BERLINALE - ÚLTIMO DIA
Anda um Urso de Ouro à solta
nas estepes da Mongólia Interior
Contra todas as expectativas, o maior prémio da Berlinale 2007 não foi para nenhum dos grandes nomes a concurso (Rivette, Soderbergh, Téchiné, Menzel) mas para o cineasta chinês Wang Quan’an, autor do discreto ‘O Casamento de Tuya’. O cinema argentino também tem razões para festejar, com os dois Ursos de Prata arrebatados por ‘El Otro’, de Ariel Rotter
Quando o presidente do júri do Festival de Cinema de Berlim, Paul Schrader, anunciou que o vencedor do Urso de Ouro deste ano era O Casamento de Tuya, de Wang Quan’an, a imensa sala do Berlinale Palast, onde decorreu ontem à noite a cerimónia de entrega de prémios, estremeceu de surpresa. Não é a primeira vez que a distinção máxima vai para quem menos se espera (o ano passado aconteceu algo de semelhante com Grbavica, da bósnia Jasmila Zbanic), mas se alguém apostou em Tuya vai decerto ganhar muito dinheiro, porque Quan’an não constava sequer na lista dos possíveis outsiders.
História de uma mulher corajosa numa terra sem esperança, a Mongólia Interior das estepes infinitas e dos pastores que vão perdendo as marcas da sua cultura ancestral, O Casamento de Tuya é um filme simpático mas com limitações narrativas, muito preso a uma visão etnográfica da vida das suas personagens. Se o júri queria mesmo premiar a criatividade do cinema oriental (e deve ter havido nesta escolha o dedinho de Schrader, confesso admirador de Ozu e biógrafo de Mishima), então mais valia ter incluído no palmarés um dos dois outros filmes chineses a concurso: o efervescente Lost in Beijing, de Li Yu, ou Hyazgar, de Zhang Lu.
O outro grande momento de frisson verificou-se com a entrega a Nina Hoss (magnífica em Yella) do Urso de Prata para melhor actriz que toda a gente, incluindo Hoss, esperava ver na já famosa “mão direita” de Marianne Faithfull (Irina Palm). Julio Chávez, com mais uma interpretação portentosa, feita de silêncios e de olhares que se impõem à ferocidade da câmara, ganhou a estatueta para melhor actor em El Otro, um belo filme argentino de Ariel Rotter, que recebeu ainda o Grande Prémio do Júri. Comovido, Rotter sublinhou a vitória, este ano, de “um certo tipo de cinema, afastado dos elementos económicos que determinam tantas produções”.
Estranho foi o Urso de Prata para uma “contribuição artística excepcional” ter ido parar ao elenco completo do filme de Robert De Niro sobre o nascimento da CIA (The Good Sheperd). Não só porque os actores, no seu todo e individualmente, estão longe de qualquer patamar de excelência, mas sobretudo porque entre eles está Angelina Jolie, num papel de mulher posta em segundo plano mas submissa à vontade do marido, tão inverosímil e fora de tom que até magoa.
Ao receber o prémio para melhor realizador, o israelita Joseph Cedar (Beaufort) explicou que o seu filme mostra como as guerras acabam e como pode ser difícil arriar uma bandeira. “O tema é o medo. O medo que senti quando fui soldado de infantaria. Espero que os nossos líderes também tenham medo da guerra e saibam como acabar com ela.” Os aplausos não se fizeram esperar, só ultrapassados pela ovação de pé a Arthur Penn, que recebeu há dias o Urso de Ouro de carreira.
Entre os restantes prémios, destaque-se o justíssimo Urso de Prata para a melhor música (Hallam Foe, do escocês David Mackenzie, que subiu ao palco com dois membros dos Franz Ferdinand, autores de um tema original feito para o filme), o Alfred Bauer para o “particularmente inovador” I’m a Cyborg but that’s OK, do coreano Park Chan-wook, e o cheque de 50 mil euros para a melhor primeira obra do Festival – Vanaja, de Rajnesh Domalpalli (Índia) – que foi exibido na secção Generation 14plus.
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]