BERLINALE - DIA 6

Triunfo de Marianne Faithfull
agita as águas na Berlinale
Independentemente da escolha que o júri oficial venha a fazer, há uma honra que ninguém pode tirar a Sam Garbarski: a obra que trouxe a concurso, Irina Palm, foi a primeira a merecer uma ovação digna desse nome, quer na projecção para jornalistas, quer na conferência de imprensa. E se o festival ainda não tivera um filme-sensação, agora já tem. Nos corredores, nos cafés, na fila de espera para a sala de escrita, é de Irina Palm que se fala.
Tanto bruaá tem uma explicação: se o filme é bom, Faithfull é ainda melhor (metendo no bolso a favorita até ao momento: Marion Cotillard na versão a papel-químico de Edith Piaf). Morena e gordinha, a actriz/cantora veste a pele de Maggie, típica inglesa entradota e de classe média-baixa, viúva anódina como a aldeia em que vive, mas determinada a resolver um problema bicudo que se abateu sobre a família: o neto sofre de uma doença gravíssima e é preciso arranjar dinheiro para pagar uma viagem à Austrália, onde fica o único hospital que pode fazer alguma coisa por ele.
Sem rendimentos fixos nem poupanças, Maggie tenta tudo, dos empréstimos bancários às raspadinhas. Em vão. Como último recurso, acaba por responder a um pedido de trabalho num clube nocturno, daqueles em que cinquentões lúbricos penduram notas na parca lingerie de raparigas semi-nuas. O ambiente repugna-a, claro, mas valendo-se das mãos “suaves”, elogiadas pelo proxeneta húngaro que gere o estaminé, descobre que tem um verdadeiro dom: o dom de masturbar os clientes comme il faut, numa engenhosa sala com um buraco para a função mas nenhum contacto visual. Dominada a técnica com a ajuda de uma rapariga da casa, Maggie começa a revelar-se tão boa naquilo que rapidamente ganha um nome artístico (Irina Palm, escrito a néon), uma fila interminável de homens ávidos do seu toque, a cobiça de outros empresários da noite e o adiantamento da verba necessária.
O segredo do filme está na delicadeza bem humorada com que o realizador aborda situações no mínimo escabrosas. Aos jornalistas, Garbarski disse que esta é uma “comédia romântica politicamente incorrecta” e não anda longe da verdade. O envolvimento de Maggie no sub-mundo do sexo, que envergonha o filho e leva ao rubro os mexericos na aldeia (quando se descobre a origem do dinheiro), vai sendo narrado de uma forma divertidíssima e sem sombra de perversão, respeitando a pureza da personagem que encara tudo aquilo como um simples “trabalho” (a partir de certa altura, por exemplo, veste uma bata de mulher-a-dias e traz de casa plantas e quadros para pendurar nas paredes). Num argumento eficaz, só o final, com o romance entre Maggie e o proxeneta bonzinho, é que se afigura demasiado inverosímil.

Antes de Irina Palmer, a competição abriu ontem com mais um bom exemplo da pujança do cinema argentino. El Otro, de Ariel Rotter, conta a história de um advogado de 46 anos (Julio Chavez) que viaja depois de descobrir que vai ser pai. Confrontado com a morte de um passageiro no autocarro, mesmo ao seu lado, aproveita a viagem para se questionar, numa espécie de odisseia metafísica cheia de silêncios, simulações, olhares contemplativos e poucas palavras.
O “outro” do título é tanto o bebé a caminho, intruso maravilhoso na vida do casal, como o Juan que regressa a casa e nada tem a ver com o que partiu. Belo filme.
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]