O HERÓI CONFISCADO POR DEUS

O Mel do Leão, de David Grossman, trad. Paula Reis, Teorema, 140 páginas.
Depois de Uma Pequena História do Mito, de Karen Armstrong, e de A Odisseia de Penélope, de Margaret Atwood, a Teorema prossegue com O Mel do Leão, do israelita David Grossman, a publicação em português da magnífica colecção Myths, da editora escocesa Canongate.
Como objecto da sua análise, Grossman escolheu Sansão, uma das figuras mais sugestivas e ambíguas da Bíblia – glosada abundantemente na arte ocidental, da pintura clássica ao peplum hollywoodiano, embora a sua história se resuma a quatro capítulos do Livro dos Juízes. A reprodução desses capítulos (13 a 16), antes mesmo do prefácio, serve de resto para mostrar que há muito mais nesta narrativa do que o célebre episódio em que Dalila, a amante traidora, corta o cabelo do herói e lhe extingue a força sobre-humana.
Nas palavras do próprio Grossman, existem "poucas histórias bíblicas com tanto dramatismo e acção, explosões narrativas e emoções cruas como as que encontramos na vida de Sansão: a luta com o leão; as trezentas raposas a arder; as mulheres com quem se deitou e a única que amou; todas as traições femininas da sua vida, desde a mãe a Dalila; e, no final, o seu suicídio assassino, quando fez desabar a casa sobre si mesmo e mais três mil filisteus”.
Contudo, aquilo que o autor de Ver: Amor (Campo das Letras) procura descodificar não é tanto o suposto heroísmo de quem se mostra capaz de partir um leão ao meio sem arma alguma ou de matar uma turba de inimigos com a frieza de um bombista-suicida avant la lettre. Pelo contrário, o que lhe interessa verdadeiramente é “a história dum homem cuja vida foi uma luta infindável para se resignar ao destino esmagador que lhe era imposto, um destino que nunca foi capaz de cumprir nem, ao que parece, de compreender inteiramente”.
O destino que lhe pesa sobre os ombros é a salvação de Israel do longo jugo dos filisteus, profetizada pelo anjo que anunciou à sua mãe (mulher infértil já sem esperanças) a tardia vinda de um filho. E é justamente esse desígnio divino que criará em Sansão, ao longo da sua existência, um “sentido de estranheza”. Os pais são incapazes de o amar como desejariam porque há nele qualquer que lhes escapa. E o mesmo se passará com as muitas amantes que vai tendo. Ninguém o compreende porque ele é um enigma até para si mesmo, um homem só, confiscado por Deus para um plano que o ultrapassa e o esmaga.
Seguindo a tradição interpretativa do Talmude, Grossman percorre a história de fio a pavio, detém-se em certas passagens, desenterra sentidos ocultos, especula sobre o que o narrador não esclarece e assume um ângulo pessoal sobre cada pormenor significante. Mas é sempre a fragilidade de Sansão, esse desamparo existencial escondido por baixo dos músculos e da carapaça de herói, que mais o impressionam.
Em certos momentos, como quando Sansão arranca as portas de Gaza, é o romancista que vem ao de cima na escrita sempre cuidada e elegante de Grossman. Mas noutros, como na descrição meticulosa da cena em que a sua personagem (chamemos-lhe assim) retira mel de uma colmeia que se instalou dentro do esqueleto do leão morto com as mãos nuas, encontramos um lirismo que se aproxima da poesia em prosa.
Conhecido pacifista, que viu um filho ser morto na recente invasão do Líbano, Grossman chama ainda a atenção para o facto de alguns judeus mitificarem apenas o lado mais brutal e vingativo de Sansão; isto é, a capacidade de “usar a força sem restrições nem inibições morais”. O que leva “a atribuir um exagerado valor ao poder obtido; a fazer deste um fim em si mesmo; a usá-lo em excesso; e, também, a alimentar uma tendência para o uso da força, em vez de se pesar outros meios de acção”.
[Publicado no suplemento 6.ª do Diário de Notícias]