adivinhavam os altos de Sousel, as ogivas da Flor da Rosa, a delicadeza do Crato e os longínquos mármores de Estremoz. Aos quinze anos, quando o pai foi trabalhar para a Sacor em Cabo Ruivo, entrou no Liceu D. Diniz nos Olivais e o paraíso encantado começou a desfazer-se. Era uma Lisboa de relvados, de vigas e torres, de autocarros podengos com dois andares esverdeados e uma ingénua combustão de transatlântico. Onde antes reinava a placidez das braseiras de cisco e pinhão, havia agora máscaras inquietas, jogos da sedução e algumas guitarras eléctricas. Guilherme parecia outra pessoa: subitamente ficou com dois metros de altura, a tez muito morena perdeu o ar eclesiástico e o cabelo encaracolado e almorávida passou a realçar ainda mais o nariz subido e o bigode sulcado. Mas quando aos dezassete anos os pais enviaram o rapaz para Évora para estudar sociologia, Guilherme sentiu um pasmo violento. Ao menos na "cidade museu" não havia "subversão", nem "gorilas", nem confusões e entre os alunos havia gente de "boas famílias". Apesar dos breves protestos e da metáfora mágica da passagem "de cavalo para burro", assim aconteceu.
Quando naquele início de Outono chegou a Évora, Guilherme teve a impressão de que a cidade era uma espécie de âncora que caíra abrupta e desamparadamente no fundo do mar. Depois dessa biogénese remota, os oceanos ter-se-iam evaporado e sobrara em torno da urbe a planura extensa e lisa onde choravam granitos austeros e sorriam com timidez as alvenarias claras. Uma catedral desproporcionada face ao resto do casario dominava e domava a quase desolação dos pátios, dos muros, dos ciprestes solitários e dos rostos paralisados que desciam pelas sombras das ruas estreitas e frias.

[Segundo capítulo do romance E Deus Pegou-me pela Cintura, de Luís Carmelo, Guerra e Paz, 2007]

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