EM AUDIÇÃO

A Alegria de Gostar, poemas do colombiano Jairo Aníbal Niño narrados por Changuito e Oriana Alves, num audiolivro editado pela novíssima Boca.
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A Alegria de Gostar, poemas do colombiano Jairo Aníbal Niño narrados por Changuito e Oriana Alves, num audiolivro editado pela novíssima Boca.
Assistir, deslumbrado, às primeiras palavras. O mundo a encaixar-se aos poucos num vocabulário que se expande vertiginosamente. Entender as primeiras frases, os primeiros raciocínios. A linguagem a iluminar tudo, a aproximar-nos mais ainda.
Na badana do livro Prova de Vida, em que Pedro Mexia reúne textos dos blogues Fora do Mundo e Estado Civil (ou, como o próprio diz, «experiências, gostos, obsessões, citações, listas, polémicas, coisas vistas e ouvidas, leituras, confissões e estados de alma»), Osvaldo Silvestre escreve o seguinte:
«Os "falsos diários" de Mexia, em todos os anteriores blogues, mas sobretudo em Estado Civil, são uma das mais estimulantes escritas da nossa literatura actual.»
Eu assino por baixo (e sublinho a palavra literatura).
«Sempre achei fascinantes algumas reacções do organismo, como a rejeição violenta de alguns medicamentos e de alguns transplantes. Às vezes, em vez de rejeição, acontecem adesões entusiásticas, que nos escapam, como vários afluxos sanguíneos (ficar subitamente corado ou ter uma erecção incontrolável). E depois há o coração e o sistema nervoso que têm reacções autónomas, que não passam pela nossa vontade e que nos abalam, nos dominam, nos assustam.»
[in Prova de Vida (diários 2004-2006), de Pedro Mexia, Tinta da China, 2007]
Antenas de televisão: raízes ao contrário.
O mártir nunca é inocente. O mártir é o mais egoísta dos seres humanos. O mártir quer o sofrimento todo só para si.
Antes de atravessar, não olhes.
Charles Bukowski de camisa aberta, cigarrilha e garrafa de cerveja à frente, explicando a Barbet Schroeder como arranjava quartos nas suas viagens aleatórias através dos EUA e engatava mulheres dizendo-lhes que era escritor.
«Da infância, Guilherme guarda a leveza do céu que sobrevoava Portalegre e o inesperado pico da Penha onde se adivinhavam os altos de Sousel, as ogivas da Flor da Rosa, a delicadeza do Crato e os longínquos mármores de Estremoz. Aos quinze anos, quando o pai foi trabalhar para a Sacor em Cabo Ruivo, entrou no Liceu D. Diniz nos Olivais e o paraíso encantado começou a desfazer-se. Era uma Lisboa de relvados, de vigas e torres, de autocarros podengos com dois andares esverdeados e uma ingénua combustão de transatlântico. Onde antes reinava a placidez das braseiras de cisco e pinhão, havia agora máscaras inquietas, jogos da sedução e algumas guitarras eléctricas. Guilherme parecia outra pessoa: subitamente ficou com dois metros de altura, a tez muito morena perdeu o ar eclesiástico e o cabelo encaracolado e almorávida passou a realçar ainda mais o nariz subido e o bigode sulcado. Mas quando aos dezassete anos os pais enviaram o rapaz para Évora para estudar sociologia, Guilherme sentiu um pasmo violento. Ao menos na "cidade museu" não havia "subversão", nem "gorilas", nem confusões e entre os alunos havia gente de "boas famílias". Apesar dos breves protestos e da metáfora mágica da passagem "de cavalo para burro", assim aconteceu.
Quando naquele início de Outono chegou a Évora, Guilherme teve a impressão de que a cidade era uma espécie de âncora que caíra abrupta e desamparadamente no fundo do mar. Depois dessa biogénese remota, os oceanos ter-se-iam evaporado e sobrara em torno da urbe a planura extensa e lisa onde choravam granitos austeros e sorriam com timidez as alvenarias claras. Uma catedral desproporcionada face ao resto do casario dominava e domava a quase desolação dos pátios, dos muros, dos ciprestes solitários e dos rostos paralisados que desciam pelas sombras das ruas estreitas e frias.
[Segundo capítulo do romance E Deus Pegou-me pela Cintura, de Luís Carmelo, Guerra e Paz, 2007]
Falava do amor como algumas pessoas falam da Etiópia. Isto é, com a inocência de quem nunca lá esteve.
Acreditar nas coisas que florescem fora do tempo.
Juventude em Marcha, de Pedro Costa.

Eis o maior escândalo dos últimos tempos no mundo da música clássica: as gravações de uma pianista quase desconhecida, mas recentemente celebrada pela crítica, foram postas em causa por uma investigação da revista Gramophone, que recorreu à análise científica de um engenheiro de som da Pristine Classical (cujos resultados estão resumidos nesta página). Eu já dei um lamiré sobre o assunto aqui, mas parece-me que a procissão ainda vai no adro.
Na coluna da direita, já não está o logótipo do Sim nem o link para o blogue em que se lutou pela despenalização da IVG em Portugal. Deixaram de ser necessários, felizmente. O resto, a prometida (e sempre adiada) arrumação dos enlaces, virá a seguir. Talvez amanhã. Provavelmente amanhã.
No início de Agosto de 2006, o filho de David Grossman, Uri, de 20 anos, oficial do exército israelita em serviço no Sul do Líbano, morreu quando um míssil atingiu o tanque por ele comandado, dois dias antes do cessar-fogo imposto pela ONU. O escritor, que defendera a intervenção militar enquanto gesto de autodefesa, mas apelara uma semana antes ao fim do conflito, pronunciou no funeral do filho, a 16 de Agosto, as seguintes palavras (que reproduzo na tradução para inglês publicada pelo Washington Post):
«My Dearest Uri, For the last three days, almost every thought has had a "won't" in it. He won't come home, we won't talk, we won't laugh. That boy with the ironic gaze and the awesome sense of humor won't be anymore. That young man with the wisdom so much more profound than his age won't be anymore. That warm smile and that healthy appetite won't be anymore, that uncommon combination of determination and tenderness won't be anymore, his common sense and discernment won't be anymore. We won't have Uri's infinite gentleness, nor the calm that steadies every storm. We won't watch "The Simpsons" and "Seinfeld" together anymore, we won't listen to Johnny Cash with you, and we won't feel your strong, soothing embrace. We won't see you walking with your big brother, Yonatan, conversing with exuberant gestures, and we won't see you hug your little sister, Ruti, the love of your heart.Uri, my beloved:
»
Throughout your brief life we all learned from you. From your strength and your determination to follow your own path. To follow it even if there is no chance at all of succeeding. We marveled at your battle to get accepted into tank commanders' course. You didn't give in to your officers because you knew that you could be a good commander, and you weren't prepared to make do with contributing less than you were able. And when you succeeded, I thought: Here's a man who knows his abilities in such a simple and sober way. Without conceit and without arrogance. Unaffected by what others say about him. Whose source of strength lies within.
You were like that from childhood. A boy who lives in harmony with himself and with those around him. A boy who knows his place, knows that he is loved, is aware of his limitations, and knows what's special about him. And, really, from the moment you bent the entire army to your will and became a commander, it was clear what kind of commander and human being you would be. Today, we hear from your comrades and soldiers about the sergeant and the friend, about the guy who gets up before everyone to organize everything, and who goes to sleep after everyone else has already dozed off.
And yesterday, at midnight, I looked around the house, which was a mess after the hundreds of people who had come to console us, and I said: Okay, now we need Uri, to help put things straight.
«You were the left-winger in your battalion, and they respected you, because you held fast to your opinions without dodging a single one of your military responsibilities. I remember you telling me about your roadblock policy -- you spent a lot of time manning roadblocks in the territories. You said that if there is a child in a car you pull over, you always begin by trying to calm the kid down, to make him laugh. That you always remind yourself that the kid is about Ruti's age. And you'd always remind yourself how frightened he is of you. And how much he hates you, and that he has reasons for that, and still, you will do all you can to make that terrifying moment easier for him, while doing your job, without fudging. When you went to Lebanon, Mom said that the thing that most scared her was your volunteer complex. We were very frightened that if someone had to run to save a wounded man, you'd charge straight into enemy gunfire, and that you'd be the first to volunteer to bring more ammunition. That's the way you were your whole life, at home and in school, and in the army. You willingly gave up your home leave when some other soldier needed it more than you did. You'd do the same in Lebanon, in the war. You were my son and my friend. You were the same for your mother. Our souls are intertwined with yours. You were at one with yourself, a person it was good to be with. I'm not even able to say out loud how much you were someone to run with. Every time you came home on leave you'd say, "Dad, let's talk," and we'd go out together, usually to a restaurant, and talk. You told me so much, Uri, and it was gratifying to be your confidant. A person like you had chosen me. I remember that once you pondered whether to punish a soldier of yours who had committed a breach of discipline. How you agonized over the decision, knowing that a punishment would anger your men and enrage the other commanders, who were more lenient than you were regarding certain violations. And, in fact, you paid a heavy social price when you decided to impose the punishment. But that incident later became one of your battalion's foundation stories, and established a standard of behavior and of adherence to the rules. On your last visit home you related, with your bashful pride, how the battalion commander, in his talk to the unit's new officers and sergeants, referred to your resolute decision as exemplary leadership. You illuminated our lives, Uri. Your mother and I raised you in love. It was so easy to love you with all our hearts, and I know you felt it. Your short life was a good one. I hope that I was a father worthy of such a boy. I know that to be Michal's son is to grow up surrounded by infinite generosity and kindness and love. You received all these, in great abundance, and you knew how to appreciate them, and to be grateful for them, because you didn't take anything you received for granted. I won't say now anything about the war you were killed in. We, our family, have already lost in this war. The state of Israel will now take stock of itself. We, the family, will withdraw into our pain, surrounded by our good friends, enveloped in the powerful love that we feel today from so many people, most of whom we do not know. I thank them for their support, which is unbounded. May we be able to give this love and solidarity to each other at other times as well. That is perhaps our unique national resource. It is our greatest human national treasure. May we know how to be a bit more gentle with each other, and may we succeed in saving ourselves from the violence and hostility that has penetrated so deeply into all aspects of our lives. May we know how to get our bearings and save ourselves now, at the very last minute, because very hard times await us.* * *
Uri was a very Israeli boy. Even his name is the ultimate Israeli, Hebrew name. He was the quintessence of the Israeli I would like to see. The kind that has almost been forgotten. The kind that people today consider a curiosity. At times, I would look at him and think that he was something of an anachronism. He and Yonatan, and Ruti, too. Children of the 1950s. Uri with his absolute integrity, taking full responsibility for everything happening around him. You could always trust him with everything. Uri with his profound sensitivity to all suffering, to every injustice. With his compassion. Whenever that word came to mind, I thought of Uri.
He was a man of values. In recent years, that word has faded. It has even been ridiculed. Because in our disjointed, cruel, cynical world, it's not cool to have values. Or to be a humanist. Or to be really sensitive to the distress of others, even if the other is your enemy on the battlefield.
But I learned from Uri that it's possible and necessary. That we need to defend ourselves, but in two senses: to defend our bodies, and not to surrender our souls. Not to surrender to the temptations of force and simplistic thinking, to the corruption of cynicism. Not to surrender to boorishness and contempt for others, which are the really great curses of the person who lives his entire life in a disaster area like ours.
Uri simply had the courage to be himself, always, in all situations. To find his precise voice in everything he said and did. That is what protected him from pollution, corruption and the constriction of his soul.
Uri was also funny. Amazingly funny and witty. You can't talk about Uri without recalling some of his best lines. For example, when he was 13, I once said to him, "Imagine that you and your children will be able to fly into outer space just like we fly to Europe today." And he smiled: "What's the big deal about outer space? You can get everything on Earth these days."
Or one other time, when we were in the car, and Michal and I were discussing a new book that everyone was talking about. I mentioned the names of some novelists and critics, and 9-year-old Uri piped up from the back seat: "Hey, elitists, may I draw your attention to the fact that there's a little regular guy here who doesn't understand anything you're saying?"
And once, when I was invited to Japan and wasn't sure whether to go, Uri said: "How can you turn it down? Do you know what it's like to be in the only country in the world where there are no Japanese tourists?"* * *
Dear friends,
»
On Saturday night, at 11 o'clock, our doorbell rang. Through the intercom they said, "From the town major's office." And I went to open, and I thought to myself: That's it, our life is over.
But five hours later, when Michal and I went into Ruti's room and woke her up to tell her the horrible news, Ruti, after her initial weeping, said: "But we'll live, right?" We will live and go on trips like before, and I want to go on singing in the choir, and we'll continue to laugh like always, and I want to learn to play guitar, and we hugged her, and we said that we would live. And Ruti also said, "What a wonderful threesome we were, Yonatan, Uri and me."
You really were wonderful, and so were all the different twosomes within the threesome. Yonatan, you and Uri were not just brothers, you were friends in heart and soul, with your own world and your own private language and your own sense of humor. Ruti, Uri loved you with all his soul, and treated you with such tenderness. I remember how, during his last phone call, when he was so happy that the United Nations was about to declare a cease-fire, he insisted on talking to you. How you cried afterward, as if you already knew.
Our lives are not over. But we have suffered a very severe blow. We'll take the strength to withstand it from ourselves, from our togetherness, Michal's, mine and our children's. And from Grandpa and the two grandmothers, who loved him with all their hearts -- Neshuma, they called him in Yiddish, because he was all soul. And from his uncles and aunts and cousins and all his many friends from school, and his soldier friends, who are with us in concern and in companionship.
And we will also take our strength from Uri. He had enough power to last us many years. He radiated life, vitality, warmth and love so strongly, and his light will continue to shine on us, even if the star that produced it has gone out.
Our love, it was our great privilege to live with you. Thank you for every moment that you were ours.

O Mel do Leão, de David Grossman, trad. Paula Reis, Teorema, 140 páginas.
Depois de Uma Pequena História do Mito, de Karen Armstrong, e de A Odisseia de Penélope, de Margaret Atwood, a Teorema prossegue com O Mel do Leão, do israelita David Grossman, a publicação em português da magnífica colecção Myths, da editora escocesa Canongate.
Como objecto da sua análise, Grossman escolheu Sansão, uma das figuras mais sugestivas e ambíguas da Bíblia – glosada abundantemente na arte ocidental, da pintura clássica ao peplum hollywoodiano, embora a sua história se resuma a quatro capítulos do Livro dos Juízes. A reprodução desses capítulos (13 a 16), antes mesmo do prefácio, serve de resto para mostrar que há muito mais nesta narrativa do que o célebre episódio em que Dalila, a amante traidora, corta o cabelo do herói e lhe extingue a força sobre-humana.
Nas palavras do próprio Grossman, existem "poucas histórias bíblicas com tanto dramatismo e acção, explosões narrativas e emoções cruas como as que encontramos na vida de Sansão: a luta com o leão; as trezentas raposas a arder; as mulheres com quem se deitou e a única que amou; todas as traições femininas da sua vida, desde a mãe a Dalila; e, no final, o seu suicídio assassino, quando fez desabar a casa sobre si mesmo e mais três mil filisteus”.
Contudo, aquilo que o autor de Ver: Amor (Campo das Letras) procura descodificar não é tanto o suposto heroísmo de quem se mostra capaz de partir um leão ao meio sem arma alguma ou de matar uma turba de inimigos com a frieza de um bombista-suicida avant la lettre. Pelo contrário, o que lhe interessa verdadeiramente é “a história dum homem cuja vida foi uma luta infindável para se resignar ao destino esmagador que lhe era imposto, um destino que nunca foi capaz de cumprir nem, ao que parece, de compreender inteiramente”.
O destino que lhe pesa sobre os ombros é a salvação de Israel do longo jugo dos filisteus, profetizada pelo anjo que anunciou à sua mãe (mulher infértil já sem esperanças) a tardia vinda de um filho. E é justamente esse desígnio divino que criará em Sansão, ao longo da sua existência, um “sentido de estranheza”. Os pais são incapazes de o amar como desejariam porque há nele qualquer que lhes escapa. E o mesmo se passará com as muitas amantes que vai tendo. Ninguém o compreende porque ele é um enigma até para si mesmo, um homem só, confiscado por Deus para um plano que o ultrapassa e o esmaga.
Seguindo a tradição interpretativa do Talmude, Grossman percorre a história de fio a pavio, detém-se em certas passagens, desenterra sentidos ocultos, especula sobre o que o narrador não esclarece e assume um ângulo pessoal sobre cada pormenor significante. Mas é sempre a fragilidade de Sansão, esse desamparo existencial escondido por baixo dos músculos e da carapaça de herói, que mais o impressionam.
Em certos momentos, como quando Sansão arranca as portas de Gaza, é o romancista que vem ao de cima na escrita sempre cuidada e elegante de Grossman. Mas noutros, como na descrição meticulosa da cena em que a sua personagem (chamemos-lhe assim) retira mel de uma colmeia que se instalou dentro do esqueleto do leão morto com as mãos nuas, encontramos um lirismo que se aproxima da poesia em prosa.
Conhecido pacifista, que viu um filho ser morto na recente invasão do Líbano, Grossman chama ainda a atenção para o facto de alguns judeus mitificarem apenas o lado mais brutal e vingativo de Sansão; isto é, a capacidade de “usar a força sem restrições nem inibições morais”. O que leva “a atribuir um exagerado valor ao poder obtido; a fazer deste um fim em si mesmo; a usá-lo em excesso; e, também, a alimentar uma tendência para o uso da força, em vez de se pesar outros meios de acção”.
[Publicado no suplemento 6.ª do Diário de Notícias]
Em Alexanderplatz, uma placa indica que Los Angeles, cidade irmã de Berlim, fica a 9684 quilómetros. Mas o que interessava saber, tendo em conta o palmarés da Berlinale (anunciado anteontem), é a distância que separa a capital da Alemanha das estepes da Mongólia Interior.
Se tivesse que dar estrelas aos filmes que vi no festival, o rol seria assim:
La Môme, de Olivier Dahan - *
O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger - ****
I'm a Cyborg but that's OK, de Park Chan-wook - ***
The Good German, de Steven Soderbergh - ***
Tuya's Marriage, de Wang Quan'an - **
Die Fälscher, de Stefan Ruzowitzky - ***
The Good Sheperd, de Robert De Niro - ***
Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood - *****
In Memoria di Me, de Saverio Costanzo - **
Goodbye Bafana, de Bille August - *
When a Man Falls in the Forest, de Ryan Eslinger - *
INLAND EMPIRE, de David Lynch - ***
Notes on a Scandal, de Richard Eyre - ****
Les Témoins, de André Téchiné - ****
El Otro, de Ariel Rotter - ****
Irina Palm, de Sam Garbarski - ***
300, de Zack Snyder - o
Beaufort, de Joseph Cedar - **
Yella, de Christian Petzold - **
Desert Dream, Zhang Lu - ***
Bordertown, de Gregory Nava - o
Ne Touchez pas la Hache, de Jacques Rivette - *****
Hallam Foe, David Mackenzie - ***
Eu que Servi o Rei de Inglaterra, de Jirí Manzel - **
Lost in Beijing, de Li Yu - ****
Angel, de François Ozon - **
O início do filme El Otro, de Ariel Rotter, é extraordinário. Logo depois de um genérico em forma de exame oftalmológico, encontramos Juan Desouza (Julio Chávez) no consultório da mulher, preocupado com a sua falta de vista. Não abdicando do seu poder médico, ela faz-lhe as perguntas da praxe para preencher a ficha, como se não o conhecesse de lado nenhum. O efeito é duplamente interessante: primeiro, porque permite conhecer desde logo o nome, a idade e a profissão do protagonista (informações que deturpará mais tarde, ao ficcionar identidades no guichet de hotéis de província); depois, porque estabelece um jogo de distanciamento irónico dentro do casal (quando ela lhe pergunta o estado civil, por exemplo, ou quando insinua que pode estar grávida). Em dois ou três minutos, ficam lançadas as traves mestras do filme. E quando encontramos Desouza, logo a seguir, a experimentar os óculos que só ficarão prontos numa das últimas cenas, não é difícil entender que El Otro é um filme sobre a visão. Isto é, sobre o modo como olhamos para as coisas (objectos, vazios, pessoas). Ou, melhor ainda, sobre a aprendizagem do olhar que nos permite fugir, mesmo se a custo, aos mais complexos bloqueios existenciais.
Anda um Urso de Ouro à solta
nas estepes da Mongólia Interior
Contra todas as expectativas, o maior prémio da Berlinale 2007 não foi para nenhum dos grandes nomes a concurso (Rivette, Soderbergh, Téchiné, Menzel) mas para o cineasta chinês Wang Quan’an, autor do discreto ‘O Casamento de Tuya’. O cinema argentino também tem razões para festejar, com os dois Ursos de Prata arrebatados por ‘El Otro’, de Ariel Rotter
Quando o presidente do júri do Festival de Cinema de Berlim, Paul Schrader, anunciou que o vencedor do Urso de Ouro deste ano era O Casamento de Tuya, de Wang Quan’an, a imensa sala do Berlinale Palast, onde decorreu ontem à noite a cerimónia de entrega de prémios, estremeceu de surpresa. Não é a primeira vez que a distinção máxima vai para quem menos se espera (o ano passado aconteceu algo de semelhante com Grbavica, da bósnia Jasmila Zbanic), mas se alguém apostou em Tuya vai decerto ganhar muito dinheiro, porque Quan’an não constava sequer na lista dos possíveis outsiders.
História de uma mulher corajosa numa terra sem esperança, a Mongólia Interior das estepes infinitas e dos pastores que vão perdendo as marcas da sua cultura ancestral, O Casamento de Tuya é um filme simpático mas com limitações narrativas, muito preso a uma visão etnográfica da vida das suas personagens. Se o júri queria mesmo premiar a criatividade do cinema oriental (e deve ter havido nesta escolha o dedinho de Schrader, confesso admirador de Ozu e biógrafo de Mishima), então mais valia ter incluído no palmarés um dos dois outros filmes chineses a concurso: o efervescente Lost in Beijing, de Li Yu, ou Hyazgar, de Zhang Lu.
O outro grande momento de frisson verificou-se com a entrega a Nina Hoss (magnífica em Yella) do Urso de Prata para melhor actriz que toda a gente, incluindo Hoss, esperava ver na já famosa “mão direita” de Marianne Faithfull (Irina Palm). Julio Chávez, com mais uma interpretação portentosa, feita de silêncios e de olhares que se impõem à ferocidade da câmara, ganhou a estatueta para melhor actor em El Otro, um belo filme argentino de Ariel Rotter, que recebeu ainda o Grande Prémio do Júri. Comovido, Rotter sublinhou a vitória, este ano, de “um certo tipo de cinema, afastado dos elementos económicos que determinam tantas produções”.
Estranho foi o Urso de Prata para uma “contribuição artística excepcional” ter ido parar ao elenco completo do filme de Robert De Niro sobre o nascimento da CIA (The Good Sheperd). Não só porque os actores, no seu todo e individualmente, estão longe de qualquer patamar de excelência, mas sobretudo porque entre eles está Angelina Jolie, num papel de mulher posta em segundo plano mas submissa à vontade do marido, tão inverosímil e fora de tom que até magoa.
Ao receber o prémio para melhor realizador, o israelita Joseph Cedar (Beaufort) explicou que o seu filme mostra como as guerras acabam e como pode ser difícil arriar uma bandeira. “O tema é o medo. O medo que senti quando fui soldado de infantaria. Espero que os nossos líderes também tenham medo da guerra e saibam como acabar com ela.” Os aplausos não se fizeram esperar, só ultrapassados pela ovação de pé a Arthur Penn, que recebeu há dias o Urso de Ouro de carreira.
Entre os restantes prémios, destaque-se o justíssimo Urso de Prata para a melhor música (Hallam Foe, do escocês David Mackenzie, que subiu ao palco com dois membros dos Franz Ferdinand, autores de um tema original feito para o filme), o Alfred Bauer para o “particularmente inovador” I’m a Cyborg but that’s OK, do coreano Park Chan-wook, e o cheque de 50 mil euros para a melhor primeira obra do Festival – Vanaja, de Rajnesh Domalpalli (Índia) – que foi exibido na secção Generation 14plus.
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]

O Casamento de Tuya, do realizador chinês Wang Quan'an, ganhou o Urso de Ouro da Berlinale 2007. Palmarés completo aqui.
Na rua, perto do Berlinale Palast, passam-me para a mão um panfleto.
Transcrevo:
«A film script for sale!Working title: Kill the cronies in the civil service! Set fire to the tax office! Crush the vermin!
Content: A modern Michael Kohlhaas story. Hundreds of tax offices are set alight. Thousands of tax officials are killed. The government plague with zero percent voter-participation has crept from the government into the civil service. The government and all so-called parliamentarians are killed. Since no more tax can be collected, the nation collapses and the army takes over. The story has a surprising end and is intertwined with a love affair.
»
Em baixo, o nome do argumentista, o número de telefone e o e-mail.

Entre os arranha-céus de Pequim
e os velhos telhados de Edimburgo
Já em 2006 foi assim. Para o dia de fecho ficaram guardados três dos filmes mais interessantes que passaram este ano pelo Berlinale Palast, onde logo à noitinha serão anunciados os vencedores dos vários Ursos (ver post anterior). E a estes candidatos de última hora – Lost in Beijing (Perdidos em Pequim), de Li Yu (China); Eu que Servi o Rei de Inglaterra, de Jirí Menzel (República Checa); Hallam Foe, de David Mackenzie (Reino Unido) – temos ainda de juntar Angel, de François Ozon, que apenas será exibido hoje e pode baralhar as contas finais.
Lost in Beijing foi um dos filmes mais falados do festival, ainda antes de ser exibido, porque a censura chinesa não chegou a dar o seu visto e havia quem garantisse que só teríamos direito à versão cortada da história, com menos sexo e sem as cenas em que autoridades públicas se deixam subornar. No fim de contas, prevaleceu a versão uncut. E ainda bem. Porque grande parte da energia de Ping Guo (título original) está na forma como Yu filma os corpos e o desejo das suas personagens, à deriva numa cidade fervilhante.
A primeira hora é um voo a pique, com arranha-céus em fundo, sobre o triângulo amoroso nascido de um acaso. Certo dia, a massagista Liu, enevoada pelo álcool a mais que bebeu numa festa, envolve-se sexualmente com o patrão. Azar dos azares, o marido, lavador de janelas, assiste a tudo do lado de fora, suspenso no abismo. E começa para os três uma relação volátil que envolverá chantagens, vinganças e uma gravidez negociada.
Li Yu faz com Pequim o que Wong Kar-Wai fez com Hong Kong em Chungking Express. Plasma a vertigem urbana, dá-lhe sentido e espessura. Com uma diferença: sensivelmente a meio, a sua realização frenética começa a perder gás e ao que prometia ser uma obra-prima falta, no fim, o golpe de asa.

Adaptação relativamente fiel de um romance picaresco de Bohumil Hrabal, escritor com quem Menzel trabalhou em vários filmes (nomeadamente Comboios Rigorosamente Vigiados, de 1966), esta comédia sobre um homem que se adapta às circunstâncias históricas, cumprindo o sonho de se tornar milionário na indústria hoteleira, é uma suave parábola sobre a natureza humana no que tem de melhor e pior, temperada pelo típico humor da Europa Central. Ivan Barnev assume o papel de Jan Díte, conferindo-lhe uma aura chaplinesca.

Quanto a Hallam Foe, obra sólida e com excelente banda sonora (incluindo uma canção sobre o protagonista, assinada pelos Franz Ferdinand), narra a história de um rapaz traumatizado pela morte da mãe. Voyeurista compulsivo, é em Edimburgo que ele encontrará, após muitas expedições nocturnas pelos telhados e uma verdadeira superação edipiana, a porta de saída para a sua problemática adolescência.
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]
Olhando para a lista de 23 filmes que podem ser premiados na Berlinale 2007, durante a cerimónia de encerramento (hoje, ao fim da tarde), a primeira conclusão a tirar é que não existem favoritos indiscutíveis. Numa edição com uma qualidade média francamente abaixo das expectativas (fruto da estratégia do director Dieter Kosslick, cada vez mais interessado em conciliar filmes comerciais com obras de autor, deixando o experimentalismo para as secções alternativas), os Ursos devem ir para os poucos filmes que escaparam à mediania. Mas mesmo isso não é garantido, sabendo-se como foram surpreendentes alguns dos palmarés dos últimos anos.
Se o júri, liderado por Paul Schrader, for no mesmo sentido da imprensa (medido em volume de aplausos no fim das projecções e número de estrelas nas revistas que acompanham de perto o festival), então o mais certo é que o Urso de Ouro seja atribuído a Irina Palm, de Sam Garbarski, a inverosímil saga de uma avó que se torna “trabalhadora sexual” para salvar a vida do neto.
No entanto, se a ideia for mesmo premiar o melhor filme, o prémio vai direitinho para Ne Touchez pas la Hache, do veterano Jacques Rivette; ou, eventualmente, para Les Témoins, de André Téchiné. Do contingente americano, o único candidato com aspirações é The Good Sheperd, a saga de Robert De Niro sobre o nascimento da CIA. E se se repetir a aposta numa obra de autor em início de carreira (como Grbavica, de Jasmila Zbanic, vencedora em 2006), O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, do brasileiro Cao Hamburguer, também terá as suas chances.
Quando aos actores, havendo justiça, os Ursos de Prata irão para Julio Chavez (El Otro), que já merecia ter ganho o ano passado (por El Custodio), e para uma de duas actrizes: Jeanne Balibar (Ne Touchez pas la Hache) ou Marianne Faithfull (Irina Palm).
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]
Primeiro foi o futebolístico. Depois, o político e social. No dia seguinte, o geofísico. Por fim, isto.
Um gajo não pode sair do país uma semaninha que acontece logo tudo e mais alguma coisa.

O feliz regresso de Jacques Rivette
ao universo literário de Balzac
Num festival cuja programação competitiva tem sido globalmente fraca, não faltaram pretextos para os jornalistas vincarem o seu desalento, através de debandadas que castigam os realizadores mais chatos ou medíocres. Pois bem. Que a maior dessas debandadas tenha acontecido na projecção do novo filme de Jacques Rivette, Ne Touchez pas la Hache, prova que a crise de qualidade não está apenas em muitos dos que produzem cinema mas também nos que sobre ele escrevem.
Esta adaptação de um romance de Honoré de Balzac (segundo volume da trilogia História dos Treze, integrada na Comédia Humana), mesmo se longe do fulgor de outras películas de Rivette, é o que de melhor a Berlinale ofereceu até agora. Dezasseis anos após A Bela Impertinente, o mestre da Nouvelle Vague voltou a juntar-se a Pascal Bonitzer e a Christine Laurent para escrever o argumento que transforma em imagens e palavras ditas uma das melhores narrativas do grande escritor realista.
Num começo in media res, assistimos à chegada do general Armand de Montriveau (Guillaume Depardieu) a um convento da ilha de Maiorca, onde identifica Antoinette, Duquesa de Langeais (Jeanne Balibar), cujo rasto perdeu há cinco anos e agora vê convertida em irmã Teresa. A narrativa retrocede então à época em que se conheceram, nos salões da Paris mundana. Ela, uma aristocrata coquette, lânguida frequentadora de bailes e ávida de galanteios. Ele, um veterano das campanhas napoleónicas, manco de uma perna, respeitado pela coragem e sentido de aventura que o levou aos mais inóspitos territórios africanos.
Impulsivo, Montriveau depressa declara o seu amor, mas a duquesa prefere levar até ao limite os jogos de sedução. Ignorando quase tudo o resto, Rivette concentra-se neste toca-e-foge sentimental, feito de hesitações, recuos e violentos embates de “aço contra aço”. Antoinette quer eternizar um teatro representado em salas na penumbra e antecâmaras, mas Armand não se contenta, acabando por transformar em rancor vingativo a sua paixão. Quando por fim os sentimentos se invertem, é demasiado tarde. Como será tardia a tentativa de resgate, cinco anos depois.
A notável mise en scène de Rivette mantém sempre em foco a geometria afectiva das personagens, reservando os efeitos irónicos para os entretítulos que sublinham a acção. Num pequeno papel conspirativo, Michel Piccoli ilumina cada cena em que entra. Guillaume Depardieu cumpre, mas não mais do que isso. Balibar está magnífica, como sempre.

De boas intenções
está o deserto cheio
Bordertown, de Gregory Nava, é um filme que pretende denunciar muitas coisas ao mesmo tempo: o choque de culturas na fronteira entre os EUA e o México (“único ponto do globo em que o primeiro e o terceiro mundo se tocam”, disse o realizador na conferência de imprensa); as miseráveis condições salariais e de trabalho nas “maquilladoras” (fábricas onde as empresas americanas produzem, a baixíssimo custo e sem protecção social dos operários, os seus bens de consumo); a violação e assassinato de centenas de mulheres em Juárez (a cidade de fronteira do título), barbárie que as autoridades, no lugar de investigar, camuflam; e os ataques aos jornais e jornalistas que denunciam a situação.
Acontece que Nava nunca explora convenientemente qualquer destes temas, antes se lança num thriller do mais básico e lamecha que se possa imaginar, com duas estrelas latinas a correr como baratas tontas (Jennifer Lopez e Antonio Banderas), um enredo mais esburacado que um queijo Emmental e inenarráveis cenas de acção. Se a ideia era “alertar o mundo” para as histórias reais das mulheres que ainda hoje são mortas em Juárez, o tiro saiu pela culatra. Bordertown, de tanto querer ser tudo, acaba por não ser nada.

Pelo contrário, Hyazgar, do cineasta chinês Zhang Lu, é uma boa surpresa. Lu conta, através de elipses narrativas e recorrendo a belas panorâmicas, a história de um homem que insiste em plantar árvores para evitar a progressão do deserto, perto da fronteira da Mongólia com a China, e o modo como ele ultrapassa a barreira da língua, ao acolher dois norte-coreanos (mãe e filho) em fuga do seu país.
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]
Sempre que vou beber a bica (single expresso) ao Starbucks que fica mesmo em frente ao Hotel Hyatt, centro nevrálgico da imprensa durante a Berlinale, um dos funcionários questiona-me sobre o primeiro nome. É norma da casa escrever, a marcador preto, o nome do cliente no copo de cartão plastificado que outro funcionário encherá com a respectiva bebida.
No meu caso, já vi todas as grafias possíveis: Johnze, Joshua, Giuseppe, Zoejhe, Josy, Joe Zen (gostei particularmente desta). Quem chegou mais próximo foi uma rapariga baixinha que escreveu Josè.
Luzes a dançar numa fachada. E o meu primeiro vídeo no YouTube.
No meio das suas perguntas despropositadas (tipo: «you have so much blue in your films, is blue your favorite colour?»), o jornalista russo saiu-se com esta:
«You have put men dressed as rabitts in INLAND EMPIRE. Why? Do you think that humans are rabbits?»
Lynch fez uma cara séria, como se a pergunta também o fosse, e, depois de uma pausa para pensar, respondeu:
«Well, you know, I really don't think that humans are rabitts. That was just an idea. Fiction. Sorry if I disappoint you. For me, humans are humans. And rabitts are rabbits.»

Da vida imaginada de uma alemã
ao fim da primeira guerra no Líbano
Durante 95% do tempo, Yella, do realizador Christian Petzold, visto ontem na secção competitiva, é apenas um filme algo estranho e com demasiadas incongruências narrativas. Nos restantes 5%, percebemos porquê. À semelhança do que acontece no mais célebre dos contos de Ambrose Bierce, Um Acontecimento na Ponte de Owl Creek, nada do que vemos é real.
Yella vive numa cidade do leste da Alemanha e decide fugir do desemprego, da falta de perspectivas e de um ex-marido obsessivo que não a deixa em paz. Com um trabalho em vista em Hannover, aceita uma última boleia do antigo companheiro e este tenta suicidar-se, lançando o seu jipe de uma ponte para as águas do Elba.
O que se passa daí em diante, tal como com o enforcado de Bierce, é a história da vida futura de Yella, imaginada quando mergulha para a morte. Ou seja, tudo o que ela poderia ter feito se aquele último momento não fosse mesmo o último. E é aqui que Petzold deita tudo a perder, esbanjando a ideia numa espécie de roadmovie financeiro, em que Yella se junta a um homem perito em extorquir comissões a empresas à beira da falência. Num filme que nos oferece sempre menos do que promete e por vezes é tão chato como uma folha de contabilidade em Excel, salvam-se os actores: Nina Hoss (intensa na justa medida) e Devid Striesow (que já demonstrara o seu valor em Die Fälscher).

Beaufort, de Joseph Cedar, conta passo a passo como foi, em 2000, a retirada das tropas israelitas de uma montanha, simbólica por ter sido a primeira conquista importante na invasão do Líbano, dezoito anos antes. Entre o silvo dos morteiros do Hezzbolah e o medo que paralisa os homens cercados, Cedar conseguiu fazer um filme de guerra decente, mas sem panache e praticamente desligado do contexto histórico. As desventuras humanas impressionam, tocam-nos, mas tanto podiam ter acontecido ali como noutro lugar qualquer.

Ainda ontem foi exibido 300 (fora de competição), de Zack Snyder, a partir da versão feita em BD, por Frank Miller, da batalha de Termópilas, em que poucas centenas de soldados espartanos, comandados pelo rei Leónidas, resistiram heroicamente ao gigantesco exército persa de Xerxes I. Com os seus efeitos visuais de encher o olho, actores da loja dos trezentos, heroísmo de pacotilha e retórica proto-fascistóide, 300 parece saído de uma centrifugadora onde alguém juntou O Gladiador, Tróia e O Senhor dos Anéis, mais o algoritmo de um videojogo manhoso e uma dose significativa de fantasias homoeróticas (com homens invencíveis de abdominais salientes). Se não é o pior filme do festival, e de 2007, anda lá perto.
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]
Ontem, entrevistei David Lynch. Ou melhor, ontem entrevistei David Lynch com mais 11-jornalistas-11 sentados em volta de uma mesa redonda. Não é a mesma coisa, claro.
Se as entrevistas colectivas já são um absurdo, inventado pelos departamentos de marketing das grandes produções (com vista a rentabilizar o tempo das suas estrelas e obter o máximo de eco mediático com o mínimo de esforço possível), as entrevistas colectivas com mais de quatro ou cinco jornalistas entram no domínio da irresponsabilidade profissional. Que conversa minimamente decente é que se pode ter nestas circunstâncias e ainda por cima com o tempo limitado a 30-40 minutos?
No caso de Lynch, o que nos salvou foram duas coisas: 1) a simpatia e boa disposição do realizador, mesmo diante das perguntas imbecis de um jornalista russo armado em engraçadinho; 2) o facto de só quatro dos 12 jornalistas cumprirem a sua função, fazendo perguntas; enquanto os outros oito, parasitas sem pudor, entraram mudos e saíram calados (mas com a entrevista integralmente guardada nos seus gravadores).
Ao sentar-se, Lynch fechou os olhos e esperou. Julgando que o autor de INLAND EMPIRE estava a fazer um qualquer exercício de meditação transcendental, ninguém arriscou a primeira pergunta. Então, ao fim de meio minuto, David abriu os olhos e disse: «We could just be here, in silence, for 30 minutes, don't you think?»
Ele lá sabia.
Por todo o lado corações de chocolate e cartolina, muitas rosas e empenho obrigatório dos amantes. Neste mundo cada vez mais globalizado, a praga sentimental-consumista não tem fronteiras.

Triunfo de Marianne Faithfull
agita as águas na Berlinale
Independentemente da escolha que o júri oficial venha a fazer, há uma honra que ninguém pode tirar a Sam Garbarski: a obra que trouxe a concurso, Irina Palm, foi a primeira a merecer uma ovação digna desse nome, quer na projecção para jornalistas, quer na conferência de imprensa. E se o festival ainda não tivera um filme-sensação, agora já tem. Nos corredores, nos cafés, na fila de espera para a sala de escrita, é de Irina Palm que se fala.
Tanto bruaá tem uma explicação: se o filme é bom, Faithfull é ainda melhor (metendo no bolso a favorita até ao momento: Marion Cotillard na versão a papel-químico de Edith Piaf). Morena e gordinha, a actriz/cantora veste a pele de Maggie, típica inglesa entradota e de classe média-baixa, viúva anódina como a aldeia em que vive, mas determinada a resolver um problema bicudo que se abateu sobre a família: o neto sofre de uma doença gravíssima e é preciso arranjar dinheiro para pagar uma viagem à Austrália, onde fica o único hospital que pode fazer alguma coisa por ele.
Sem rendimentos fixos nem poupanças, Maggie tenta tudo, dos empréstimos bancários às raspadinhas. Em vão. Como último recurso, acaba por responder a um pedido de trabalho num clube nocturno, daqueles em que cinquentões lúbricos penduram notas na parca lingerie de raparigas semi-nuas. O ambiente repugna-a, claro, mas valendo-se das mãos “suaves”, elogiadas pelo proxeneta húngaro que gere o estaminé, descobre que tem um verdadeiro dom: o dom de masturbar os clientes comme il faut, numa engenhosa sala com um buraco para a função mas nenhum contacto visual. Dominada a técnica com a ajuda de uma rapariga da casa, Maggie começa a revelar-se tão boa naquilo que rapidamente ganha um nome artístico (Irina Palm, escrito a néon), uma fila interminável de homens ávidos do seu toque, a cobiça de outros empresários da noite e o adiantamento da verba necessária.
O segredo do filme está na delicadeza bem humorada com que o realizador aborda situações no mínimo escabrosas. Aos jornalistas, Garbarski disse que esta é uma “comédia romântica politicamente incorrecta” e não anda longe da verdade. O envolvimento de Maggie no sub-mundo do sexo, que envergonha o filho e leva ao rubro os mexericos na aldeia (quando se descobre a origem do dinheiro), vai sendo narrado de uma forma divertidíssima e sem sombra de perversão, respeitando a pureza da personagem que encara tudo aquilo como um simples “trabalho” (a partir de certa altura, por exemplo, veste uma bata de mulher-a-dias e traz de casa plantas e quadros para pendurar nas paredes). Num argumento eficaz, só o final, com o romance entre Maggie e o proxeneta bonzinho, é que se afigura demasiado inverosímil.

Antes de Irina Palmer, a competição abriu ontem com mais um bom exemplo da pujança do cinema argentino. El Otro, de Ariel Rotter, conta a história de um advogado de 46 anos (Julio Chavez) que viaja depois de descobrir que vai ser pai. Confrontado com a morte de um passageiro no autocarro, mesmo ao seu lado, aproveita a viagem para se questionar, numa espécie de odisseia metafísica cheia de silêncios, simulações, olhares contemplativos e poucas palavras.
O “outro” do título é tanto o bebé a caminho, intruso maravilhoso na vida do casal, como o Juan que regressa a casa e nada tem a ver com o que partiu. Belo filme.
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]
Os dois rapazes têm cara de berlinenses.
«Can you tell me the way to Rosenthaler Strasse?»
Olham um para o outro, como se lhes tivesse perguntado pela Casa dos Bicos.
«Rosenthaler Strasse? Rosenthaler Strasse?», repetem. E encolhem os ombros. Nunca ouviram falar de semelhante rua.
Agradeço, eles afastam-se, ando uns cinco metros no sentido contrário.
Junto ao passeio, uma placa assinala o nome da artéria em que mantivemos esta curta conversa: Rosenthaler Strasse.

É isto que vejo à saída do metro, por volta das nove da manhã.
Entre os jornalistas que cobrem a Berlinale, funciona genericamente assim: jovens de mais ou menos 30 anos vêm de países latinos ou orientais; enviados septuagenários é quase certo que representam países de Leste; entre os dois extremos ficam os alemães, os ingleses, os italianos, os outros todos.
Numa esquina, uma prostituta murmura qualquer coisa em alemão. «Sorry, I don't speak german», digo-lhe, enquanto prossigo a marcha. «You don't need to», responde ela.

O pesadelo da sida
segundo André Téchiné
Três anos depois de Os Tempos que Mudam, André Téchiné volta ao activo com Les Témoins (As Testumunhas), talvez o seu melhor filme da última década. A acção decorre na França dos anos 80, imediatamente antes e durante o pesadelo da descoberta de um novo vírus (HIV) que haveria de destruir a vida de milhares de pessoas e comprometer a forma como muitos lidam com a sua sexualidade.
Téchiné aborda o tema de frente, sem falsos pudores, mas nunca moraliza e muito menos julga as suas personagens, antes as deixa interagir num mundo que subitamente se tornou instável e perigoso. Mais do que um filme sobre a sida, Les Témoins é o registo bastante cru do modo como a doença veio envenenar os “bons tempos”, transformando-os numa “guerra” em que toda a gente saiu a perder.
No centro da história está Manu (Johan Liberau), um rapaz de 20 anos que chega a Paris para viver no minúsculo quarto de hotel da irmã (Julie Depardieu), uma aspirante a cantora de ópera. À volta de Manu circulam Adrien (Michel Blanc), um médico gay que o namora platonicamente mas sem abdicar do desejo; Sarah (Emmanuelle Béart), amiga de Adrien, escritora bloqueada depois do nascimento de um filho com o qual não se consegue relacionar; e Mehdi (Sami Bouajila), marido de Sarah, agente implacável da Divisão de Costumes da polícia parisiense, responsável pelo desmantelamento de redes de prostituição.
Só depois de nos familiarizar com a espessura psicológica deste microcosmos humano é que Téchiné toca na ferida: Manu tem aquela doença ainda sem nome de que se fala na televisão. A sua alegria esvai-se, o corpo fica coberto de manchas e eczemas. A sida não é só a morte à espera de uma porta aberta. É também a ameaça que paira sobre os outros, uma onda de choque que põe tudo em causa: os amores, os casamentos, as amizades. Les Témoins regista de forma precisa, como um sismógrafo ultra-sensível, mas sem fatalismo, essa onda de choque que não parou, até hoje, de reverberar.

Sobre Notes on a Scandal, de Richard Eyre, adaptação cinematográfica de um romance de Zoë Heller, exibido fora de competição, pairava uma certa expectativa. Até que ponto se justificariam as quatro nomeações para os Oscares de Hollywood (Judi Dench, melhor actriz; Cate Blanchett, actriz secundária; Patrick Marber, argumento adaptado; e Philip Glass, melhor banda sonora)? A resposta é simples: não só se justificam todas como podem converter-se, as quatro, nas desejadas estatuetas. Dench, no papel de Barbara, uma velha professora sarcástica, retorcida, controladora e de um egoísmo levado ao limite pela solidão, é simplesmente extraordinária. Blanchett, na pele da jovem professora que comete um deslize (envolve-se com um aluno de 15 anos) e cai na teia de chantagem emocional arquitectada por Barbara, não lhe fica atrás. Marber soube preservar a qualidade literária do livro (finalista do Man Booker Prize em 2003) e Philip Glass continua um mestre na arte de conferir tensão e ímpeto às histórias que vemos no ecrã.

Quanto a When a Man Falls in the Forest, de Ryan Eslinger, não há muito a dizer. É o típico filme indie falhado. O realizador tem ao seu dispor boas personagens e excelentes actores (Sharon Stone, Timothy Hutton, Dylan Baker, Pruitt Taylor Vince) mas nunca sabe o que fazer com eles.
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]
Esta noite vi INLAND EMPIRE, de David Lynch, à margem do festival. Uma experiência ainda mais bizarra e enigmática do que Mulholland Drive, que já não era pêra doce. Para além de pairar entre o pesadelo e a alucinação, com desdobramentos temporais e curto-circuitos narrativos, saltos entre a Califórnia soalheira e a Polónia coberta de neve, mais uma actriz (Laura Dern) a fazer pelo menos três personagens que suspeitamos serem projecções umas das outras, em INLAND EMPIRE ainda cabe uma sitcom com pessoas vestidas de coelho, diante de uma assistência que ri às gargalhadas de frases como "que horas são?", e umas sequências em que só se fala polaco.
Agora imaginem uma versão do filme sem legendas em inglês. Pois foi o que nos calhou em sorte. Longos minutos em vídeo baratucho esticado para 35 mm, ouvindo polacos traduzidos em alemão. Ou seja, acabámos por viver uma experiência lynchiana dentro de outra experiência lynchiana (que já era, por sua vez, uma experiência lynchiana elevada ao cubo).

Mandela, os dilemas da fé
e a bravura em Iwo Jima
Três filmes, três ilhas. Os acasos da programação fizeram com que coincidissem, no quarto dia do festival, três obras que exploram diferentes tipos de vivência problemática da insularidade: a reclusão forçada (Goodbye Bafana, de Bille August), a reclusão voluntária (In Memoria di Me, de Saverio Costanzo) e a reclusão desesperada (Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood).
O cenário de Goodbye Bafana é Robben Island, a famosa ilha-prisão ao largo da cidade do Cabo, onde Nelson Mandela, dirigente do ANC e futuro presidente da África do Sul, passou 18 dos seus 27 anos de encarceramento. O filme começa em 1968, com a chegada do guarda James Gregory (Joseph Fiennes), afrikaaner típico, racista e crente nas virtudes do apartheid, incumbido de uma missão concreta: censurar as cartas enviadas e recebidas pelos prisioneiros, enquanto mantém Mandela debaixo de olho, valendo-se do facto de saber falar a língua xhosa, aprendida durante a infância numa quinta do Transkei. Contudo, o zelo com que telefona para o seu superior, em Pretória, diminui à medida que descobre a dignidade humana de Mandela (Dennis Haysbert), de quem se torna cada vez mais próximo, e se vai apercebendo dos crimes bárbaros cometidos pelo governo sul-africano, a partir das informações que intercepta no seu trabalho de vigilância.
Este processo gradual de consciencialização de Gregory, que o leva a pôr em causa as suas certezas e o seu equilíbrio familiar, é o melhor que o filme tem para oferecer. Depois, quando a narrativa mergulha nos meandros políticos que levaram à transferência de Mandela (primeiro para a prisão de Pollsmoor; depois para a de Victor Verster) e finalmente à sua libertação, fez ontem precisamente 17 anos, vem ao de cima o conservadorismo formal de August. Sob o peso da História verdadeira, a história de Goodbye Bafana (inspirada no livro homónimo de James Gregory, considerado uma “fraude” por Anthony Sampson, o biógrafo de Mandela) torna-se ao mesmo tempo solene e banal.

In Memoria di Me decorre no interior do complexo eclesiástico (capelas, igreja e seminário) da ilha de San Giorgio Maggiore, em plena laguna de Veneza. Segundo o realizador Saverio Costanzo, esta obra narra “o difícil caminho em direcção à fé absoluta”, através dos dilemas e hesitações de Andrea (Christo Jivkov), um rapaz que abdica das infinitas possibilidades que o mundo lhe oferece para se fechar, com algumas dezenas de outros rapazes meditabundos e silenciosos, num mundo claustrofóbico assente em regras rígidas, denúncias e sujeições – espécie de penosa antecâmara da plenitude espiritual.
Costanzo explora bem a lógica austera do seminário e dos seus rituais, a que dois dos noviços (Fausto e Zanna) não resistem, mas claudica quando deixa o filme soçobrar num autismo total. Os poucos elementos narrativos autodestroem-se e o espectador fica perdido no meio de personagens opacas, impassíveis como estátuas e que percorrem os corredores com a imponderabilidade dos fantasmas. Mais do que um “difícil caminho”, este filme é uma punição (especialmente para incréus), uma penitência interminável, o equivalente cinematográfico dos cilícios.

A última ilha é a de Iwo Jima, onde em Fevereiro de 1945 o Japão começou a perder a II Guerra Mundial. Após filmar a batalha do ponto de vista americano, no menos conseguido As Bandeiras dos Nossos Pais, Clint Eastwood revela com fôlego épico, em Cartas de Iwo Jima (estreia na próxima quinta-feira), a resistência heróica que os soldados japoneses, escondidos nos túneis do monte Suribachi sob o comando do general Tadamichi Kuribayashi (Ken Watanabe, brilhante), conseguiram oferecer a um inimigo com claro ascendente humano e material.
Filme de guerra à antiga, intenso, grandioso, Cartas de Iwo Jima não está em competição. Se estivesse, já teria o Urso de Ouro na sua mira telescópica.
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]

No resto do ano, funciona como casino e sala de espectáculos (musicais, galas, fantochadas semi-eróticas).
Título: O Albergue
Descritivo: A única coisa que nos une é não termos nada que nos una
Imagem do cabeçalho: Estava prevista, mas nunca se chegou a um consenso
Não é por acaso que kitsch é uma palavra alemã.

De manhã, a cidade acordou branca.

Nascimento de uma agência secreta
O principal problema de The Good Shepherd, segundo filme de Robert De Niro, exibido ontem no sector competitivo da Berlinale, é o excesso de ambição. Ao querer narrar em detalhe o nascimento e os primeiros 15 anos de actividade da CIA, bem como as implicações do sigilo profissional na vida privada de um dos seus fundadores, o actor/cineasta acabou por dar um passo maior do que a perna. As qualidades reveladas no filme de estreia (A Bronx Tale, 1993) confirmam-se, há um savoir faire técnico inquestionável e um elenco de luxo (Matt Damon, William Hurt, John Turturro, Angelina Jolie, Alec Baldwin, Joe Pesci, De Niro himself), mas o argumento de Eric Roth estica de tal maneira a história, na ânsia de meter lá dentro tudo e mais alguma coisa, que acaba por tornar o filme desnecessariamente longo (quase três horas) e a espaços aborrecido.
No centro da narrativa, inspirada em factos verídicos, está Edward Wilson (Matt Damon), aluno de poesia em Yale e membro da Skull and Bones, uma sociedade secreta que reúne a elite estudantil do país. Recrutado para o Office of Strategic Services (OSS), em 1939, depois de denunciar um professor de literatura com simpatias nazis, ele passa a II Guerra Mundial em Londres, onde aprende o bê-á-bá da espionagem e a ética do segredo ao serviço dos interesses nacionais. Findo o conflito, é naturalmente convidado a participar na criação da CIA (1947), a agência secreta a que o governo americano recorre para obter informações estratégicas, fundamentais no mundo bipolar surgido com a Guerra Fria, mas também para fazer o trabalho sujo que a diplomacia oficial não assume (derrube de governos incómodos, tortura de espiões estrangeiros, etc.).
Grande parte do enredo gira em torno de um momento crucial: o falhanço da invasão de Cuba, quando mais de mil exilados ao serviço da CIA desembarcaram na Baía dos Porcos e foram derrotados pelas tropas de Fidel Castro. Wilson procura descobrir a todo o custo quem é que forneceu ao inimigo a localização do desembarque e depara com uma verdade incómoda: foi o próprio filho, numa inconfidência feita nos braços da amante, espia ao serviço do KGB [convém esclarecer que esta é uma versão puramente ficcional; na verdade, o desastre da Baía dos Porcos deveu-se à incompetência da CIA, que decidiu avançar com a operação mesmo sabendo que os soviéticos estavam a par dos seus planos].
Mais do que na história da agência, De Niro concentra-se no impacto que os deveres de lealdade à pátria têm na vida familiar de Wilson. Além de arruinarem a relação com a mulher (Angelina Jolie) e com o filho (Eddie Redmayne), os seus silêncios e interditos espelham a problemática herança moral deixada pelo próprio pai, que se suicidou “por cobardia” quando ele era criança. Infelizmente, o registo assumido por Damon, tão impenetrável que se torna neutro, dilui a complexidade da personagem e, com ela, o foco dramático do filme.
Do campo de concentração
para o deserto mongol

Depois da abordagem feita por Cao Hamburger à vida da comunidade judaica de São Paulo (em O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias), foi exibido em competição, ontem, Die Fälscher (Os Falsários), de Stefan Ruzowitzky, outro filme com personagens judias, desta vez abordando o Holocausto de um ângulo pouco habitual.
Salomon Sorowitsch (Karl Markovics, excelente) é um fura-vidas, mestre na falsificação de documentos e notas. Quando uma amante ocasional, impressionada com as suas qualidades de retratista, o incentiva a fazer da arte uma forma de vida, ele responde: “Para quê ganhar dinheiro a pintar se posso ganhar dinheiro a fazer dinheiro?”
Um dia, porém, o inspector Herzog prende-o e envia-o para o campo de concentração de Mauthausen, onde só sobrevive à custa da exploração pragmática da sua esperteza. Perto do fim da guerra, Sorowitsch é transferido para Sachsenhausen, onde reencontra Herzog à frente da Operação Bernhard, um plano que pretendia destruir a economia de Inglaterra e dos EUA através da introdução de divisas falsas. Fechados numa “gaiola dourada” dentro do campo, com camas confortáveis, duches e comida decente, algumas dezenas de prisioneiros eram forçados a produzir cópias perfeitas da libra esterlina e do dólar americano.
Seco e directo, o filme confronta-nos com o terrível dilema moral destes homens: em caso de falhanço, seriam mortos; em caso de sucesso, estariam a ajudar os nazis a vencer uma guerra aparentemente perdida. Tudo se joga entre o heroísmo e o instinto de sobrevivência, a lealdade e o medo.

Ainda em competição, vimos O Casamento de Tuya, do chinês Wang Quan’an, sobre as tribulações afectivas de uma pastora no deserto da Mongólia Interior. Um filme estimável, bem filmado, mas narrativamente rarefeito e incapaz de superar a sua dimensão etnográfica.
[Texto publicado hoje no Diário de Notícias]
Em matéria de toques de telemóvel, já ouvi de tudo. Big band à la Duke Ellington. Riso de criança. Sapateado. Marcha nupcial. Like a Virgin.

O genérico do filme de Soderbergh é uma colagem de imagens reais (documentários e material de arquivo): Berlim arrasada pelos bombardeamentos, pessoas no meio dos escombros, crianças esfarrapadas, igrejas por terra, alguns sorrisos de quem perdeu tudo mas não a vida. No meio deste fluxo de imagens, houve uma que me atingiu em cheio: a placa da estação S-bahn de Potsdamer Platz, sozinha no meio da desolação. Ao regressar ao hotel, passei por ali. À volta, edifícios de escritórios, estruturas de vidro, arquitectura moderna. Sobre o local onde há 62 anos só havia cinzas.

O pastiche falhado de Soderbergh
Há um ano, a Berlinale viu George Clooney vestir a pele de um agente da CIA perdido nos labirintos da indústria petrolífera, em Syriana – filme-mosaico de Stephen Gaghan, com produção de Clooney e Steven Soderbergh. Ontem, o actor voltou para apresentar outra intriga internacional, passada desta vez na Berlim em ruínas de 1945 e com Soderbergh atrás das câmaras. O resultado, hélas, é igualmente decepcionante.
Com argumento de Paul Attanasio, que adapta de forma algo rígida um romance de Joseph Kanon, The Good German/O Bom Alemão – estreia em Portugal a 8 de Março – acompanha as deambulações de Jake, um correspondente de guerra americano (Clooney) de regresso à capital alemã para acompanhar a Conferência de Potsdam, em que Truman, Estaline e Churchill “dividiram” a Alemanha e projectaram os equilíbrios da futura Guerra Fria. Mais abaixo na escala hierárquica, tanto do lado americano como do soviético, não faltam manobras na sombra e jogos perigosos, envolvendo corrupção, homicídios ou tentativas de capturar, para proveito próprio e sem dilemas morais, os grandes cérebros nazis.
Tendo nas mãos uma história que podia ser de Graham Greene (imaginem um cruzamento entre O Americano Tranquilo e O Terceiro Homem), Soderbergh quis filmá-la à maneira dos grandes estúdios dos anos 40, imitando os enquadramentos, os efeitos de montagem, o preto e branco contrastado e até as limitações técnicas da época. Mas o pastiche, mesmo se assumido (veja-se a cena final no aeroporto, decalcada de Casablanca), depressa se esgota em meia-dúzia de piscadelas de olho cinéfilas. O que sobra é uma narrativa confusa, sufocada pela ribombante banda sonora, e o desempenho dos actores: um Tobey Maguire exuberante mas que desaparece ao fim de meia hora; um Clooney em piloto automático; e uma Cate Blanchett em poses de Marlene Dietrich, confundindo mistério com astenia.

Ainda na competição oficial, foram exibidas outras duas películas: I’m a Cyborg, but that’s OK, do sul-coreano Park Chan-wook, e O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, do brasileiro Cao Hamburger. A primeira é uma comédia romântica surrealista sobre meia dúzia de figuras internadas num hospital psiquiátrico: uma rapariga anoréctica que se julga um cyborg, lambe pilhas alcalinas ao almoço e gosta de falar com as lâmpadas; um rapaz traumatizado com o abandono da mãe que canta yodel como um pastor dos Alpes; etc. Bizarro, poético, com um sentido de humor muito oriental, I’m a Cyborg... é um ovni de trajectória irregular mas desopilante.

Quanto ao filme de Hamburger, co-produzido por Fernando Meirelles, belíssima crónica do Brasil de 1970, entre a repressão da ditadura militar e a euforia com a conquista da terceira Copa do Mundo pela melhor selecção de sempre do escrete (Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivelino...), está sem dúvida muitos furos acima dos rivais. De um equilíbrio narrativo e visual a toda a prova, eis uma pequena jóia cinematográfica que é desde já um fortíssimo candidato ao Urso de Ouro.
[Texto publicado hoje no Diário de Notícias]
Pela primeira vez na minha vida, não vou poder votar (como explico aqui). Esperar pelos resultados a 3000 quilómetros de distância, no domingo à noite, vai ser um tormento.

A vida pouco cor-de-rosa
da ‘miúda’ Edith Piaf
Pior era impossível. O Festival de Cinema de Berlim tem o estranho costume de abrir a competição com filmes fraquinhos, mas desta vez exagerou. La Môme, do francês Olivier Dahan, sobre o percurso artístico e os desastres pessoais de Edith Piaf (1915-1963), é um biopic no pior sentido da palavra: um pastelão biográfico, a abarrotar de clichés, presunçoso e com a ilusão de que se pode condensar uma vida, sobretudo uma vida como a de Piaf, em apenas duas horas (ou, neste caso, em duas horas e vinte, já que Dahan não quis, infelizmente, poupar na película).
As cenas iniciais revelam desde logo a estratégia narrativa do filme. Após uma sequência em que a cantora desfalece em palco durante um concerto em Nova Iorque (1959), prenunciando a derrocada final, regressamos à infância de Piaf, quando ela ainda se chamava Edith Giovanna Gassion e vivia na miséria, em Belleville, entre a mãe cantora de rua e o pai contorcionista. É a chorar que a vemos a primeira vez, ao deus-dará, longe das saias da progenitora negligente. É a chorar que surge no último plano, face às memórias trazidas pela proximidade da morte. E é em lágrimas, ou em abismos de tristeza, que a encontramos quase sempre no restante labirinto de tempos cruzados, construído por Dahan como se fosse um dispositivo ficcional engenhoso (aos saltos para trás e para diante), quando na verdade é apenas um modo trapalhão de fragmentar a história, deixando pontas soltas por todo o lado e raccords que não lembram ao diabo.
Ainda assim, o espectador consegue reconstruir mentalmente a cronologia dos factos. Depois de acompanharmos, a traço grosso, o crescimento de Edith, num périplo que começa no bordel bretão da avó paterna (onde é protegida por uma prostituta a transbordar de instintos maternais e que a “salva” da cegueira com rezas no túmulo de Santa Teresa, em Lisieux), terminando no abandono definitivo do pai decadente, incapaz quer para o circo quer para a vida de saltimbanco, depois desta imersão num realismo dickensiano manhoso, voltamos a encontrar a futura Piaf em Montmartre, a cantar nas ruas e a beber directamente da garrafa, como uma Amélie Poulain tontinha e sem maneiras.
É então que tudo muda. Descoberta pelo gerente de um cabaré (Gérard Depardieu), la môme, a miúda, sobe ao palco e deslumbra Paris. Seguem-se os discos, o triunfo em Nova Iorque, a paixão trágica pelo pugilista Marcel Cerdan (João Pedro Martins), mais as depressões, os caprichos, o álcool, a morfina e todos os excessos que lhe destruíram a saúde, obrigando-a a tomar injecções diárias para “calar o corpo” e permitir que se arrastasse até ao microfone mais próximo.
Assumindo as várias idades de Piaf, do esplendor juvenil à fragilidade extrema dos últimos anos, Marion Cotillard torna quase caricatural o seu mimetismo mais-que-perfeito – nos gestos, na pose, na maneira de falar – mas não é por ela que o filme falha. O filme falha porque o realizador não tem um pingo de subtileza ou sofisticação, abusa do sentimentalismo, é previsível (acaba com Non, je ne regrette rien) e chega a ser ridículo em certos momentos (sendo o mais evidente aquele em que Santa Teresa fala a Edith através das chamas lançadas por um cuspidor de fogo).
Salvam-se, escasso consolo, as canções na voz original.
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]
Está quase tudo igual. A Potsdamer Platz, o urso omnipresente, os jornalistas de cartão plástico vermelho ao pescoço, o Starbucks, a sala de imprensa sempre cheia e com fila de espera à porta, as casas de banho imaculadas do Hyatts, o genérico antes do filme, as pastas a tiracolo (este ano: roxas), o cacifo na cave do Palast (este ano: chave n.º 575), a papelada que se apanha aqui e ali, os gestos repetidos todas as manhãs. É uma rotina diferente da outra, mas não deixa de ser uma rotina.

Neve em barda, natalícia.
1) O hotel fica a 13 estações de metro de Potsdamer Platz (onde terei que estar todos os dias às nove da manhã), com uma mudança de linha a meio, da U5 para a U2. No ano passado ficava a três estações de distância, todas na U2.
2) O hotel tem internet sem fios.
Mercedes. Luzes reflectidas nos vidros. Britney Spears e vozes teutónicas muito excitadas. Parques, avenidas, algumas fachadas familiares. A antena gigante erguendo-se ao fundo da Unter den Linden. O táxista que não fala inglês.
Sai-se do aeroporto e o frio fica agarrado à pele como uma sanguessuga. Welcome to Germany.
Parto daqui a nada, para outros dez dias de imersão absoluta em filmes de todo o mundo.
«Há poucas outras histórias bíblicas com tanto dramatismo e acção, explosões narrativas e emoções cruas como as que encontramos na vida de Sansão: a luta com o leão; as trezentas raposas a arder; as mulheres com quem se deitou e a única que amou; todas as traições femininas da sua vida, desde a mãe a Dalila; e, no final, o seu suicídio assassino, quando fez desabar a casa sobre si mesmo e mais três mil filisteus. No entanto, para além da impulsividade bravia, do caos, do aturdimento, podemos intuir uma história que, ao fim e ao cabo, é a jornada tormentosa de uma alma só, abandonada e turbulenta que nunca encontrou um verdadeiro lar no mundo, fosse como fosse, e cujo próprio corpo era um duro local de exílio. Para mim, esta descoberta, este reconhecimento, é o ponto em que o mito – apesar das suas imagens grandiosas, as suas aventuras desmedidas – desliza silenciosamente para a existência diária de cada um de nós, para os nossos momentos mais íntimos, para os nossos segredos enterrados.»
[in O Mel do Leão, de David Grossman, tradução de Paula Reis, Teorema, 2006]
Tira as malas do armário, sacode o pó, escolhe as camisas, consulta os sites de meteorologia, tantas vezes sem a certeza de querer partir.

SUL
Deixo que o táxi me leve. Mais que o lugar,
deixo que o som me leve,
bom de ouvir e dizer: Leblon.
A primeira sílaba se eleva, anel breve,
e desaparece
logo que a outra em onda lenta e dilatada se desabotoa.
A resina translúcida e viscosa
do que nelas é água e sal fica na boca.
[in Rua do Mundo, Quasi, 2007]
O sketch mais genial dos últimos tempos e um tour de force de Ricardo Araújo Pereira: além de imitar na perfeição os tiques e a prosápia de Marcelo Rebelo de Sousa, desmonta com ironia os "argumentos" do Professor sobre o Referendo de despenalização da IVG. Depois disto, quem é que o vai conseguir levar a sério nas suas prelecções dominicais?
Os diplomas orgânicos que regulamentam as várias fusões e extinções de Institutos do Ministério da Cultura, no âmbito do PRACE (Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado), foram aprovados hoje em Conselho de Ministros, dando sequência ao que ficou estipulado na nova lei orgânica do MC, publicada em Diário da República a 27 de Outubro de 2006. Acontece que um dos artigos finais da lei orgânica estipulava claramente que os diplomas agora aprovados deviam ser aprovados no prazo de 90 dias. Ou seja, até 25 de Janeiro.
Houve algum esclarecimento do Governo quanto a este atraso? Que eu saiba não. Mas devia haver. Se a lei diz uma coisa, é para se cumprir. É também por estes atrasos e procrastinações se terem tornado banais, tão banais que já ninguém repara ou protesta, que o país está como está.
Adenda - Sabendo que as novas leis orgânicas para todos os ministérios foram publicadas no mesmo dia (27/10/2006) e com o mesmo articulado (só mudam os nomes dos organismos a extinguir ou fundir), seria interessante verificar quantos ministérios aprovaram, mesmo se com atraso, os diplomas regulamentadores e quantos ainda não o fizeram.
«livros abrem-se ou / fecham-se como portas criando uma corrente / d'ar»

Battaglie & Lamenti, de vários compositores italianos (1600-1660), com Monserrat Figueras e Jordi Savall, à frente do Hespèrion XXI (edição Alia Vox). É tudo belíssimo, mas o meu coração inclina-se, como sempre, para os Lamenti: não só o célebre Lamento d'Arianna, de Claudio Monteverdi (obra-prima absoluta), mas também o Lamento di Iole, de Jacopo Peri; o extraordinário Pianto d'Erinna, de Nicolò Fontei; e Il Lamento "Su'l Rodano Severo", de Barbara Strozzi.