BERLINALE - DIA 5

O pesadelo da sida
segundo André Téchiné
Três anos depois de Os Tempos que Mudam, André Téchiné volta ao activo com Les Témoins (As Testumunhas), talvez o seu melhor filme da última década. A acção decorre na França dos anos 80, imediatamente antes e durante o pesadelo da descoberta de um novo vírus (HIV) que haveria de destruir a vida de milhares de pessoas e comprometer a forma como muitos lidam com a sua sexualidade.
Téchiné aborda o tema de frente, sem falsos pudores, mas nunca moraliza e muito menos julga as suas personagens, antes as deixa interagir num mundo que subitamente se tornou instável e perigoso. Mais do que um filme sobre a sida, Les Témoins é o registo bastante cru do modo como a doença veio envenenar os “bons tempos”, transformando-os numa “guerra” em que toda a gente saiu a perder.
No centro da história está Manu (Johan Liberau), um rapaz de 20 anos que chega a Paris para viver no minúsculo quarto de hotel da irmã (Julie Depardieu), uma aspirante a cantora de ópera. À volta de Manu circulam Adrien (Michel Blanc), um médico gay que o namora platonicamente mas sem abdicar do desejo; Sarah (Emmanuelle Béart), amiga de Adrien, escritora bloqueada depois do nascimento de um filho com o qual não se consegue relacionar; e Mehdi (Sami Bouajila), marido de Sarah, agente implacável da Divisão de Costumes da polícia parisiense, responsável pelo desmantelamento de redes de prostituição.
Só depois de nos familiarizar com a espessura psicológica deste microcosmos humano é que Téchiné toca na ferida: Manu tem aquela doença ainda sem nome de que se fala na televisão. A sua alegria esvai-se, o corpo fica coberto de manchas e eczemas. A sida não é só a morte à espera de uma porta aberta. É também a ameaça que paira sobre os outros, uma onda de choque que põe tudo em causa: os amores, os casamentos, as amizades. Les Témoins regista de forma precisa, como um sismógrafo ultra-sensível, mas sem fatalismo, essa onda de choque que não parou, até hoje, de reverberar.

Sobre Notes on a Scandal, de Richard Eyre, adaptação cinematográfica de um romance de Zoë Heller, exibido fora de competição, pairava uma certa expectativa. Até que ponto se justificariam as quatro nomeações para os Oscares de Hollywood (Judi Dench, melhor actriz; Cate Blanchett, actriz secundária; Patrick Marber, argumento adaptado; e Philip Glass, melhor banda sonora)? A resposta é simples: não só se justificam todas como podem converter-se, as quatro, nas desejadas estatuetas. Dench, no papel de Barbara, uma velha professora sarcástica, retorcida, controladora e de um egoísmo levado ao limite pela solidão, é simplesmente extraordinária. Blanchett, na pele da jovem professora que comete um deslize (envolve-se com um aluno de 15 anos) e cai na teia de chantagem emocional arquitectada por Barbara, não lhe fica atrás. Marber soube preservar a qualidade literária do livro (finalista do Man Booker Prize em 2003) e Philip Glass continua um mestre na arte de conferir tensão e ímpeto às histórias que vemos no ecrã.

Quanto a When a Man Falls in the Forest, de Ryan Eslinger, não há muito a dizer. É o típico filme indie falhado. O realizador tem ao seu dispor boas personagens e excelentes actores (Sharon Stone, Timothy Hutton, Dylan Baker, Pruitt Taylor Vince) mas nunca sabe o que fazer com eles.
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]