BERLINALE - DIA 9

Entre os arranha-céus de Pequim
e os velhos telhados de Edimburgo
Já em 2006 foi assim. Para o dia de fecho ficaram guardados três dos filmes mais interessantes que passaram este ano pelo Berlinale Palast, onde logo à noitinha serão anunciados os vencedores dos vários Ursos (ver post anterior). E a estes candidatos de última hora – Lost in Beijing (Perdidos em Pequim), de Li Yu (China); Eu que Servi o Rei de Inglaterra, de Jirí Menzel (República Checa); Hallam Foe, de David Mackenzie (Reino Unido) – temos ainda de juntar Angel, de François Ozon, que apenas será exibido hoje e pode baralhar as contas finais.
Lost in Beijing foi um dos filmes mais falados do festival, ainda antes de ser exibido, porque a censura chinesa não chegou a dar o seu visto e havia quem garantisse que só teríamos direito à versão cortada da história, com menos sexo e sem as cenas em que autoridades públicas se deixam subornar. No fim de contas, prevaleceu a versão uncut. E ainda bem. Porque grande parte da energia de Ping Guo (título original) está na forma como Yu filma os corpos e o desejo das suas personagens, à deriva numa cidade fervilhante.
A primeira hora é um voo a pique, com arranha-céus em fundo, sobre o triângulo amoroso nascido de um acaso. Certo dia, a massagista Liu, enevoada pelo álcool a mais que bebeu numa festa, envolve-se sexualmente com o patrão. Azar dos azares, o marido, lavador de janelas, assiste a tudo do lado de fora, suspenso no abismo. E começa para os três uma relação volátil que envolverá chantagens, vinganças e uma gravidez negociada.
Li Yu faz com Pequim o que Wong Kar-Wai fez com Hong Kong em Chungking Express. Plasma a vertigem urbana, dá-lhe sentido e espessura. Com uma diferença: sensivelmente a meio, a sua realização frenética começa a perder gás e ao que prometia ser uma obra-prima falta, no fim, o golpe de asa.

Adaptação relativamente fiel de um romance picaresco de Bohumil Hrabal, escritor com quem Menzel trabalhou em vários filmes (nomeadamente Comboios Rigorosamente Vigiados, de 1966), esta comédia sobre um homem que se adapta às circunstâncias históricas, cumprindo o sonho de se tornar milionário na indústria hoteleira, é uma suave parábola sobre a natureza humana no que tem de melhor e pior, temperada pelo típico humor da Europa Central. Ivan Barnev assume o papel de Jan Díte, conferindo-lhe uma aura chaplinesca.

Quanto a Hallam Foe, obra sólida e com excelente banda sonora (incluindo uma canção sobre o protagonista, assinada pelos Franz Ferdinand), narra a história de um rapaz traumatizado pela morte da mãe. Voyeurista compulsivo, é em Edimburgo que ele encontrará, após muitas expedições nocturnas pelos telhados e uma verdadeira superação edipiana, a porta de saída para a sua problemática adolescência.
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]