BERLINALE - DIA 7

Da vida imaginada de uma alemã
ao fim da primeira guerra no Líbano
Durante 95% do tempo, Yella, do realizador Christian Petzold, visto ontem na secção competitiva, é apenas um filme algo estranho e com demasiadas incongruências narrativas. Nos restantes 5%, percebemos porquê. À semelhança do que acontece no mais célebre dos contos de Ambrose Bierce, Um Acontecimento na Ponte de Owl Creek, nada do que vemos é real.
Yella vive numa cidade do leste da Alemanha e decide fugir do desemprego, da falta de perspectivas e de um ex-marido obsessivo que não a deixa em paz. Com um trabalho em vista em Hannover, aceita uma última boleia do antigo companheiro e este tenta suicidar-se, lançando o seu jipe de uma ponte para as águas do Elba.
O que se passa daí em diante, tal como com o enforcado de Bierce, é a história da vida futura de Yella, imaginada quando mergulha para a morte. Ou seja, tudo o que ela poderia ter feito se aquele último momento não fosse mesmo o último. E é aqui que Petzold deita tudo a perder, esbanjando a ideia numa espécie de roadmovie financeiro, em que Yella se junta a um homem perito em extorquir comissões a empresas à beira da falência. Num filme que nos oferece sempre menos do que promete e por vezes é tão chato como uma folha de contabilidade em Excel, salvam-se os actores: Nina Hoss (intensa na justa medida) e Devid Striesow (que já demonstrara o seu valor em Die Fälscher).

Beaufort, de Joseph Cedar, conta passo a passo como foi, em 2000, a retirada das tropas israelitas de uma montanha, simbólica por ter sido a primeira conquista importante na invasão do Líbano, dezoito anos antes. Entre o silvo dos morteiros do Hezzbolah e o medo que paralisa os homens cercados, Cedar conseguiu fazer um filme de guerra decente, mas sem panache e praticamente desligado do contexto histórico. As desventuras humanas impressionam, tocam-nos, mas tanto podiam ter acontecido ali como noutro lugar qualquer.

Ainda ontem foi exibido 300 (fora de competição), de Zack Snyder, a partir da versão feita em BD, por Frank Miller, da batalha de Termópilas, em que poucas centenas de soldados espartanos, comandados pelo rei Leónidas, resistiram heroicamente ao gigantesco exército persa de Xerxes I. Com os seus efeitos visuais de encher o olho, actores da loja dos trezentos, heroísmo de pacotilha e retórica proto-fascistóide, 300 parece saído de uma centrifugadora onde alguém juntou O Gladiador, Tróia e O Senhor dos Anéis, mais o algoritmo de um videojogo manhoso e uma dose significativa de fantasias homoeróticas (com homens invencíveis de abdominais salientes). Se não é o pior filme do festival, e de 2007, anda lá perto.
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]